Nélida e o “romance perfeito”: nova edição de luxo de “A república dos sonhos”

23/09/2015 604 visualizações

nelida10_por Simone Marinho (2)Mesa, cadeira, televisão, spot de luz, um quadro de cortiça para fixar seus esboços e algumas garrafas de vinho do Porto. Com este aparato, Nélida Piñon trancou-se por 21 dias em uma pensão em Congonhas do Campo, no interior de Minas, para escrever A República dos Sonhos. A saga duraria mais três anos, desta vez, passados no Rio de Janeiro e embalados por música clássica. O resultado: um romance primoroso de mais 700 páginas, a maior de suas obras de ficção, relançada em edição de luxo pela editora Record.

Filha de imigrantes da Galícia, na Espanha, Nélida mergulha em parte de suas lembranças de infância para reconstituir a história de uma família, que se confunde com a História do Brasil e dos imigrantes que aportaram aqui em busca de uma nova vida. No romance, Madruga é um jovem camponês que abandona a terra natal da escritora para embarcar em um navio para o Rio de Janeiro. Com a história do personagem e a construção de uma fascinante árvore genealógica, a autora passeia com o leitor pelo século XX, revelando as conquistas e desilusões, tanto no Brasil como no velho continente.

A edição comemorativa em capa dura traz ainda um ensaio do escritor Alberto Mussa, que vê em A República dos Sonhos “um dos textos seminais da cultura ocidental”. Leia trechos do prefácio abaixo e o arquivo completo aqui.

  

“A república dos sonhos é, em todos sentidos, um romance total, um romance perfeito.

Embora não se reduza a apenas um protagonista, a narrativa gravita em torno de uma personagem masculina de feição patriarcal: Madruga, nascido numa pequena aldeia da Galiza, noroeste da Espanha, que desde muito cedo acalenta o sonho de ‘fazer a América’. Os pais, contudo, não aprovam semelhante quimera. Mas estamos diante de um varão obstinado que não conhece obstáculos; e que termina por fugir de casa, para desembarcar, em 1913, sem dinheiro e sem contatos, no Rio de Janeiro — cidade onde irá fundar uma família e adquirir fortuna.

A trajetória de Madruga configura verdadeira saga e põe em movimento uma constelação de personagens: a esposa, os seis filhos, avós e netos, sogros e noras, o tio, o genro, amigos, empregados. Forma-se, assim, vasto painel humano onde se inscrevem eventos capitais do século 20, tanto do Brasil quanto da Espanha.

Mas não se trata de um romance social, no sentido clássico, que exige ou pres

supõe certa ideologia. Não é ainda romance psicológico, ou pelo menos não se esgota nesse plano, apesar de muitas personagens terem sido evisceradas de maneira radical. Nem se reduz ao nível épico, a despeito de suas imensas escalas, tanto a espacial quanto a cronológica. Também não se confina ao trágico, em que pesem seus muitos efeitos catárticos. E nem se limita ao mítico — que sobrevém das entrelinhas, de uma quarta dimensão da leitura — embora me pareça seja esse seu escopo principal.

Tal polifonia só se torna possível porque A república dos sonhos consiste, na verdade, numa somatória de romances ou de núcleos romanescos muito bem articulados num amplo fluxo totalizador, graças a uma inovadora e extraordinária geometria.

O presente narrativo se concentra num curtíssimo período, durante os últimos anos do regime militar, indo do momento em que Eulália, consorte de Madruga, pressente a própria morte até pouco depois de sua consumação. Esses são os dois pontos extremos; constituem, respectivamente, a abertura e o encerramento do livro. Não formam, contudo, uma estrutura linear: grande parte da massa textual de A república dos sonhos é retrospectiva, remontando a histórias anteriores ao próprio nascimento de Madruga.

Tal armação esconde ainda um truque, uma grande cartada. Porque — do ponto de vista de Madruga — ocorre justamente o inverso: o romance começa pelo fim e termina pelo começo. Quando Eulália começa a morrer, inicia-se o ocaso de Madruga (que em sua derradeira aparição está sentado, em silêncio, numa cadeira de balanço). E só depois da morte de Eulália é que Breta, a neta, se prepara para contar a história do avô — história essa que se acaba de contar.

O elemento fundamental é precisamente essa ambivalência dos pólos cronológicos. Entre estes, tudo se movimenta de forma disfarçadamente aleatória, como num caos planejado, ora sob atração do desfecho, ora do princípio; ora no Rio de Janeiro, ora na longínqua Sobreira. Personagens e eventos se sucedem, avançam e recuam na linha do tempo e no eixo do espaço. Não é narrativa circular, nem em espiral; mas calidoscópica. Os temas, os conflitos nunca são completamente resolvidos. O leitor tem a forte sensação (que se confirma) de que permanece sempre alguma coisa oculta, uma questão a ser retomada. O romance opera, desse modo, em perfeito moto continuum. Por isso, embora haja um ponto final, embora tenha de haver um ponto final — porque um livro é um objeto físico — termina-se a leitura com a sensação de que a narrativa está apenas começando.

(…) Sendo um romance constelar, como se disse, há múltiplos pares e múltiplas matérias. Assim, Madruga e Venâncio (o inseparável amigo) nos levam a refletir sobre a história da imigração e a noção de nacionalidade; Esperança e Miguel (seu irmão), sobre os ritos de passagem e a perda da inocência; Madruga e Tobias (o caçula), sobre a natureza viril; Eulália e Odete (a empregada), sobre a questão negra. E daí por diante.

(…) Num certo sentido, as demais personagens também falam, também se expressam imediatamente em relação ao leitor, seja nos diálogos propriamente ditos ou em intervenções isoladas, que pontuam a narrativa. Tais enunciados, contudo, se compõem de uma linguagem invulgar, não traindo a oralidade dos realismos. Parecem muitas vezes extraídos de autênticas tragédias, tal sua força evocativa, sua grandiloquência espontânea. São precisamente tais diálogos e intervenções que introduzem no romance o referido timbre trágico — muito raro na literatura brasileira, herdeira que é do espírito machadiano.

Aliás, quando Nélida Piñon emergiu na prosa nacional, com Guia mapa de Gabriel Arcanjo, em 1961, já o fez abrindo nova senda, inaugurando uma linhagem romanesca — ao unir, entre outros elementos, um fundo verdadeiramente mítico a essa dicção tragicizante. Pinço, por exemplo, uma das falas da personagem Gabriel: Apascenta-te, Mariella, e seja minha ovelha! Em Madeira feita cruz, de 1963, diz Isaías: Ana, Ana, favoreceste o mal nesta casa. Johanus, uma das figuras centrais de Fundador, de 1969, declara: Nunca fui senão água, tomando jeito de vaso… Do mesmo modo, anuncia o anônimo pai de Marta, a protagonista de A casa da paixão, novela de 1972: Se é de macho que ela precisa, eu lhe darei.

Se em Tebas do meu coração, de 1974, e em A força do destino, de 1977, Nélida tangencia o paródico, o farsesco ou o alegórico, retoma em A república dos sonhos muito do tônus verbal daquela primeira tetralogia — que é também a sua grande marca estilística, o que a irmana e simultaneamente a distingue numa longa e antiga fila de escritores primais, subversores de idiomas, criadores de linguagens, sejam as de matriz popular ou erudita.

(…)  Com a história de Madruga e das personagens que mais proximamente o cercam, é um vasto painel do século 20 que se descortina aos olhos do leitor: a incipiente modernização do Rio de Janeiro; o Estado Novo de Vargas, com sua ambiguidade política em relação aos estrangeiros; a Guerra Civil espanhola e a ascensão de Franco (que tem efeitos profundos, subjetivos, nos protagonistas espanhóis, particularmente em Venâncio); a Segunda Guerra Mundial e seus dramas humanos (como no episódio do soldado, filho da lavadeira de Eulália); o suicídio de Vargas e a consequente aniquilação dos sonhos de Odete; a agitação da era Jango e o golpe militar, que expõe as múltiplas contradições ideológicas no seio da família de Madruga e da própria classe social a que passam a pertencer.

No que concerne às diversas camadas de leitura que o romance permite, a mais externa, a mais perceptível dentre todas é a emolduração de um amplo quadro da imigração europeia, iniciada em fins do século 19 e intensificada na primeira parte do século 20. Não é um tema original: o imigrante, arrivista ou não, entrou relativamente cedo em nosso romance. O ineditismo de Nélida está em retratar não apenas essa personagem, mas fundamentalmente estudar a constituição de uma família de ascendência estrangeira na nova pátria, desde a primeira geração desembarcada até a fixação — social e afetiva — dos seus descendentes. E esta não é uma diferença irrelevante.

(…)  Se o romance compõe, por um lado, um painel da imigração europeia, também lança, por outro viés — e mediante o mesmo mecanismo do contraste —, um olhar contundente sobre a questão racial brasileira, ou sobre ao menos dois de seus pontos nevrálgicos: a marginalização social do negro; e sua degradação como pessoa, nos planos psíquico e ideológico.

É fato sabido, e incontestável, que o imenso contingente populacional constituído pelos descendentes de escravos foi excluído dos principais postos do mercado de trabalho, na Primeira República, em consequência do plano estatal de promover a imigração, resultante por sua vez da já referida política do branqueamento; política essa que foi parcialmente bem sucedida, pois — se não extinguiu a “gente de cor” — relegou-a aos segmentos inferiores da hierarquia econômica. Ou seja, branqueou a elite.

Por outro lado, teorias “científicas” defendiam a inferioridade da raça negra. Manifestações culturais de origem africana eram criminalizadas; e, na capital da república, grandes contingentes humanos eram expulsos de suas casas, sob o pretexto da modernização urbana, e lançados ao cume dos morros — fenômeno que resultou na formação das favelas contemporâneas.

Tal matéria aparece romance de forma tácita, ou apenas sugerida. Nélida Piñon preferiu, à descrição do processo em si, apresentar a sua imediata resultante, impressionantemente condensada numa única e pungente figura (que aparece pouco, inclusive): Odete, a empregada, a “fiel escudeira” de Eulália.

Numa das seções do romance, conta-se o episódio em que Odete ganha uma casa dos patrões; e num certo dia não aparece para trabalhar. Todos imaginam que seja algum problema com a mãe, a tia ou a sobrinha — as três mulheres que formavam sua pequena família. Breta, então, vai visitá-la, vai saber o que houve para tentar socorrê-la. E descobre que é tudo fantasia — que a mãe, a tia, a sobrinha nunca existiram, que Odete foi uma criança abandonada, que nunca conheceu os pais. Talvez seja esse o capítulo mais comovente, o mais terrivelmente belo de todo o livro.

Ora, a história de Odete constrasta com a história da família de Madruga não apenas por seu destino social ou econômico: no nível psicológico, ou afetivo, negros e brancos estavam, nas primícias do século 20, em posições completamente inversas — uma vez que os primeiros não tinham direito a uma memória familiar, não podiam reivindicar sequer uma origem étnica precisa. A começar pelos próprios sobrenomes, herdados de padrinhos, quando não dos antigos senhores.

Isso é o que A república dos sonhos nos conta, de maneira magnífica, e potencializada. Odete vive num ambiente onde todos têm passado, têm uma herança ancestral. Eulália conta para os filhos as velhas lendas ouvidas de seu pai, dom Miguel, sobre os herois da Galiza; Madruga narra as histórias aprendidas com o avô Xan. Breta pode se orgulhar de conhecer o nome de seu trisavô. E Odete? Odete tem que inventar um passado. E isso faz, incrivelmente, toda a diferença.

(…) Tanto o painel da imigração quanto a questão negra iconizada em Odete convergem, numa segunda camada de leitura, para introduzir A república dos sonhos num diálogo que talvez seja o mais antigo e o mais permanente da literatura brasileira: o problema da identidade nacional. (…) Nélida Piñon não apenas pretende apresentar um conceito de identidade, como o faz do espinhoso ponto de vista do imigrante recente: aquele que, não pertencendo a nenhuma das três “raças” originais, teria menos legitimidade de reivindicá-la.

(…) Por tudo que se disse, é fácil concluir que, em Nélida Piñon, a noção de identidade nacional não pressupõe qualquer espécie de unificação, de planificação ou de miscigenação de distintas etnias. A identidade de um país consiste apenas no conjunto de ações individuais que devem visar ao bem comum — pois que, no plano subjetivo, cada indivíduo tem direito à sua própria memória, ao seu próprio passado, à sua dimensão mítica — particular e privada — que advém de sua ancestralidade.

E é por essa porta que A república dos sonhos introduz a Galiza e os galegos no imaginário da cultura brasileira. É um dos encantos do romance essa fantástica Sobreira, terra onde se deu a criação do mundo, povoada de seres transcendentes, quase sobrenaturais — como dom Miguel, pai de Eulália, guardião das lendas e da velha nobreza da sua gente; ou como Xan, avô de Madruga, inesgotável contador de histórias; e também como Ceferino, Urcesina, Teodora, Justo, Gravio ou Salvador, o andarilho, cuja história comove as próprias pedras.

É a literatura, portanto — e só a literatura — que torna coletivas as memórias individuais e as transubstancia em patrimônio comum, sendo por isso a única via pela qual é possível atingir alguma forma de identidade nacional. Foi só depois de A república dos sonhos que o Brasil adquiriu, ou conquistou, sua Galiza. Só depois de A república dos sonhos a Galiza se abrasileirou — porque obteve uma expressão em nova língua, a língua literária brasileira. Como se Nélida produzisse, assim, a emersão de um novo continente, de uma espécie de Atlântida, que estivesse a meio entre Europa e América, para criar, ou restabelecer, a ponte.”

* Foto:  Simone Marinho