Nélida Piñon e o feminismo

13/12/2016 2270 visualizações

Hoje, o feminismo voltou com grande força ao debate nacional e internacional. Nélida Piñon foi a primeira mulher eleita presidente da Academia Brasileira de Letras; menina criada com liberdade de escolha e que, aos dez anos, convenceu um lojista do Rio a lhe vender uma máquina de escrever, que o seu pai pagaria em breve; que decidiu ser escritora para contar as histórias que acumulou durante a vida, mas que valoriza os afazeres da casa, cuidando da comida e se aventurando nas panelas de vez em quando. No ensaio “A longa jornada”, do novo livro, “Filhos da América”, ela presta uma linda homenagem às mulheres, dizendo que elas, alijadas da cultura normativa, acumularam “um saber clandestino de grande valia, do qual os narradores dependiam para se apossar dos personagens e frequentar o enigma literário”, lembrando que são co-autoras de escritores como Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes e Camões. Ao responder a uma entrevista para este blog, perguntada sobre como vê as demandas desse feminismo atual e de que maneira sente que pode representá-lo, ela escreveu o texto a seguir.

Cresci, pois, engolfada nas tradições que emanavam dos livros que transitavam por minha imaginação. A mãe me introduziu ao mundo teatral. O ballet, a ópera, a música eu colhia no Teatro Municipal, que, ao frequentar com assiduidade, ensinou-me a repartir meu tempo entre o poder da arte, da literatura e a vida familiar e a atração pelo amor. Mas sempre sob os auspícios da imaginação que me projetava tanto para o passado quanto  para o domingo seguinte.

Inquieta pela história do mundo, estudava diversos séculos. Lia também jornais e revistas. O pai abriu uma conta na Livraria Freitas Bastos sem fiscalizar o que lia.  Era galante, ficava horas em pé encostado no poste havido na esquina da Av. Rio Branco com Almirante Barroso, aguardando que a filha, entretida com a ópera, saísse do Teatro, sem reclamar de eventual atraso. Só perguntava: gostou, filha? A mãe, por sua vez, apesar do seu intenso amor por mim, convocava-me, severa, para a realidade.  Um dia me assegurou ser uma menina inteligente, mas que falava mal. E esclareceu, diante do meu espanto, que falar bem era que se visse o que eu pensava. A uma amiga que a criticou por me levar menina aos museus onde se viam nus artísticos, ela reagiu: A filha devia olhar o mundo sem preconceito. Enquanto eu escrevia histórias precariamente ilustradas, cujas folhas costurava e vendia ao pai. Exercendo eu assim o precoce ofício de escritora e cobrando meus direitos autorais. Sentada na escrivaninha, ainda em Botafogo, ao fazer os deveres escolares, ouvia na rádio Mozart, Beethoven, Wagner, Verdi. Nos livros de arte embevecia-me com Velazques, Vermeer. Enfim um caleidoscópio que hoje ainda enseja meu trânsito pelas artes.

No verão, ao lado do pai, no Parque das Águas, em São Lourenço, contornávamos o lago cercado de bambuzal. Ele me falava do continente do outro lado do mar, fazendo-me crer que em breve me levaria a conhecer Borela, a aldeia descrita de modo apaixonado, enquanto questionava a razão de haver sido expulso de suas fronteiras. Mas porque deveria eu, então, ser acometida pelo germe do sobressalto só porque ele abandonara a segurança da pátria?

Na temporada no sul de Minas, apurava o paladar e as sensações com as compotas, os doces vindos em caixetas, os queijos, a manteiga Miramar, a canja de galinha, as águas minerais da fonte Vichy, os novos amigos, os livros que o pai me emprestava.

Ao visitar o Pavilhão, no centro do parque, eu me lembrava do pavilhão de caça onde Rodolfo e Maria, na longínqua Viena, suicidaram-se ou foram assassinados. Só que em vez de deparar-me com os corpos dos amantes estendidos sobre o tapete, percorria as pequenas lojas que vendiam lembranças, filmes com os quais fixar instantes de felicidade.

À hora do almoço ia ao encontro da família sentada no banco ao abrigo do caramanchão situado na aleia mais transitada do parque. Sob o beneplácito dos pais e dos avós, à minha espera, eu filtrava as emoções, beijava-os, sem esmiuçar meus sentimentos. Algo me dizia que não tinha porque me envergonhar das matrizes com que a família e a vida me estavam forjando. Aprendia a ser parte de uma família que, ao abandonar a própria terra, correra o risco de vestir-se de luto de perder pedaços da alma. Mas havia que aceitar a minha gênese.

O Brasil conta hoje com brilhante corpus de escritoras. Poucas, no entanto, reconhecidas   como grandes figuras literárias. Mas como poderia ser diferente, se no passado foi vedado à mulher o acesso à cultura normativa, ao domínio da linguagem às artimanhas narrativas. Se vivia ela à sombra de um dono que lhe forrava o estômago com a abundância da carne de porco e das falsas ilusões. Enquanto à noite encerrava as virgens na alcova sem janelas.

Era nesta camarilha que a mulher, temporariamente livre dos seus algozes, escrevia sem papel e pluma. Seu corpo, entregue aos devaneios e ao medo, era uma fornalha que conhecia o paraíso e o inferno, mas sem contar com o registro do verbo.  Neste espaço entregava-se ao diário, ao exercício da memória, que era seu livro, em cujas páginas invisíveis despejava sua ânsia de aventura e modestos voos poéticos.

Podemos afirmar que sua memória, presente desde o início da criação, fornecia ao seu diário ardências apaixonadas, imaginário exacerbado, fantasias eróticas. Um discurso de servidão que, praticado à meia-luz, sob a certeza de uma existência vivida pela metade, forçou a mulher a criar um acervo do qual só ela dispunha da chave, mas que seria no futuro seu patrimônio narrativo.

Contudo, a despeito das dificuldades, surgiram nestes períodos históricos escritoras que legitimaram sua escritura, retiraram do abismo da memória pautas narrativas, personagens, metáforas que rastreavam o mundo para ela imprimir nele suas pegadas.

Impedidas, porém, de assumir a literatura como expressão de vida, elas se eclipsavam entre o serralho e os salões, escrutinando os detalhes do cotidiano. Enquanto, taciturnas, conservavam nas gavetas da memória enredos que haveriam de inventariar, quando se emancipassem.

Restou, pois, às escritoras, que somos nós, sucessoras daquelas primeiras criadoras brasileiras, compreenderem que a realidade ficcional, engendrada igualmente por mulheres e homens, se forjava mediante acordos, simulacros, conspirações, intrigas, matérias que enfatizavam os méritos da existência literária.   Mas cabendo à mulher, a despeito de qualquer modernidade, prosseguir com o caudal das evocações provindas das avós, das mães, das vizinhas mortas   que nos precederam no tempo. Ancestrais que ao nos nomearem suas sucessoras, exigem, a qualquer tempo, que reavivamos a memória que elas guardaram em seus escaninhos às custas de seus sacrifícios.

Desde o início sentia-me discriminada. Precisava dar constantes provas de que ao escolher a literatura como ofício de vida estava decidida a alcançar a excelência estética. Assim convivi com a desconfiança, com as definições imputadas às mulheres, com um conjunto de circunstâncias que me marginalizavam.  Mas não me importei. Sempre soube que o ofício literário exigia nervos de aço para criar e para sobreviver. Uma função que raramente concedia privilégios, mas propenso a penalizar a mulher. Dava-me conta então que faltava ao universo literário autoridade para me tornar pior ou melhor escritora, para apagar a paixão que a escritura me suscitava, para cancelar o acesso à clave do conhecimento.  Era eu responsável pela minha trajetória. Dependia de mim a liberdade de criar, de precaver-me contra quem me julgasse em trânsito pela literatura, incapaz de ingressar um dia no rol dos escritores apreciados.   Como se a arte, para a mulher, fosse uma prenda doméstica destinada apenas a assegurar-lhe prestígio social. Com esta convicção, aceitei, sem queixume    a relativa invisibilidade que o mundo literário me reservava, enquanto aguardava o momento oportuno de oficializar minha existência de escritora.

Sou uma feminista histórica porque muito cedo aderi ao movimento em prol das mulheres. Recordo uma convocatória na ABI em que falei em defesa da implantação do primeiro 8 de março no Brasil. Em Nova York, onde vivi, acompanhei de perto o movimento feminista e o Black Power, que é também uma questão que me diz respeito. Conheci grandes personalidades femininas e aprendi com o pensamento então vigente em torno de uma questão tão fundamental para a consciência humana. Tenho muito que contar sobre as minhas lides em torno do tema.

Cada qual é senhora do seu destino.  Forja a sequência de seus dias. A experiência alheia não é um legado transmissível. Herdamos a história coletiva, mas nossa exegese pessoal contraria a versão imposta. Convém, porém, que a mulher, nos seus verdes anos, jovem pois, se sensibilize com os personagens saídos das páginas da história, mesmo quando sejam evocações distantes de sua época.

Não se dê ao luxo de dispensar o que vê, o que ouve, o que lê. Exercite debater consigo mesmo, pôr à prova sua opinião, para testar suas convicções. E que não haja dispêndios em sua vida. Tão logo desperte, esteja cônscia do quanto é fácil fracassar, travar a índole do seu futuro.

Desde jovem pautei-me por uma frase minha: todos os dias alguém, simbolicamente, bate à sua porta convocando-a a desistir. Seu dever, então, é rejeitar a proposta que combate a tenacidade, o espírito público, a coragem de viver.

É mister prosseguir. Não acreditar em milagres, nem em cenários idealizados ou idílicos.

Tive o privilégio de admirar mulheres históricas, lendárias, mulheres do meu cotidiano. Como fossem elas, ou como se apresentassem, à parte de cronologias, de classe social, de etnia, de nível cultural, eu as admirava, aprendia com seus relatos, com suas biografias. Mulheres cuja grandeza, dignidade, sacrifício, honra, coragem e amor, deixaram sólidas fundações na sociedade nossa. Um gênero prodigioso que cuida e morre pela espécie.

Distingo, porém, as mulheres da família Cuiñas que me agasalharam ao longo dos anos com amor, pão, histórias, dignidade. E de forma persuasiva me indicaram herdeira de seus estatutos humanitários. São elas minha avó Amada, as tias Maíta, Avelina, Celina. E, sobretudo, minha amada mãe Carmen, exemplo máximo da minha vida.

O que é ser uma mulher? Ainda não sei, ou sei muito. Mas não me cabe ser peremptória, definir um ser mutante, em contínua transformação. Até porque ela ainda está em busca do próprio rosto, das funções que deverá assumir, além das atribuições clássicas da mulher.

Contudo, sujeita agora a tantos transtornos sociais, psíquicos, históricos, a mulher vem modelando sua consciência e sensibilidade a cada alvorecer. Como se ao anoitecer fosse ela um ser e ao despertar uma outra mulher. Alguém, contudo, que havendo sido vítima dos dissabores históricos, não perdeu e nem deve perder, as virtudes do amor amplo e universal, do qual derivam suas preciosas   virtudes. E que possa ela adquirir, ao longo dos anos vindouro, a coragem de viver às expensas de sua consciência, do seu ser anímico e corporal. Amém.