No centenário da Revolução Russa, obras do cientista político Moniz Bandeira relacionadas ao conflito ganham novas edições

30/10/2017 6 visualizações

A reedição revista e ampliada, com novos documentos, de O ano vermelho, publicado originalmente pela Civilização Brasileira em 1967, é oportuna, cinquenta anos depois, em virtude do centenário da Revolução de Outubro e da primeira greve geral do Brasil.  Já Lenin-vida e obra, muito mais do que uma biografia,  analisa com profundidade o pensamento político do grande marxista e estadista estratégico russo, Vladimir I. Lenin.

Leia o prefácio do autor para as duas obras:

O ano vermelho http://bit.ly/2ziQX7o

Lenin-Vida e obra:  http://bit.ly/2yYVt89

“O ano vermelho”

Por Osvaldo Coggiola, professor titular de História Contemporânea e chefe do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP)

Em 1967, pela primeira vez, militantes socialistas e operários, pesquisadores e intelectuais brasileiros tinham acesso, com este livro, a uma visão do conjunto dos acontecimentos que punha, para sempre, a questão operária (ou social) no centro da agenda política e histórica do Brasil. Era o resultado da irrupção das relações capitalistas, a partir da segunda metade do século XX, da Abolição, da grande imigração e dos surtos econômicos que possibilitaram a primeira industrialização do Brasil, especialmente durante a Primeira Guerra Mundial. Pelo seu vínculo explícito, político e ideológico com os acontecimentos revolucionários que desaguaram, em novembro de 1917, na Revolução Soviética, O ano vermelho brasileiro significou também a incorporação do país à história política mundial, pela via do movimento internacional dos explorados.

No período, não havia sequer um texto que tratasse cientificamente do conjunto dessa virada decisiva, que condicionou as mudanças políticas posteriores (tenentismo, Revolução de 1930, “varguismo” e incorporação do sindicato e da legislação trabalhista e social à estrutura política brasileira). Este livro o fez, não só de maneira pioneira, mas também magistral, e, até o presente, insuperável. A historiografia posterior, certamente, enriqueceu a análise de diversos aspectos, como a situação social à época, as diversas ideologias (anarquismo, sindicalismo, socialismo) presentes no movimento operário, a conjuntura política etc., mas nenhuma conseguiu tratar da questão na sua totalidade, isto é, tendo em seu cerne a luta de classes e todas as suas manifestações: sociais, políticas, ideológicas, culturais. E tendo como base, principalmente, as fontes primárias e os escassos trabalhos produzidos a respeito naquele tempo.

Pode-se creditar a este livro, portanto, a inauguração de uma nova fase da produção historiográfica e intelectual brasileira. Não apenas como trabalho pioneiro, mas como trabalho exemplar. A vasta obra posterior de Moniz Bandeira valeu-lhe a indicação, pela União Brasileira de Escritores, ao Prêmio Nobel de Literatura. Pode-se dizer que todas as virtudes que levaram a essa indicação já estavam, embrionária ou explicitamente, presentes em O ano vermelho. Um livro que honra a luta dos trabalhadores manuais e intelectuais brasileiros.

“Lenin-vida e obra”

Por Regina Maria A. F. Gadelha, historiadora, professora titular na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuárias da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP.

É profundo o conhecimento do autor sobre a história da Rússia e da Revolução de Outubro de 1917. Como tudo o que escreve, esta também é uma obra de muita erudição, com sólida base documental e interpretativa, mas de fácil e apaixonante leitura. Moniz Bandeira nos faz acompanhar os passos do jovem Lenin – os redutos dos movimentos sociais e políticos, a crise russa, a formação dos partidos social-democrata, socialista e comunista até a queda do regime czarista e a vitória da revolução, a guerra civil, a invasão do território russo pelos Aliados, a formação, contradições e dissidências do Partido Comunista (PC) e movimentos operário/camponês e trabalhadores, nos primeiros anos da revolução.

Dotado de conhecimento profundo dos escritos de Lenin, o autor tem o mérito de nos inserir, de forma crítica, ao âmago do contexto de seu pensamento e ação política, o que faz deste livro um instrumento fundamental para o conhecimento, obra a figurar ao lado dos grandes autores e obras da ciência política, como O príncipe, de Maquiavel, fundamental para a compreensão dos mecanismos e do exercício do poder político. Mas o autor não se prende apenas à análise da obra e ação de Lenin, o homem e suas circunstâncias. Analisa, também, as grandes lideranças da época – de Plekhanov a Trotsky, passando por Kautsky, Rosa Luxemburg e outros teóricos da social-democracia europeia e do movimento socialista mundial, da fundação da I Internacional ao ambiente do X Congresso dos Sovietes (fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), nos estertores da luta incessante de Lenin contra todas as formas de tirania, inclusive a de Stalin, cuja remoção da secretaria-geral do PC recomendou, pouco antes de sua morte.

Moniz Bandeira ressalta as contradições de um homem político cuja obra, ação e caráter individual iriam muito além da vontade férrea de luta pela mudança revolucionária. O livro instiga o leitor a refletir sobre a crise da esquerda, ao trazer para a contemporaneidade, de forma nunca repetida, os fatos daquela que foi a maior revolução do século XX.

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA, formado em Direito, é doutor em Ciência Política pela USP e professor titular de política exterior do Brasil no Departamento de História da UnB. Recebeu o título de doutor honoris causa da Unibrasil e da UFBA. Em 2006, a UBE elegeu-o, por aclamação, Intelectual do Ano de 2005, conferindo-lhe o Troféu Juca Pato, por sua obra Formação do império americano. Recebeu, em 2014 e em 2015, a indicação ao Prêmio Nobel de Literatura, pela UBE, em reconhecimento ao seu trabalho com “intelectual que vem pensando o Brasil há mais de 50 anos”.

Autor de mais de 20 obras, publicadas em diversos países, Moniz Bandeira foi professor-visitante de universidades da Alemanha, na Suécia, em Portugal e na Argentina e conferencista-visitante em universidades da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina. É portador da Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (Brasil), comendador da Ordem do Mérito Cultural (Brasil), comendador da Ordem de Mayo (Argentina) e condecorado com a Cruz do Mérito, 1ª classe, da República Federal da Alemanha.