Nota oficial sobre o Prêmio Sesc de Literatura

5/03/2024 4332 visualizações

O Grupo Editorial Record gostaria de tornar público e oficial seu extremo incômodo com os seguintes fatos relativos ao Prêmio Sesc de Literatura, do qual tem sido parceiro desde sua criação:

– a demissão de dois funcionários do Sesc responsáveis diretos pelo prêmio e pela interlocução entre o Sesc e a editora, entre eles o criador intelectual do prêmio, o escritor Henrique Rodrigues, sem qualquer comunicação prévia ou consulta à editora;

– a não publicação do edital do prêmio 2024, que deveria ter ocorrido em início de janeiro, o que compromete os prazos de avaliação, de anúncio dos vencedores e, posteriormente, de edição dos livros premiados;

– os adiamentos sucessivos (de novembro de 2023 até agora) do acesso da Record ao teor tanto do novo edital do prêmio, que o Sesc nos disse que produziria, quanto da renovação do convênio com a editora;

– diante do rumor generalizado de que o Sesc criaria uma instância de avaliação interna dos livros candidatos ao prêmio, posterior à avaliação do corpo de jurados, o Sesc não negou, de maneira cabal e pública, esta hipótese, que acreditamos que funcionaria com um filtro extraliterário e prejudicaria a lisura e liberdade de avaliação do júri.

*

Especificamente em relação aos livros premiados em 2023, Outono de carne estranha, de Airton Souza, e O ninho, de Bethânia Pires Amaro, há outros fatos muito preocupantes:

– o agendamento das viagens de ambos os autores pelas regionais do Sesc em todo o Brasil está atrasado. Normalmente feito entre janeiro e fevereiro, até agora nada foi marcado. As viagens deveriam ter início agora em março. A alegação por parte do Sesc de que a escritora Bethânia Pires Amaro, por questões pessoais, estaria impedida de viajar no primeiro semestre, não é confirmada pela escritora. E mesmo que o fosse, não nos apresentaram as razões para adiar as viagens do outro autor premiado, Airton Souza. Embora essas viagens pelo Brasil não sejam uma obrigação contratual do Sesc, são uma tradição na dinâmica de divulgação dos livros premiados, e foram prometidas aos autores na cerimônia de entrega do prêmio.

– recentemente, a direção do Sesc enviou a todos os seus núcleos regionais uma circular, cuja função deveria ser apresentar os autores premiados e estimular que estes fossem convidados a nelas se apresentar ao público. Este ano, no entanto, a circular parece fazer o contrário, pelo menos no que se refere a Outono de carne estranha, de Airton Souza. Segundo o documento, o romance, “por tratar-se de conteúdo sensível”, “pode ativar gatilhos emocionais e psíquicos”, e deve ser acompanhado de um trabalho específico de mediação, no qual o público seja orientado e informado previamente do conteúdo do livro, e que aceite formalmente ser exposto a ele antes de assistir a uma eventual palestra do autor.

– fomos informados pelo Sesc de que a ida dos autores ao festival de Óbidos, em Portugal, foi cancelada neste ano, unilateralmente e sem maiores explicações, contrariando uma prática que se repete desde 2018.

Tantos elementos nos fazem temer pelo importante papel que o Prêmio Sesc desempenha na cena literária brasileira. O Grupo Editorial Record acredita que o compromisso com a liberdade de expressão e de criação é parte inseparável da atividade editorial, e em nome desses valores tem a obrigação de se manifestar, em defesa da lisura e da transparência que sempre caracterizaram o Prêmio Sesc, e também em defesa de seus autores, que estão sendo prejudicados. Consideramos de suma importância que os fatos acima listados sejam levados em conta, e que as eventuais modificações no edital do prêmio sejam revistas pelo Sesc. O sucesso do prêmio de literatura ao longo dos últimos vinte anos é o maior argumento para que nada mude nas regras de inscrição e avaliação.