Isabel Allende retrata o Chile no século XX em novo romance

4/12/2019 148 visualizações

Retratada por Pablo Picasso numa das obras mais emblemáticas da história da arte, a Guerra Civil Espanhola é o ponto de partida do novo romance da escritora latino-americana Isabel Allende. Longa pétala de mar (Ed. Bertrand Brasil) descreve a saga da família Dalmau numa narrativa envolvente e ágil. A crueldade do exército de Franco na perseguição à resistência republicana, que teve como último bastião a cidade de Barcelona, é descrita de forma dramática.

O jovem residente de medicina Víctor Dalmau consegue escapar pela fronteira com a França com a cunhada, a pianista Roser Bruguera, que está grávida do irmão desaparecido. Depois de um período num campo de concentração francês, chega a notícia de que o jovem diplomata chileno, Pablo Neruda, fretou um navio, o Winnipeg, que vai levar 2 mil refugiados para o seu país natal. Assim, Victor, Roser e o bebê Marcel, nascido numa instituição de atendimento aos sobreviventes. O trio consegue escapar e começa vida nova no Chile.

MILAGRE NO HOSPITAL DE CAMPANHA

Enquanto o irmão Guillhem Dalmau se tornou conhecido pela sua coragem no comando das tropas de resistência ao exército de Franco, Víctor, mais introspectivo e de porte mais franzino, concentrou seus esforços de guerra no atendimento aos feridos. Num determinado momento da Guerra Civil Espanhola, diante da escassa quantidade de homens, começam a se recrutar adolescentes, na dramática decisão que ficou conhecida como Convenção da Mamadeira.

No atendimento que mais marcou a vida do jovem residente de medicina um destes jovens combatentes chegou gravemente ferido e assim Isabel Allende narra o acontecimento no capítulo de abertura de Longa pétala de mar.

“O soldadinho tinha um orifício no peito, e o médico, depois de examiná-lo sumariamente sem encontrar seu pulso, determinou que já não lhe cabia nenhum socorro e que ele já não precisava de morfina nem de consolo. Na testa seu ferimento tinha sido tapado com um trapo e protegido com um prato de latão invertido para evitar atrito, e seu tórax tinha sido envolvido numa faixa, mas isso fazia várias horas ou vários dias ou vários trens, impossível saber.

Dalmau estava ali para ajudar os médicos; seu dever era obedecer à ordem, deixar o garoto ali e dedicar-se ao seguinte, mas achou que aquele menino, para ter sobrevivido à comoção, à hemorragia e ao traslado, chegando até aquela plataforma da estação, devia ter muita vontade de viver, e era pena que tivesse se rendido à morte no último momento. Retirou cuidadosamente os trapos e verificou assombrado que o ferimento estava aberto e tão limpo como se tivesse sido pintado no peito. Não conseguiu entender como o impacto tinha destroçado as costelas e partido o esterno sem pulverizar o coração.

Nos quase três anos de prática na Guerra Civil Espanhola, primeiro nos fronts de Madri e Teruel, depois no hospital de evacuação, em Manresa, Víctor Dalmau acreditava ter visto de tudo e estar imunizado contra o sofrimento alheio, mas nunca tinha visto um coração vivo. Fascinado, presenciou os últimos batimentos, cada vez mais lentos e esporádicos, até que eles pararam totalmente, e o soldadinho acabou de expirar sem um suspiro. Por um breve instante Dalmau ficou imóvel, contemplando o oco vermelho onde já nada batia. Entre todas as recordações da guerra, aquela seria a mais pertinaz e recorrente: aquele menino de quinze ou dezesseis anos, ainda imberbe, sujo de batalha e sangue seco, estendido numa esteira com o coração a céu aberto.

“Nunca pôde explicar a si mesmo por que introduziu três dedos da mão direita no espantoso ferimento, circundou o órgão e apertou várias vezes ritmada­mente, com a maior calma e naturalidade, durante um tempo impossível de lembrar, talvez trinta segundos, talvez uma eternidade. E então sentiu que o coração revivia entre seus dedos, primeiro com um tremor quase imperceptível e depois com vigor e regularidade”.