“Número zero”, de Umberto Eco

26/03/2016 40 visualizações

Por Thaís Britto

Umberto Eco faleceu em fevereiro deixando um vácuo enorme num mundo sem suas análises e reflexões precisas sobre a contemporaneidade. Mas o  filósofo, medievalista, semiólogo e midiólogo deixou também um legado que merecer ser consultado perpetuamente. “Número zero”, seu último romance, lançado pela Record em 2015, é uma dessas obras. Assim como em “O nome da rosa”, seu livro de ficção mais famoso, Eco alia aqui uma prosa fluida e agradável com  erudição e observações analíticas sobre grandes assuntos, como, neste caso, o jornalismo.

O leitor acompanha a trama pelos olhos de Colonna, um ghost writer meio fracassado que aceita um emprego no jornal “Amanhã”. Criada por um magnata da mídia, a nova publicação não tem exatamente o papel de informar. Como apenas seu diretor e Colonna sabem, o Amanhã nunca será publicado de verdade. Os jornalistas contratados devem fazer apenas 12 “números zero”, edições teste, com reportagens cuidadosamente escolhidas para difamar ou amedrontar os inimigos de seu editor. Com as reuniões de pauta  do “Amanhã”, Eco discute o modus operandi do jornalismo – e mostra como muitas vezes, não apenas na ficção, ele é usado com fins bem menos nobres que a liberdade de expressão.

Além de criticar a imprensa sensacionalista, ele volta sua atenção aos acontecimentos políticos dos últimos anos da Itália. E faz isso por meio do personagem Bragaddocio, um jornalista fascinado por teorias da conspiração, que pretende escrever uma reportagem sobre uma delas, que inclui desde um falso cadáver de Mussolini até as ações da secreta Operação Gladio, o suposto assassinato de um Papa, o envolvimento da CIA em atentados na Itália, entre outros fatos. “Número zero” se passa em 1992 e tem como pano de fundo  a Operação Mãos Limpas, uma investigação grandiosa que mudou a história política da Itália. Na época, a Justiça  vasculhou a vida de empresários e políticos envolvidos em escândalos de corrupção que abrangiam a máfia e até o Banco do Vaticano, chegando, inclusive, a provocar o desaparecimento de partidos e o suicídio de alguns condenados. Eco disse em entrevistas na época  do lançamento que escolheu este período histórico pois era um momento de esperança, embora a ascensão de Berlusconi logo depois tenha jogado um balde de água fria em quem esperava um futuro melhor.

Para o leitor brasileiro, o contexto histórico de “Número zero” é ainda mais interessante, já que muitos analistas políticos têm comparado o ambiente em torno da Operação Mãos Limpas com o que vivemos hoje, em meio às investigações da Operação Lava Jato.

Leia abaixo um trecho do romance.

“– Tenho uma incumbência para um dos senhores, digamos Palatino, que agora está livre. Devem ter lido que nos últimos meses (portanto, a notícia era nova em fevereiro) um magistrado de Rimini começou uma investigação sobre a administração de algumas casas de repouso para idosos. Furo de reportagem, depois do caso do Pio Albergo Trivulzio. Nenhuma dessas casas pertence ao nosso editor, mas, como devem saber, ele possui outras casas de repouso, também na costa do Adriático. Imaginem só se algum dia esse magistrado de Rimini resolve meter o nariz nos negócios do Comendador também. Portanto, o nosso editor vai ficar satisfeito de ver que se pode lançar uma sombra de suspeita sobre um juiz intrometido. Percebam que hoje, para contra-atacar uma acusação não é necessário provar o contrário, basta deslegitimar o acusador. Portanto, aqui está o nome e o sobrenome do sujeito, e Palatino dá um pulo em Rimini, com um gravador e uma máquina fotográfica. Siga esse íntegro servidor do Estado, ninguém nunca é cem por cento íntegro, mesmo que não seja pedófilo, não tenha matado a avó, nem embolsado propinas, terá feito alguma coisa estranha. Ou então, se me permitem a expressão, estranhifica-se aquilo que ele faz todos os dias. Palatino, use a imaginação. Entendido?”