“O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman

5/03/2016 38 visualizações

Por Andressa Camargo

Charlotte Perkins Gilman foi uma intelectual inspirada e uma feminista influente. Na virada do século 19 para o 20, publicou diversos estudos sobre a condição social e econômica das mulheres. O mais famoso deles, Women and Economics, de 1898, foi adotado em universidades, traduzido em diversos idiomas e exaltado como um dos marcos da luta pela igualdade de gêneros.

Infelizmente, o nome da autora ainda é pouco conhecido no Brasil. Situação que pode começar a mudar com a publicação, pela editora José Olympio, de O papel de parede amarelo, seu mais importante título de ficção. Pequena, porém preciosa, essa novela é um retrato da opressão da mulher pela sociedade e a ciência dos homens.

O livro narra, em primeira pessoa, a história de uma personagem forçada ao confinamento por seu marido e médico, que pretende curá-la de uma depressão nervosa. Proibida de fazer qualquer esforço físico e mental, ela fica obcecada pela estampa do papel de parede de seu quarto, e, por fim, enlouquece de vez.

Lido por muito tempo como um simples conto de terror gótico, O papel de parede amarelo foi redescoberto nos anos 1970 por uma nova geração de teóricas feministas e vem sendo estudo de maneira mais aprofundada desde então. A trama da obra foi inspirada em experiências da própria autora, que nos anos 1880 passou por um tratamento semelhante ao de sua personagem – prescrito pelo famoso “médico dos nervos” S. Weir Mitchell.

Na edição produzida pela José Olympio, o texto de O papel de parede amarelo é precedido por um ensaio crítico da filósofa Marcia Tiburi, que exalta a qualidade da obra e chama a atenção para as questões levantadas por ela: “A heroína do conto está entregue ao sofrimento psíquico. O marido, investido da posição de senhor e guia, controla o estado mental e físico da esposa. Médico, ele representa a ciência, o mundo racional, contraposto à irracionalidade da histeria, da qual a heroína seria portadora em ‘grau leve’”, analisa. “A histeria como doença feminina é a ideologia do homem no contexto de uma evidente política sexual”.

O papel de parede amarelo é uma leitura imprescindível, especialmente neste momento em que as brasileiras têm unido forças para denunciar os abusos e preconceitos que sofrem cotidianamente. Na semana em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher, esta pequena obra-prima não pode faltar em nenhuma estante.