“O Quinze”, de Rachel de Queiroz

2/07/2016 52 visualizações

Por Mariana Moreno

Nunca é tarde para ler um clássico ou revisitá-lo, ainda mais quando o livro ganha uma nova edição charmosa e com prefácio da escritora Nélida Piñon. Este é o caso de “O Quinze”, romance de estreia de Rachel de Queiroz que chegou a sua centésima publicação pela Editora José Olympio em 2015.

Rachel concluiu “O Quinze” antes de completar 20 anos, revelando precocemente um talento que se confirmaria com uma carreira literária profícua e consagrada. Em 1977, ela se tornou a primeira mulher a entrar para Academia Brasileira de Letras.

A história do livro gira em torno da grande seca que assolou o sertão nordestino em 1915. Como personagens principais estão Conceição, Vicente e o vaqueiro Chico Bento, que, junto com sua família, representa na obra o maior expoente da miséria e da dor causados pela tragédia. Em uma trama paralela, Vicente e Conceição, hesitantes em suas demonstrações de afeto, esboçam um romance que não chega a acontecer.

Com uma escrita enxuta e poética, Rachel transmite delicadeza mesmo ao tratar de temas duros e cruéis, como o envenenamento de um dos filhos de Chico Bento após comer a raiz de uma planta e a refeição da família compartilhada com os urubus. É por se compadecer de histórias como essas que Conceição acaba abrigando em sua casa Duquinha, o filho mais novo de Chico. É também uma das formas que a jovem professora encontra de dar vazão ao seu lado maternal, já que ela diz não ter sorte nos relacionamentos e ignora seus sentimentos por Vicente. A personalidade forte de Conceição, feminista, leitora voraz e simpatizante do socialismo, inquietava sua avó Inácia.

A nova edição de “O Quinze” faz parte de um projeto grandioso da Editora José Olympio, que relançará ao todo 20 livros de Rachel de Queiroz. “Dôra, Doralina” e “Memorial de Maria Moura” serão os próximos a terem projetos gráficos renovados. Um estímulo para os novos leitores de Rachel e para os antigos admiradores da escritora.

Trecho do prefácio:

O romance ‘O Quinze’, de Rachel de Queiroz, é um marco na literatura brasileira. Seus efeitos estéticos perpassam a criação literária do século XX e se instalam ainda hoje no emotivo coração brasileiro. […] Com sua grandeza, desafia as insolúveis questões brasileiras, o legado político que fracassou. Cobra que se revoguem as leis do Brasil anacrônico em troca da solidariedade narrativa que o romance suscita. Suas comoventes páginas confirmam que Rachel de Queiroz, desde a infância no Quixadá, sabia que, por ser o mundo narrável, convinha alterar o desfecho de suas narrativas. Tal crença levando-a a criar uma obra perene sobre a qual se debruçar na ânsia de trilhar os caminhos da arte e do Brasil.”

Trecho do livro:

“Agora, ao Chico Bento, como único recurso, só restava arribar.

Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto a seca durasse.

Depois, o mundo é grande e no Amazonas sempre há borracha…

Alta noite, na camarinha fechada que uma lamparina moribunda alumiava mal, combinou com a mulher o plano de partida.

Ela ouvia chorando, enxugando na varanda encarnada da rede, os olhos cegos de lágrimas.

Chico Bento, na confiança do seu sonho, procurou animá-la, contando-lhe os mil casos de retirantes enriquecidos no Norte.

A voz lenta e cansada vibrava, erguia-se, parecia outra, abarcando projetos e ambições. E a imaginação esperançosa aplanava as estradas difíceis, esquecia saudades, fome e angústias, penetrava na sombra verde do Amazonas, vencia a natureza bruta, dominava as feras e as visagens, fazia dele rico e vencedor.”