“O roubo do Enem”, de Renata Cafardo

16/10/2017 51 visualizações

30 de setembro de 2009, o telefone toca na redação de O Estado de São Paulo, um dos maiores jornais do país. Um “informante” diz à jornalista Renata Cafardo ter uma cópia da prova do ENEM, que seria aplicada dali a alguns dias a milhões de estudantes de todo o país. O exame daquele ano tinha sido anunciado com pompa pelo então ministro da Educação, Fernando Haddad: ele substituiria as 55 provas de vestibulares das universidades federais do país. Renata, que era chefe de reportagem na época, conseguiu convencer a direção do jornal a marcar o encontro para tirar a história a limpo. O desafio era botar a mão na prova sem ceder à chantagem do informante, que queria dinheiro para entregar o documento ao jornal. A história de como conseguiu publicar um dos maiores furos de reportagem do jornal está contada, em detalhes, em “O roubo do ENEM”, livro que ela lança no fim de outubro, pela Record.

Nesta entrevista, a autora fala sobre educação, os desafios da cobertura jornalística e conta um pouco mais sobre sua experiência pessoal no caso.

 

Você foi ameaçada pelas pessoas que roubaram o Enem da gráfica. Como surgiu a ideia de relatar essa história em livro? Você teve medo, em algum momento, de remexer nesse passado e trazer à tona novas ameaças, principalmente quando teve recusados os pedidos de entrevistas com os envolvidos no crime?

Desde que tudo aconteceu, muita gente me pede para contar essa história em detalhes. Isso porque ela tem elementos muito curiosos, não é a apuração de um furo convencional. Em 2009 e 2010, quando muita coisa aconteceu, percebi que estava vivendo um momento interessante da minha carreira e passei a registrar algumas histórias por escrito. Boa parte desse material foi aproveitado quando, de fato, assinei um contrato com a Record para escrever o livro. Isso foi muito importante porque eu certamente teria esquecido os detalhes da história. Muita coisa eu só me lembrei quando comecei a reler meus próprios relatos.

Sim, eu tive medo e continuo com medo. Eles me ameaçaram na época e o irmão de um dos acusados também não foi nada gentil quando pedi uma entrevista para o livro. Mas acho que esta história tem que ser contada. Gosto de acreditar que é uma obra que pode contribuir na formação de outros jornalistas, fazê-los refletir sobre a profissão, as relações com o governo e com as fontes, sobre o posicionamento diante de uma notícia importante. Além disso, a história do roubo do Enem ajuda a aumentar o interesse pelo jornalismo de educação. Estudantes e jornalistas percebem que é possível também fazer grandes matérias de educação, com repercussão gigantesca, premiações. Isso não está restrito ao mundo da política ou economia. Ficaria muito feliz também se o livro levasse a reflexões sobre a educação no Brasil, sobre políticas de avaliação, sobre os políticos e técnicos envolvidos na educação brasileira. Os personagens dessa história do roubo do Enem estão todos por aí, ainda atuando na educação e na política. E, além disso tudo, minha ideia era a de também proporcionar uma leitura prazerosa, instigante e até divertida sobre uma área que muita gente considera enfadonha. Para me aproximar do leitor e tentar conseguir esse resultado, incluí minha história pessoal na narrativa.

Os detalhes de sua apuração para o livro mostram que a ideia de se fazer do ENEM um exame que substituísse o vestibular no país era muito boa, mas precisava de mais tempo para execução.A licitação para a aplicação do ENEM em 2009 foi marcada pela desistência da Cesgranrio, empresa com experiência e claramente mais apta a aplicar o exame, que alegou justamente o tempo curto demais para um trabalho de tal monta. Funcionários do INEP chegaram a alertar, em notas técnicas, a falta de segurança na gráfica para a impressão das provas. Não houve fiscalização do processo e a contratação, pelo consórcio CONNASEL, de funcionários terceirizados para trabalhar na separação do material, num espaço aberto da gráfica, foi a brecha para o crime. O que você acha que levou o então ministro Fernando Haddad a tomar essa atitude tão arriscada? Pressão política, com vistas à eleição do ano seguinte; vaidade, por querer propagar mais um grande feito em sua gestão? Ele acabou saindo com uma boa imagem do episódio, mas se a sua matéria não tivesse denunciado o roubo a tempo do cancelamento do exame, quais teriam sido as consequências para ele e para o próprio futuro do ENEM?

Acho que Fernando Haddad não considerava a atitude arriscada. Os técnicos do ministério disseram que era possível mudar o Enem naquele ano como ele queria. Ele também não tinha conhecimento de todas as falhas que vinham desde a licitação. É algo que fica em instâncias mais baixas do ministério. Mas isso tudo não quer dizer que ele não tenha responsabilidade pelo que ocorreu. Se o roubo tivesse sido descoberto depois do exame realizado, provavelmente as consequências seriam outras para ele. A situação permitiu que ele e sua equipe de comunicação fossem extremamente hábeis ao lidar com o caso. Se acontecesse de forma diferente, acho até que ele deixaria o ministério e talvez nunca concorresse à Prefeitura de São Paulo. O Enem perdeu muita credibilidade pelo que aconteceu, algo que não foi recuperado ainda hoje, apesar de ser o maior exame do país e selecionar para centenas de universidades. A cada ano surgem notícias de pequenos vazamentos, supostos ou verdadeiros. Mas, mesmo assim, por inúmeras razões que explico no livro, ele se consolidou fortemente. Difícil saber exatamente quais seriam as consequências para o Enem se ele tivesse sido anulado depois da realização naquele ano. Mas há uma possibilidade de que o novo Enem enfraquecesse tanto que deixaria de existir em um curto espaço de tempo.

Ao relatar os momentos que antecederam a publicação da notícia, você traduz no livro exatamente o clima da redação, onde nessas horas se misturam sentimentos de euforia e preocupação, em meio à corrida contra o relógio. O roubo do Enem foi um grande furo na sua trajetória de jornalista e também um momento de exceção para a cobertura de educação no jornal. Você mesma conta que, mesmo com experiência no assunto, nunca tinha assinado uma manchete sobre o tema. Como você analisa a cobertura de educação na imprensa hoje? E qual o papel e a importância da criação da Jeduca, a associação que reúne os jornalistas de educação no país?

O espaço para a educação na imprensa aumentou muito no início dos anos 2000, quando começou a surgir uma política de avaliação no país e os jornalistas passaram a ter acesso a inúmeros resultados quantitativos e qualitativos sobre a educação brasileira. Como explico no livro, as matérias mudaram de perfil – antes se falava de mensalidade escolar e greve – e passamos a discutir políticas públicas de educação. Depois, em 2009, por causa da nossa matéria do Enem, o exame passou a ser objetivo de interesse da imprensa toda, ganhando um destaque que nunca havia tido. Isso também durou alguns anos. Falar do Enem era pop. Agora, estamos numa situação mais equilibrada, a educação tem mais espaço e é discutida com mais profundidade do que ocorria antes do ano 2000, mas ainda não recebe a atenção dada a áreas como política, economia e até esportes. Isso apesar de haver consenso do grande problema que é a educação no Brasil. Tenho consciência que só vamos melhorar a educação se pudermos discutir mais sobre ela, colocá-la verdadeiramente como um grande tema nacional.  E isso é algo que a imprensa pode ajudar muito.

Criamos a Jeduca justamente com a intenção de tentar melhorar esse quadro. A associação tem como missão qualificar melhor os jornalistas que cobrem a área, trazer mais profissionais para a cobertura da educação e aumentar a visibilidade do tema nos jornais, tvs, rádio, revistas, internet. Fazemos isso por meio de webinários sobre grandes assuntos da área, congressos, guias sobre como abordar determinados assuntos. Temos também uma editora pública – paga pela Jeduca – para atender jornalistas do país todo e ajudá-los em suas pautas de educação. Este ano, teremos ainda cursos sobre jornalismo de educação para estudantes e profissionais. A Jeduca já tem hoje 600 associados.

No prefácio do livro, o jornalista Eugenio Bucci ressalta que a reportagem sobre o roubo da prova do Enem, como conduzida por você e outros jornalistas que estavam na chefia do Estado de São Paulo na época, é um exemplo de como a ética e a responsabilidade devem prevalecer na relação do jornalismo com o poder e as instituições públicas. A reportagem foi publicada em 2009, quando o jornal impresso ainda ditava o ritmo da produção de notícias. Você acha que hoje haveria o risco de, pela pressa imposta pelo jornalismo online, o jornal ou os concorrentes, que também foram contatados pelos homens que roubaram a prova, se precipitarem e darem a notícia sem a apuração completa?

O risco também havia naquela época, apesar de a internet ser menos forte. O portal R7 tinha sido lançado naquela semana e provavelmente seus jornalistas estavam ávidos por um grande furo. Mas, por razões que desconheço, os homens que queriam vender a prova os procuraram, mas o veículo não publicou a matéria. Procurei alguns jornalistas de lá durante apuração do livro e não fui atendida. Mas acho que atualmente a postura do Estadão seria diferente. Acho que eu não conseguiria guardar a notícia para ser dada apenas no jornal, com a apuração completa. Daríamos uma primeira informação assim que eu tivesse visto a prova, com todo o cuidado, claro, mas a notícia seria atualizada ao longo do dia, até a confirmação do MEC. Acredito que a força da internet mudaria essa história hoje. Imagine essa notícia no Facebook e no Twitter?

O seu livro conta a história do roubo da prova do Enem, mas também faz um histórico das políticas de avaliação da educação no país, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso até hoje. Você acha que, ao contrário de outras áreas do governo, podemos dizer que a educação teve avanços no país nas últimas décadas, mesmo com todos os desafios que ainda enfrenta?

Acredito que muitas áreas tiveram avanços nos últimos anos e a educação também. O país conseguiu incluir na escola quase todas as crianças que cursam o ensino fundamental, apesar de ainda termos muitas dificuldades nesse sentido no ensino infantil e médio. Também aumentou seu investimento na educação básica em comparação com o ensino superior, que historicamente recebia muito mais recursos públicos por aluno. Surgiram políticas afirmativas nas universidades, tanto para afrodescendentes quanto para jovens de baixa renda que cursaram o ensino púbico. Isso só para citar algumas mudanças. No entanto, houve poucos ganhos do ponto de vista de qualidade. Foi criada uma política de avaliações e hoje podemos medir essa qualidade e pensar em soluções. Mas essa segunda parte, a de implementar políticas públicas que resolvam os problemas apresentados pelas avaliações, não foi feita como deveria. Continuamos a ver resultados péssimos em linguagem, matemática, ciências durante anos sucessivos.

Complementando a pergunta anterior, quais os maiores desafios da educação do país hoje, com a instabilidade política e econômica que vivemos e as muitas incertezas em relação ao futuro? De quais políticas o Brasil não pode abrir mão de dar continuidade? E o que você acha que é mais urgente num cenário de crise econômica e de corte de gastos?

Acho que umas das políticas essenciais para se buscar qualidade na educação – e num momento que é preciso ter foco – é a valorização do professor. Com melhores salários, seleção dos melhores profissionais para as carreiras, cursos universitários e de formação continuada atualizados. Países que conseguiram dar grandes saltos na educação seguiram esse caminho. O Brasil já teve ganhos nesse sentido, com o piso nacional dos professores, mas ainda falta muito.