“O senhor agora vai mudar de corpo”, de Raimundo Carrero

17/11/2015 3190 visualizações

Por Juliana Krapp

 

Nascido em Salgueiro, no sertão pernambucano, em 1947, Raimundo Carrero é considerado um dos prosadores mais originais da literatura brasileira contemporânea. Prova disso é o quanto sua extensa produção — são mais de 20 livros — tem sido laureada: o escritor já ganhou prêmios como o APCA (1996), o Machado de Assis (1996 e 2010) e o Jabuti (2000). Poucos meses depois de conquistar o Prêmio São Paulo de Literatura, em 2010, Carrero sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) que o deixou na UTI por duas semanas.

A experiência de fitar a morte e ter de conviver com as limitações impostas pelo ataque é o leitmotiv de O senhor agora vai mudar de corpo, romance que define, nesta entrevista, com uma expressão emprestada de Carlos Heitor Cony: “quase memória”. Isso porque, ao se confrontar com a proximidade da morte, passa em revista não apenas a experiência radical da doença, mas também os episódios mais fortes de sua vida real e surpreendente. Passeando entre a descrição espantosamente lírica e realista do ataque físico e as searas de um delírio exuberante, Carrero também revisita a carreira pregressa de músico, as amizades intensas da juventude, o envolvimento com o Movimento Armorial de Ariano Suassuna, o começo no jornalismo, a relação com as mulheres e a renovação pela paternidade. Com tudo isso, elabora ainda uma contundente reflexão sobre o fazer literário. Afinal, como afirma: “A morte serviu para me manter mais vivo”.

 Um acidente vascular cerebral (AVC) é o ponto de partida para este novo romance. E nasceu de um AVC real: o seu, em 2010, que é narrado no livro de forma densa e surpreendentemente lírica. Como um AVC pode ser lírico?

O ataque do AVC me tirou muitas coisas, mas não mexeu no meu amor por Marilena [sua esposa, que estava dormindo ao seu lado quando Carrero teve o AVC]. Por isso, o lirismo. Acordei doente, é verdade, mas não queria incomodá-la. Ela estava tão bem, tão bonita, não queria perturbá-la. Mas não pude evitar. Ela agiu com muita rapidez, como aliás são as mulheres, corajosas e decididas. Eu tinha que agir com o máximo de delicadeza. Não queria que ela se assustasse.

Como uma obra literária nasce do contato cara a cara com a morte?

Dar de cara com a morte é profundamente inquietante. Para um escritor é matéria de dor e reflexão. Naquela mesma hora revi minha vida e decidi ser feliz porque, apesar da angústia e da ansiedade, sou um homem feliz. Feliz no sentido de perseguir os meus objetivos e de realizá-los, na medida do possível. Sou escritor para investigar a condição humana, e isso me deixa sempre pronto para o combate. Inclusive para enfrentar, encarar e combater a morte. Um escritor não morre fácil.

Algo curioso em seu livro é que a morte à espreita aparece muito mais associada a um delírio — a fantasia de assassinatos e perseguições — do que à doença. O vislumbre da morte é próximo da ficção?   

Acredito que sim, porque é para não morrer que se escreve. Em certo sentido somos Sherezade. Não damos trégua à morte. E é tão fácil morrer.

Podemos dizer que O senhor agora vai mudar de corpo é um livro de memórias?  

 É uma quase memória, para usar a expressão de [Carlos Heitor] Cony. Decidi usar no romance fatos importantes da minha formação e da minha vida, revendo as lições com Ariano [Suassuna], com os meus amigos, o jornalismo, meus filhos, minha juventude, meus problemas e minhas soluções. Mas não de maneira aprofundada. Fiz o tempo ficar móvel, sem datas, circulando levemente no texto.

Você contou numa postagem no Facebook que quase desistiu de escrever este novo romance. Por quê? O que o fez mudar de ideia?

Eu não estava conseguindo alcançar o nível literário que ambicionava. E fazia relatórios. Assim: escrevia coisas ridículas, como “sofri o AVC na madrugada do dia 18 de outubro de 2010 e fui levado ao hospital por minha mulher”. Nada daquilo prestava. E quase entro em desespero. Estava para desistir quando decidi, então, radicalizar as técnicas que ensino na minha oficina de criação literária. O resultado foi surpreendente.  Ficou melhor do que esperava. E amadureci muito. Acredito que minha obra vai crescer muito agora. A morte serviu para me manter mais vivo.

Viagem no ventre da baleia, de 1986, já era de certa forma autobiográfico. A experiência de retratar a si mesmo, tanto tempo depois, foi muito diferente?

Sim, porque muitos daqueles fatos em Viagem no ventre da baleia eram imaginados, digamos que é uma autobiografia imaginária. E agora os fatos são verdadeiros, testemunham a minha existência.

Suas obras sempre foram marcadas pelo enovelamento entre religiosidade e despudor, fé e erotismo. A sua relação com o lado místico da vida — e da escrita — aparece agora de modo ainda mais tenso. Como essa tensão se articula ao seu jeito de escrever?  

Acho, sinceramente, que esta tensão é que me faz escritor. Sou um místico na medida em que meu erotismo toma conta de mim. O sexo ocupa uma parte muito importante na minha vida. Em muitos momentos sou guiado pelo sexo e pela oração. Afinal, não sou santo, sou um homem, mas gostaria muito de ser santo.

Você já descreveu algumas vezes o seu processo de escrita: costuma fazer anotações, geralmente em folhas de livros que está lendo, e depois se entrega apaixonadamente à confecção da nova história. Seguiu esse método em O senhor agora vai mudar de corpo? Quanto tempo demorou para escrevê-lo? 

Sim, mas menos intensamente, porque estava tratando de mim mesmo. Continuo anotando nas últimas páginas em branco dos livros que leio, mas desta vez não precisei tanto porque estava quase sempre em casa, na cama ou na poltrona. E assim ia direto ao computador. Como já havia traçado o plano inteiro do livro e escolhido as cenas essenciais, escrevi o romance em cinco meses. Sem pressa, é claro, mas obedecendo ao meu plano e ao meu ritmo.

Sua escrita tem como características o atrevimento e a insubordinação. E, pelo que indicam estas “quase memórias”, sua vida também. Você sente falta de mais atrevimento na literatura brasileira? E na vida?

Sim. Em muitos casos esquecemos o personagem para privilegiar o texto. E não há texto sem o atrevimento e a ousadia do personagem.

O ato da escrita é uma luta intensa, mas também — e sobretudo — uma festa. É mais ou menos o que você tem dito em entrevistas. De que tipo de festa estamos falando?

Uma orgia. Não esqueçamos a frase de Flaubert: “A literatura é uma orgia perpétua”. E ninguém foi mais exigente com o texto [do que o autor francês].

O senhor foi discípulo do Movimento Armorial de Ariano Suassuna, mas conta neste livro que um amigo insistia em afirmar que sua grande influência era, na verdade, Faulkner. Olhando agora para seus 40 anos de carreira: o quanto sua escrita é Movimento Armorial e o quanto é Faulkner?

Quem disse isso foi Hermilo Borba Filho, grande escritor brasileiro, com uma obra maravilhosa, das mais notáveis que já se escreveu no Brasil. Mas ele não tinha razão. Naquele tempo, eu havia lido pouco Faulkner, de quem me tornei leitor voraz, na época. Cheguei a escrever na máquina que pertenceu a Faulkner, quando visitei a família dele nos Estados Unidos. Sempre fui e sempre serei discípulo de Ariano.

Quando ganhou o Prêmio São Paulo, em 2010, com o romance A minha alma é irmã de Deus, você disse que estava começando ali o seu “ciclo da maturidade”. Como é essa etapa?

Penso que agora tenho mais domínio da técnica e uma visão do mundo definitiva.

Já está envolvido em um novo romance? Quais são seus projetos atuais?  

Estou começando as anotações para uma biografia de Jesus Cristo, em que devo me ocupar nos próximos anos. E depois será depois, e depois, e depois…