“O voto do brasileiro”, Alberto Carlos Almeida

28/05/2018 103 visualizações

Por Claudia Lamego

Em ano eleitoral e em meio a uma das mais graves crises políticas do país, o cientista político Alberto Carlos Almeida defende que o pleito deste 2018 deverá ser decidido entre o PT e o PSDB, partidos que se revezam na Presidência do país desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, passando pelos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva e o segundo mandato, interrompido pelo impeachment, da presidente Dilma Rousseff. Em seu novo livro, “O voto do brasileiro”, Almeida mostra, por meio dos padrões das votações mais recentes, que as nossas eleições são previsíveis e se assemelham a países como Alemanha, Espanha e Reino Unido.

Por meio do mapa das votações em cada estado e regiões, o autor identifica que o eleitorado majoritário do PSDB se encontra em São Paulo, é conservador, de alta renda e liberal. Já os eleitores do PT se concentram na região Nordeste, têm escolaridade e renda mais baixas e dependem mais da ação do Estado para sobreviver. “No último capítulo, logo no início, afirmo que o livro sugere que o PT irá para o segundo turno graças ao voto do Nordeste e o PSDB graças ao voto do Estado de São Paulo. Tive o cuidado de colocar a seguinte nota de pé de página: “caso isso não aconteça, este livro terá sido ao menos útil para documentar um breve período no qual a nossa disputa eleitoral nacional esteve estruturada como a de um País de Primeiro Mundo”. O livro documenta um período importante da história do Brasil, e indica que isso pode influenciar o futuro. Porém, previsões como a que fiz são probabilísticas, jamais determinísticas. Ainda assim, creio que a previsão que está no livro se concretizará”, afirma Almeida.

Em entrevista ao blog, o cientista político minimiza a influência do voto religioso e das fake news nas próximas eleições e diz que um candidato como Jair Bolsonaro só teria chances se fosse filiado ao PSDB, o que está fora de cogitação. Para ele, o exemplo da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos não se aplica ao Brasil porque lá foi usado o tema da imigração e seus impactos econômicos, como o desemprego, como fator de desestabilização do resultado. Aqui, segundo ele, um tema como a segurança pública, uma das bandeiras mais fortes de Bolsonaro, não teria tanta força no eleitorado.

Por fim, afirma que o juiz Sergio Moro hoje é a figura do Judiciário que poderia influenciar fortemente os rumos das eleições. “Ele já mostrou em outras oportunidades que pode e quer influenciar a política. Não duvido que durante o processo eleitoral ele prenda alguém do PT ou convoque Lula para uma oitiva sobre o processo do sítio de Atibaia”, afirma.

No livro, você mostra que o Brasil vem seguindo um padrão de votação que se assemelha ao de países mais ricos, como Estados Unidos, Alemanha, França, Espanha e Itália: quanto maior a renda, maior a tendência no voto de centro-direita; quanto menor a renda e maior a dependência da intervenção do Estado no bem-estar social, mais chances têm o partido de centro-esquerda. A poucos meses das eleições, não temos ainda nem os candidatos definidos. O ex-presidente Lula está preso e o PSDB ainda não decidiu quem será o candidato do partido, o ex-governador Geraldo Alckmin ou o ex-prefeito Doria. Esses são fatores que complicam ainda mais o cenário de crise deste ano?

Sim, sem dúvida que tudo isso torna o cenário nebuloso. No último capítulo, logo no início, afirmo que o livro sugere que o PT irá para o segundo turno graças ao voto do Nordeste e o PSDB graças ao voto do Estado de São Paulo. Tive o cuidado de colocar a seguinte nota de pé de página: “caso isso não aconteça, este livro terá sido ao menos útil para documentar um breve período no qual a nossa disputa eleitoral nacional esteve estruturada como a de um País de Primeiro Mundo”. O livro documenta um período importante da história do Brasil, e indica que isso pode influenciar o futuro. Porém, previsões como a que fiz são probabilísticas, jamais determinísticas. Ainda assim, creio que a previsão que está no livro se concretizará.

 Você mostrou que outros fatores, além da renda e da situação econômica, podem influenciar no voto, como a questão da religião. Temos visto no Brasil o crescimento do segmento evangélico, não só com a vitória de muitos bispos e pastores como também a conversão de brasileiros a essa religião. Estima-se que em alguns anos a maioria da população não será mais católica. Como analisa, historicamente, a votação desses evangélicos, que já estiveram no governo Lula, mas abandonaram o PT ao apoiar o impeachment da presidente Dilma Rousseff? Eles podem realmente mudar a estrutura do voto no Brasil, a médio e longo prazo?

Pensando apenas na influência da religião no voto para presidente, não influenciará, pelo menos não em 2018. Nos países em que isso aconteceu havia sempre um partido cujo nome era Democracia Cristã. Isso é apenas para mostrar que a mobilização política da religião foi levada tão a sério que até mesmo o nome do partido refletia isso. Trata-se de algo inteiramente distante de nosso contexto, repito, ao menos no que tange as disputas majoritárias e, em particular, para presidente da república.

Outro fator indefinido neste ano é a questão do uso da máquina partidária do governo federal nas eleições de outubro. Com a popularidade em baixa, como o presidente Michel Temer poderá transferir votos a partir de seus supostos feitos no governo e qual partido poderia se beneficiar?

A avaliação do Presidente temer e de seu governo é inteiramente tóxica. Isso significa que quem for apoiado por ele irá perder. O eleitorado quer mudança em relação ao Governo Temer. A visão do eleitor médio é de curto prazo: ele sente os efeitos negativos da crise em sua própria pele e na da sua família, olha quem está governando, e liga uma coisa com outra. Para o eleitor médio o culpado da crise é o Governo Temer. Assim, ele vai querer um governo de mudança.

Muita gente hoje no Brasil se pergunta sobre as chances de Jair Bolsonaro, que vem crescendo nas pesquisas de intenção de voto (surgiu em primeiro em São Paulo, por exemplo), vencer as eleições presidenciais de outubro. Levando-se em conta que um outsider como Donald Trump conseguiu superar todas as expectativas e se eleger, inclusive com o voto de um cinturão de cidades empobrecidas nos Estados Unidos, como você avalia essa pré-candidatura?

Nos EUA ou ganha o Partido Republicano ou o Democrata. Trump foi candidato pelo Republicano. Se Bolsonaro fosse o candidato do PSDB acho que ele poderia ser hoje o favorito. Além disso, nos EUA, na França e na Itália as novas forças políticas e os novos discursos, além de terem levando muito tempo para ficarem mais fortes, contaram com o tema da imigração e seus impactos econômicos. A imigração reduziu as chances de emprego dos locais. Isso é que foi mobilizado. O tema da segurança pública não substitui o tema da imigração por várias razões, porque não tem impacto econômico direto e perceptível, e porque os candidatos a governador de estado também irão tratar do tema, afinal são eles que comandam a polícia.

O Brasil vive atualmente a expectativa dos desdobramentos econômicos, sociais e políticos da operação Lava-Jato, um divisor de águas na política aqui como foi a Operação Mãos Limpas na Itália. Uma frase de Romero Jucá, captada nas investigações da Lava-Jato, ficou famosa: “Com o Supremo, com tudo”. O Judiciário é, sem dúvida, um agente que pode determinar os resultados desta eleição?

Acho que não o judiciário, mas sim o Sergio Moro. Ele já mostrou em outras oportunidades que pode e quer influenciar a política. Não duvido que durante o processo eleitoral ele prenda alguém do PT ou convoque Lula para uma oitiva sobre o processo do sítio de Atibaia. Basta fazer algo assim que ele estará tentando influenciar os resultados da eleição.

Este mês, o Facebook, anunciou parceria com duas agências brasileiras de checagem de fatos com o objetivo de atuarem juntos durante o período eleitoral para a identificação das fake news. Não demorou muito para que a própria agência e seus jornalistas fossem vítimas de ataques e ameaças nas redes, como atesta artigo publicado esta semana na revista Época (https://bit.ly/2x3ggtO). Considerando a dificuldade que alguns políticos têm de fazer campanha num país continental como o nosso, mas sabendo que as redes sociais encurtam muitos caminhos para se chegar às pessoas, como controlar a disseminação de boatos e notícias falsas e que impacto elas podem ter no pleito?

Creio que pouco será feito para controlar e coibir esse fenômeno, ao menos agora em 2018. É preciso que ocorra um fato político, pode ser algo como o que ocorreu nos EUA, na Itália ou no Reino Unido, onde a Rússia fez guerra cibernética tentando influenciar resultados eleitorais. Acho que só depois de algo assim ocorrer no Brasil é que medidas mais sérias serão adotadas com a finalidade de dificultar a propagação de fake News

 O Brasil tem um histórico de golpes militares e políticos e o período analisado para a conclusão do livro é relativamente recente, tendo como marco as políticas sociais implementadas pelo presidente Lula a partir de 2002 e que beneficiaram, principalmente no Nordeste brasileiro, a população mais pobre e necessitada do país. Depois de um processo de impeachment controverso, de uma crise econômica que parece não dar sinais de melhora, seria precipitado temer alguma intervenção mais contundente no processo eleitoral de 2018?

O Brasil é vítima hoje de muitos problemas graves que exigem medidas contraditórias. Por exemplo, temos um grande problema fiscal, nesse sentido é preciso gastar menos e arrecadar mais, porém temos por outro lado imensas carências econômicas e sociais, que resultam em pressão eleitoral para gastar mais. Ora, isso é uma tremenda sinuca de bico. Se os políticos já têm dificuldade de gerenciar dilemas como esse, o que não dizer de militares que não têm a menor experiência nas habilidades da política, no negociar, avançar, ceder, transigir, comunicar-se, buscar apoio, formar alianças. O Brasil é hoje um país extremamente complexo. Assim, os militares não conseguiriam administrá-lo por uma semana sequer.

Por fim, até que ponto uma aliança entre PSDB e PT, como muitos já aventaram ao longo dos anos, desde 2002, é utópica no Brasil?

Uma aliança desse tipo vem ocorrendo na Alemanha nos últimos anos. O atual governo é sustentado pela aliança entre o PSDB e o PT de lá. Só isso indica que algum dia pode sim ocorrer. Mas acho que estamos bem longe disso. Hoje a polarização aumentou em função dos ressentimentos gerados pela lava-jato e por tudo que gravita em torno dela. O PT se sente roubado e quer dar o troco. Isso ainda perdurará por muitos anos.