Leituras para entender o golpe de 1964

31/03/2021 551 visualizações

Março de 1964 foi marcado por uma tensão política, que culminou com a derrubada do presidente João Goulart, eleito democraticamente como vice de Jânio Quadros. A ditadura militar, que suprimiu direitos constitucionais básicos, perdurou até o início da década de 1980. O impacto deste longo período de exceção é analisado em duas biografias e dois romances. Confira.

Me esqueçam: Figueiredo, de Bernardo Bragaa Pasqualette

Me esqueçam: Figueiredo (Ed. Record, 798 págs, R$87,90) é o relato biográfico de uma Presidência que ressignificou a vida de um oficial do Exército cuja maior aspiração era ascender na carreira militar, mas que o destino alçou ao cargo político mais cobiçado do país. Da antagônica combinação entre desejo e realidade, emana o caráter sui generis de João Baptista Figueiredo, último presidente a comandar o Brasil durante o regime militar. Apaixonado por equitação, certa vez confessou preferir os cavalos ao próprio povo que jurara servir, o que diz muito sobre a sua controversa personalidade. Em meio a declarações erráticas e frequentes oscilações de humor, agravadas em decorrência de problemas cardíacos, Figueiredo levou adiante o processo de abertura política e, entre bombas e atentados, cumpriu o que prometera em sua cerimônia de posse: “Hei de fazer desse país novamente uma democracia.” Fez. Tendo anistiado adversários políticos, foi incapaz de anistiar a si próprio e bateu a porta pedindo publicamente que o esquecessem. O esquecimento pretendido por Figueiredo, entretanto, privaria o país da memória de um dos períodos mais controvertidos da vida política nacional – o capítulo final da ditadura militar. O autor se debruçou sobre diversas fontes de pesquisa, inclusive documentos da época e registros de processos judiciais. Realizou também dezenas de entrevistas com pessoas que conviveram de perto com o ex-presidente, como José Sarney, Delfim Netto, Fernando Henrique Cardoso, Ernane Galvêas, Carlos Langoni, Alfredo Karam e Elio Gaspari, entre outros. Para comprar o livro clique aqui.

Uma mulher vestida de silêncio, de Wagner William

A vida da mais célebre primeira-dama do Brasil com relatos inéditos de acontecimentos da vida íntima dos Goulart que se misturam à vida política do país. Uma mulher vestida de silêncio (Ed. Record, 644 págs, R$67,90) revela a trajetória extraordinária de Maria Thereza Goulart. Filha de imigrantes italianos, nascida em uma cidade fronteiriça do Rio Grande do Sul, casou-se com João Goulart, amigo dos pais, vizinho da família na pequena São Borja e dezoito anos mais velho. Com pouco mais de 20 anos, acompanhava o marido discretamente durante a vice-presidência no governo de Juscelino Kubitschek e a fugaz presidência de Jânio Quadros, e foi surpreendida aos 26 anos, quando a renúncia de Jânio alçou Jango à presidência. Tornou-se a mais jovem primeira-dama do Brasil, apontada certa vez como a mais bela do mundo. Durante a presidência do marido, sua imagem foi vinculada ao papel relegado às primeiras-damas de então: esposa, mãe e dona de casa. No entanto, o episódio do comício da Central do Brasil, que seria o estopim para a articulação do golpe militar, seria também marcante para ela: insistiu para subir ao palanque e acompanhar o marido, diante de 200 mil pessoas, desafiando o tradicionalismo da época. Mas quem, de fato, era aquela moça tão linda, tão fora de padrão, que encantou o país comandado pelo marido? Para responder a esta pergunta, Wagner William dedicou doze anos de pesquisas em arquivos desclassificados no Uruguai e no Brasil, debruçando-se sobre mais de cem entrevistas e diversos documentos – incluindo o diário da própria Maria Thereza. Compre aqui.

O último dia da inocência, de Edney Silvestre

Inteiramente passado em 13 de março de 1964, O último dia da inocência (Ed. Record, 196 págs, R$31,90) mistura situações e personagens reais a criações fictícias. Em meio às tensões do dia do comício de João Goulart na Central do Brasil, um jovem ingênuo e indiferente às conspirações políticas à sua volta se vê testemunha de um assassinato, do qual se torna o principal suspeito. O protagonista é um órfão brasileiro – sobrevivente de outro crime – que sonha em ser jornalista e busca a grande história a reportar. Ele não desconfia que a história surgirá na forma de seu próprio enredo, em que nenhum acaso é verdadeiramente fruto do destino. Enquanto tropas do Exército, conspiradores e manifestantes vão se juntando no centro do Rio de Janeiro, o jovem, que não se recorda de ter cometido o crime, busca desesperadamente, por diversos pontos da cidade, alguém que possa ajudar a inocentá-lo. Cada minuto conta. E a cada hora ele descobre que outros crimes secretos – em que ele e sua família estiveram envolvidos – foram cometidos ao longo dos anos. A primorosa reconstrução do ambiente político brasileiro tem papel decisivo no desfecho da trama. Também primorosa é a recriação do Rio de Janeiro. Nessa obra-prima de recomposição de uma topografia afetiva, fruto de pesquisa meticulosa, Edney Silvestre nos presenteia com mais uma demonstração de seu talento, em um livro emocionante. Compre o livro aqui.

O corpo interminável, de Claudia Lage

Uma coleção de silêncios e baús revirados dão o tom densoque O corpo interminável (Ed. Record, 196 págs, R$54,90) apresenta ao perseguir a saga de Daniel, filho de uma guerrilheira presa, torturada e morta na Ditadura Militar brasileira. Mais que reconstruir uma história, no entanto, é sobre as ausências que esta história trata. A memória descontinuada, apagada à revelia de seus protagonistas, arrancada de suas mãos por onde escorrem a saudade. O livro é um resgate de memória não só dos personagens, como também do país. É o retrato de mulheres que escolheram lutar pela democracia em um momento de ameaça aos militantes, sobretudo as mulheres. Não espere o óbvio por saber que se trata de uma história que fala de desaparecimento de mulheres, de ditadura e tortura. Pelo contrário, espere encontrar nestas linhas o peso exercido pela política na vida pessoal daqueles que nela se engajaram, daqueles que lutaram e se depararam com o horror dentro de casa. Espere a busca eterna, a tentativa de dar nome a tantos espaços nunca contados, desconhecidos. Nesta narrativa, espere conhecer desde um jovem envolto em um mundo que não compreendia por não saber ser possível caber tanto desconhecimento – nada da mãe lhe parecia ter existido – a outro já mais maduro, ainda em busca, prestes a ser pai, deparando-se com os horrores das torturas sofridas pela mãe e outras mulheres brasileiras. Compre o livro aqui.