Pesquisadora e escritora Debora Diniz resenha o livro “A tortura como arma de guerra”

20/09/2016 3060 visualizações

Por Debora Diniz

Começo pelo que há de mais interessante no livro – deslocar o eixo da geopolítica colonizadora durante a ditadura civil-militar de 1964 para além dos Estados Unidos. A França teve um papel estratégico, porém silencioso, sob o manto da república protetora dos direitos humanos. O livro tem um personagem central: o general Paul Aussaresses, o primeiro a publicamente assumir que houve tortura nos conflitos contra a Argélia. Para nossa história local, o surpreendente foi entender como a tática de “guerra contrarrevolucionária” se aplicou da Argélia ao Brasil, e outros países da América Latina. Leneide Duarte-Plon mostra como a tática contrarrevolucionária foi, primeiro, testada nas resistências à independência colonial para, depois, ser exportada como método político para as escolas militares das ditaduras latino-americanas. O inimigo era alguém interno ao país.

No Brasil, general Aussaresses teve particular importância. Viveu  no Brasil no período Geisel como adido militar francês, foi companheiro do general Figueiredo e participou ativamente das escolas de treinamento militar em Manaus, a capital de formação tática do Exército durante a ditadura. Aussaresses é praticamente desconhecido de nossa história local – ao menos, nunca havia falado dele, nem dos dois livros escandalosos que escreveu sobre como a tortura foi uma arma de guerra nas lutas coloniais da França. Era um “homem da sombra”, expressão militar para caracterizar os militares da inteligência. A surpresa é quando resolve ir à imprensa nos anos 2000 e contar alguns dos segredos militares de provocar vergonha à França. Na Argélia, as regras da guerra (Terceira Convenção de Genebra, 1929) foram subvertidas – ao invés de prender e ter prisioneiros, eliminavam-se. Os grupos de matança foram conhecidos como “esquadrões da morte”.

O livro tem uma composição mista entre fontes e energias. Uma parte importante da obra é apresentar esse lugar desconhecido da política externa francesa em treinamento militar para o uso da tortura como uma tática de uso da força – nesse momento, são revisões rápidas de autores consagrados do campo do estudo da tortura e uma abundância de pesquisa em arquivo de jornal, particularmente do francês Le Monde. Uma parte menos intensa, porém a de maior interesse para uma leitora local, é a conexão da política francesa com nossa história, o que Duarte-Plon descreve como “o DNA francês nas ditaduras latino-americanos”. Neste momento, o livro perde o fôlego e não por fraqueza da autora, mas por uma característica da transparência de nossa história – os arquivos ainda não estão disponíveis que a permitam acrescentar a peça do lado de cá para a história da ascendência francesa em nossa história de chumbo. Perder o fôlego não significa diminuir o interesse, ao contrário: a simples apresentação de uma “descoberta” é já algo fascinante para a leitura. É um adjetivo direcionado à forma como lidamos como nossa memória no Brasil: a opção pelo esquecimento não nos levará à justiça. Ao final, como uma preciosidade compartilhada – um gesto generoso e de transparência de fontes – há a transcrição integral das duas entrevistas que Duarte-Plon realizou com o general Aussaresses antes de sua morte.