“Polícia federal: A lei é para todos”, de Ana Maria Santos e Carlos Graieb

23/08/2017 214 visualizações

Nos últimos três anos, nenhum assunto mereceu mais manchetes no Brasil do que a Operação Lava Jato. Faz sentido. Desde março de 2014, quando a Polícia Federal deu início à maior investigação anticorrupção da história brasileira, já foram realizadas mais de 40 fases, mais de cem suspeitos foram presos e outros tantos foram levados a depor. Em pauta, inúmeras acusações de desvios bilionários de recursos públicos, envolvendo empresários e políticos de todos os partidos, em todos os níveis de governo.

E vem mais por aí. A caneta do juiz Sergio Moro, o principal juiz a autorizar as ações da Lava Jato, continua ativa. Nada indica que as investigações vão parar, por mais que estejam incomodando gente poderosa e com muita grana. Até mesmo o presidente Michel Temer já chegou a ser citado em depoimentos de alguns dos acusados.

Por essas e por outras, a dupla Ana Maria Santos e Carlos Graieb percebeu que a Lava Jato merecia um livro contando seus bastidores, com histórias que passam longe das páginas dos jornais e sites de notícias. Com base em uma ampla rede de informantes e muitas entrevistas, “Polícia Federal – A lei é para todos” levanta episódios inéditos, saborosos, que valorizam profissionais fundamentais para o sucesso da operação. Os federais envolvidos na Lava Jato acabaram encarnando os heróis anônimos de um país que clama pelo fim da corrupção.

Não foi por acaso que o livro virou um filme homônimo que já anda causando polêmica antes mesmo de ser lançado, em 7 de setembro. Livro e filme podem ser vistos como um ótimo thriller de ficção – mas o pior é que é tudo verdade.

No calor de todo esse movimento, Ana Maria e Graieb trocaram uma ideia com o blog. Segundo eles, ainda há muito mais a ser contado e, por isso, já estão preparando novos livros sobre a Operação. “Continuar é inevitável”.

 

Vocês imaginam onde a Lava-Jato vai chegar?

Não podemos fazer previsões, particularmente porque a análise dos documentos não foi finalizada. A Polícia Federal ainda tem pela frente a investigação de muitos segredos, escondidos em HDs e celulares, entre outros, que aguardam para ser desvendados.

O livro termina na posse do presidente Michel Temer. Haverá uma continuação?

Sim, o projeto inclui mais dois livros e filmes. Continuar é inevitável, afinal, a Operação Lava Jato ainda está em curso e temos material que não foi usado no primeiro livro. Já estamos trabalhando na sequência.

O que os deixou mais surpresos durante as entrevistas para o livro?

Sob qualquer ângulo que se olhe, os números que envolvem a Lava Jato chamam a atenção. Poderíamos começar citando os mais óbvios: volume de dinheiro desviado da Petrobras, quantidade de pessoas investigadas e condenadas, o inédito número de pessoas poderosas sendo presas, o valor recuperado, entre outros. Mas o que realmente nos surpreendeu foram os detalhes da investigação propriamente dita. A quantidade de documentos apreendidos em cada uma das fases que havia sido deflagrada era simplesmente inacreditável: montanhas de planilhas, centenas de aparelhos de celular, HDs, iPads, incontáveis anotações suspeitas feitas em caderninhos, agendas, papeis soltos, milhares de horas de ligações gravadas. Apesar do emaranhado de informações, surpreendentemente os investigadores conseguiram juntar, uma a uma, as peças de um quebra-cabeça gigantesco. Diante de um esquema criminoso profissional – mafioso – o Grupo de Trabalho da Polícia Federal precisou usar todos os meios de inteligência que a instituição dispunha. No meio do caminho, engenheiros tiveram que desenvolver novas ferramentas, especialmente destinadas à análise de dispositivos eletrônicos. Um dos avanços dizia respeito à quebra de senhas. Fascinante!

Conhecendo profundamente a engrenagem política do país, é possível ter esperança nas promessas de mudanças?

Nós não podemos desistir do nosso país. É nosso dever monitorar para que as instituições funcionem com total observância às leis. Os resultados obtidos pela Lava Jato só foram alcançados graças ao apoio dos brasileiros. Mostramos que podemos, sim, mudar os rumos da nossa história. O livro e o filme deixam essa mensagem.

Depois de tudo o que foi apurado, e até pelo seu desempenho nas últimas eleições, vocês diriam que o Partido dos Trabalhadores terá como se reerguer?

O resultado das eleições de 2016 não foi necessariamente uma sentença de morte para o Partido dos Trabalhadores, mas, sim, um aviso. Na verdade, todos os partidos deveriam ouvir atentamente o alerta dado pelas urnas no último pleito: cuidado, não desafiem a tolerância do povo brasileiro.

O livro pode ser lido quase como um romance – e o pior é que é tudo verdade. A narrativa ágil rendeu um thriller com muitos vilões, muito dinheiro correndo ilegalmente e muitas prisões. Vocês imaginaram que renderia um filme?

Tudo aconteceu muito rapidamente. Em um momento, estávamos pensando em escrever um livro e, no momento seguinte, o produtor Tomislav Blazic propôs que trabalhássemos juntos. Aceitamos prontamente. Nós não imaginávamos que o projeto do nosso livro subsidiaria um roteiro para o cinema, com uma produção espetacular.