Quatro livros com temas delicados narrados por crianças

Por Mariana Moreno

Sempre gostei de livros narrados por crianças por causa da forma como eles costumam dar leveza a temas de “gente grande”. Penso no desafio dos escritores para dar voz aos pequenos, seja na escolha do vocabulário ou das circunstâncias que levarão ao amadurecimento deles.  Além disso, acredito que os narradores infantis são importantes porque podem ajudar crianças e adolescentes a lidar e compreender temas difíceis. Selecionei quatro livros do Grupo Editorial Record que têm narradores com menos de 12 anos e que falam sobre racismo, violência sexual, holocausto e opressão. São eles: “O sol é para todos” (José Olympio), “Quarto” (Verus Editora), “Uma vez” (Paz&Terra) e “Escondi minha voz”(Bertrand Brasil).

Sol e para todos.inddO SOL É PARA TODOS |Harper Lee | José Olympio

Clássico da literatura norte-americana, “O sol é para todos” ganhou o Pulitzer em 1961 e em 2015 recebeu nova tradução e projeto gráfico pela Editora José Olympio. Considerado um dos romances mais importantes do século 20, o livro, de Harper Lee, aborda a temática do racismo a partir do olhar de Scout, uma menina de 8 anos que vive no Alabama com o irmão mais  velho e o pai, o advogado Atticus Finch.

Atticus decide defender um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca e começa a enfrentar as represálias da comunidade em que vive. Scout fica sabendo da história na escola, quando, no meio de uma briga, um colega lhe provoca dizendo que seu pai defende “pretos”. Sem entender direito a acusação, Scout pergunta ao irmão: “o que ele quis dizer com isso?”. A passagem dá início ao doloroso processo de amadurecimento de Scout, que, sem perceber, começa a lidar com o conceito de justiça.

Em 2016, a José Olympio lançou “Vá, coloque um vigia”, continuação de “O sol é para todos”. O manuscrito ficou desaparecido por cerca de 60 anos e foi descoberto em 2014. No romance, Scout é uma jovem de 26 anos, que começa a se confrontar com os valores da comunidade em que cresceu e da família que a criou.

QUARTO| Emma Donoghue| Verus EditoraQuarto

 A escritora irlandesa Emma Donoghue se inspirou no caso Josef Fritzl (austríaco que fez a filha refém por décadas e teve vários filhos com ela) para escrever o livro que conta a história de um menino que vive encarcerado com a mãe em um quarto de menos de 10 metros quadrados.  Fruto do abuso do sequestrador, Jack nasceu no cativeiro e todo o seu universo gira em torno do minúsculo quarto, que se torna um ambiente mais acolhedor por meio do amor e da criatividade de sua mãe.

Todas as noites as noites, a mãe de Jack coloca o menino para dormir num guarda-roupa antes de receber a visita do velho Nick, que a sequestrou há sete anos. Até o dia que ela resolve elaborar um plano para fugir, que, para dar certo, contará com toda concentração e coragem do menino. Com muita sensibilidade e delicadeza, Jack nos transporta para seu pequeno e ao mesmo tempo vasto universo do quarto e, acompanhamos também sua descoberta do mundo, que ele chama de “Lá fora”.

“Quarto” foi adaptado para o cinema e recebeu quatro indicações ao Oscar. A atriz Brie Larson, que interpreta a mãe de Jack, levou o prêmio de melhor atriz. Ela também conquistou “O globo de ouro” na mesma categoria. O menino foi interpretado pelo ator Jacob Trembley.

Capa Uma vez DSUMA VEZ| MORRIS GLEITZMAN| Paz&Terra

Lançado em maio deste ano pela Editora Paz& Terra, “Uma vez” foi considerado um dos 100 melhores livros para jovens pela BBC e pelo jornal The Guardian. O livro é narrado por Felix, um menino de 10 anos que vive num orfanato católico na Polônia. Ele foi deixado lá pelos pais  para ele pudesse fugir dos nazistas. Seus amigos não sabem que ele é  judeu e ele acredita que um dia seus pais voltarão para buscá-lo, após resolveram alguns problemas na livraria deles. Depois de quase quatro anos de espera e acreditando que recebeu um sinal do universo, ele decide fugir para procurar sua família. E é assim que ele se depara com as maiores atrocidades da guerra e do nazismo.

Ao longo da história, vamos testemunhando o amadurecimento do menino, que usa a imaginação o tempo todo para driblar as adversidades da vida. Ele adora inventar histórias e as registra num caderno.

Para escrever “Uma vez”, Gleitzman viajou para a Polôniae revisitou o passado do avô judeu, que se mudou ainda jovem para a Inglaterra. Lá, ouviu muitos relatos de sobreviventes do Holocausto.

 ESCONDI MINHA VOZ| Parinoush Saniee| Bertrand BrasilCapa Escondi minha voz V3 DS

Em um país marcado pela opressão como o Irã, a expressão “ganhar voz” pode assumir um sentido quase literal. E é justamente o que acontece neste romance de Parinoush Saniee, autora do best-seller “O livro do destino”, banido duas vezes pelo governo iraniano.  Se em seu primeiro livro a trama gira em torno de uma mulher e de suas duras experiências ao longo de décadas, agora, é um menino de apenas quatro anos que está no centro da história.

Aparentemente, Shahab não tem nenhum problema e os próprios médicos garantem que ele é saudável. Apesar disso, para preocupação da mãe e desgosto do pai, ele não fala.  Com um irmão obstinado em ser o primeiro da classe e uma irmã mais nova desinibida, o menino acaba sendo visto como o estranho da família e é chamado de tonto pelos tios e primos. Mesmo tendo um carinho enorme pela mãe, ele só se sente à vontade para conversar, secretamente, com dois amigos imaginários.

A história de Shahab começa a mudar quando sua avó materna passa algumas semanas com a família e desenvolve com o menino uma relação de confiança e cumplicidade. Aos poucos, ele se sente seguro para falar, começa a frequentar a escola e demonstra ter interesse especial pelas palavras escritas.

Narrado paralelamente por Shahab e por sua mãe, o livro mostra a luta de um menino sensível diante de sua incomunicabilidade com os outros, além dos desafios de ser mulher no Irã, sobretudo quando o roteiro da maternidade não ocorre como o planejado ou como a sociedade espera.