A relação entre Henry Ford e o antissemitismo

 A leitura dos textos escritos pelos próprios nazistas nos obriga ao esforço particularmente desagradável de levar a sério suas afirmações, reconhecer que eram inteligentes, articulados e capazes de admitir que seu modo de expressão não era unicamente a mentira. Existe aqui algo que vai de encon­tro à nossa natureza, pois preferiríamos ter em comum com eles o mínimo possível. Sem esse esforço, contudo, correríamos o risco de agir precisa­mente como eles, que se esforçavam para se convencer de que suas vítimas eram iguais aos ratos, às bactérias, aos seres nocivos e queriam persuadir os executantes de que, sob a aparência de mulheres e crianças que tanto se pareciam com as suas, se escondia uma peste que, por supremo dever, deveria ser combatida a todo custo. Optei por dar aos nazistas suficiente crédito intelectual para acreditar no que diziam. Era preciso ouvi-los sem ingenuidade, separando devidamente a propaganda (suas afirmações que sabiam ser falsas), por eles elevada a um nível sem precedentes, de seu verdadeiro pensamento (as afirmações que acreditavam ser verdadeiras) — o único que pode nos indicar suas intenções”.

A corajosa missão empreendida pelo filósofo francês Jean-Louis Vullierme, acima descrita, foi enaltecida por um dos mais renomados intelectuais franceses da atualidade, o antropólogo e sociólogo de origem sefardita, Edgar Morin, que a respeito de Espelho do Ocidente – O nazismo e a civilização ocidental, disse se tratar de um “livro decisivo como raramente se vê”. Para além da humilhação imposta à Alemanha pelo Tratado de Versalhes ao fim da I Guerra Mundial, Vullierme identifica as raízes do antissemitismo nos Estados Unidos, estabelecendo um instigante paralelo entre a marcha para o Oeste nos Estados Unidos, responsável pelo extermínio das populações nativas, com a igualmente devastadora marcha para o Leste de Adolf Hitler. Entre fatos pouco comentados atualmente e sobre os quais o autor lança luz está a cumplicidade de empresas como a Coca-Cola, que, uma vez impedida de vender o seu refrigerante, lançou a Fanta para o mercado alemão e a Standard Oil, que burlou o embargo para fornecimento de combustível criando uma empresa de bandeira panamenha. O ditador alemão era um grande fã do industrial Henry Ford.

Vullierme alerta ainda para o risco de uma mutação ideológica que gere uma abominação sob novas formas e afirma que milita não pela eliminação do nazismo, que de fato morreu em 1945, mas pela identificação presente e a erradicação futura do que o causou. Espelho do Ocidente – O nazismo e a civilização ocidental chega às livrarias pelo selo Difel, com a chancela do Programa de Apoio à Publicação Carlos Drummond de Andrade do Instituto Francês do Brasil.

Capa Espelho do ocidente MF.inddEspelho do Ocidente – O nazismo e a civilização ocidental

(Miroir de l’Occident, Le nazisme et la civilisation occidentale)

Jean-Louis Vullierme

Tradução: Clóvis Marques

364  pág. | R$ 79.90

Difel | Grupo Editorial Record

 

A família do filósofo francês Jean-Louis Vullierme lutou contra o nazismo e foi parcialmente destruída por ele. Ao refletir sobre o maior extermínio da história moderna em Espelho do Ocidente, Vullierme considera frágil a hipótese de uma loucura coletiva, sanguinária e súbita que teria tido como uma das principais justificativas o revanchismo às imposições do Tratado de Versalhes. Ele se pergunta, então, quais seriam os motivos antropológicos para uma extravagância tão abominável e que circunstâncias a levaram a se impor? Descrito como um ensaio de filosofia cognitiva da história, Espelho do Ocidente revela um autor em busca das intenções do nazismo, as origens culturais que o tornaram possível e tão difícil de combater.

Vullierme defende que o nazismo tem sua origem na ideologia ocidental dominante e que seu crime foi ainda maior do que o extermínio de judeus. O autor reconhece que proposições desta natureza podem suscitar interpretações falaciosas como “diluição de responsabilidades” ou “banalização do mal”, pois desviam o foco das causas reais por trás do Holocausto, que se revelam ao ler os escritos nazistas levando-os a sério, por mais desagradável que possa se revelar..

O filósofo lembra que a responsabilidade não termina nas fronteiras do Reich, uma vez que em todos os países invadidos, surgiram, em massa, protagonistas ou cúmplices das operações de extermínio.  E que, além disso, a responsabilidade intelectual também atinge pessoas que já tinham morrido antes do nascimento de Hitler ou que viviam a milhares de quilômetros dos lugares em que foram cometidas as atrocidades.

O autor recorda que Hitler teve apoio determinante de grandes companhias americanas, entre elas Ford, General Motors, IBM, Standard Oil, Chase, Kodak e até Coca-Cola, que inventou a Fanta para o mercado alemão quando se viu impossibilitada de vender o seu refrigerante no país. Sem falar em intelectuais de vários territórios do Ocidente, entre eles, o próprio Henry Ford, que lançou em 1920 o livro “O judeu internacional – O problema predominante do mundo” e outros predecessores como o americano Madison Grant, um dos fundadores do eugenismo e da supremacia racial científica, e o primo de Darwin, o britânico Francis Galton, que foi criador do conceito de eugenismo moderno.

Jean-Louis Vullierme formou-se na École Normale Supérieure. Professor de Filosofia, doutor em Direito e também em Ciências Políticas, participou da introdução das abordagens cognitivas em Ciências Sociais e lecionou nas universidades Paris I e Paris II.

Trechos:

“Uns querem isentar o comunismo; outros, a sociedade liberal, tentando naturalmente cada  país, a começar pela Alemanha, obter circunstâncias atenuantes. Ora, o nazismo resulta de uma hibridação final das diferentes linhagens ideológicas. Justamente ele, que cultuava a pureza das origens, é o sistema cujas fontes são mais misturadas. Os múltiplos cruzamentos de que é produto, em vez de neutralizarem as características transmitidas, se manifestaram com extraordinária sinergia. Desse modo, o monstro traz em si a quintessência, senão da cultura ocidental, pelo menos de sua parte dominante. […] Não milito pela eliminação do nazismo, que de fato morreu em 1945, mas pela identificação presente e a erradicação futura do que o causou.”

“Julguei necessário olhar o Ocidente bem de frente. Ele gerou nazismo, liberalismo, comunismo, fascismo e também humanismo. Ninguém pode considerar-se autônomo em relação a ele. O câncer exterminador de que foi cometido, que assumiu diversas formas de metástase, quase o levou, durante as guerras mundiais e a guerra fria, e infectou o restante do mundo, certamente não é irreversível. Mas é uma realidade. Ora, as amputações classicamente propostas são por demais parciais para que se possa esperar uma cura. […] Questionar a si mesmo, e não aos outros, tem a vantagem de atenuar por contágio o Antagonismo.”