“Serra, Serrinha, Serrano: O império do samba”, de Rachel Valença e Suetônio Valença

10/02/2017 3752 visualizações

Por Pedro Paulo Malta

No momento em que a música brasileira comemora o centenário de lançamento do primeiro samba de sucesso, “Pelo telefone”, o presente vem em forma de livro: a segunda edição – revista e ampliada – de “Serra, Serrinha, Serrano: o Império do samba”, obra de Rachel Valença e Suetônio Valença que refaz a história de uma das escolas de samba mais tradicionais do carnaval carioca: o Império Serrano. O lançamento, pela editora Record, atualiza em 36 anos a primeira edição do livro, publicada em 1981 e esgotada pouco depois, transformando-se numa raridade disputada a peso de ouro em sebos de todo o país.

Desde então, Rachel Valença seguiu acompanhando de perto a escola de seu coração, participando dos carnavais, anotando fatos relevantes e guardando heranças que recebia das famílias de antigos imperianos. Tocou na bateria, foi diretora cultural e vice-presidente em dois mandatos – após o mais recente (entre 2006 e 2010), sentiu-se pronta para se dedicar à nova edição do livro. Já sem a parceria de Suetônio (falecido em 2006), desengavetou seus alfarrábios, vasculhou arquivos de jornais e fez novas entrevistas para complementar as histórias já contadas e acrescentar novos fatos – como o histórico e profético enredo “Bum bum paticumbum prugurundum”, que valeu à escola alviverde seu título mais recente, em 1982, um ano após a primeira edição do livro.

E assim, nas 433 páginas da nova edição – mais do que o triplo em comparação às 129 originais – estão os “episódios relicários” dessa história: a começar pelo levante de sambistas do Morro da Serrinha (na Zona Norte do Rio) contra o autoritarismo do presidente da escola local, o Prazer da Serrinha. O resultado do levante é o próprio Império Serrano – fundado por aqueles dissidentes, em 23 de março de 1947. Uma história iniciada, à luz da democracia, na casa de D. Eulália do Nascimento, que aliás é personagem fundamental no livro de Rachel e Suetônio, com sua língua afiada, especialmente quando o tema é a principal rival do Império, a Portela, escola do bairro vizinho de Oswaldo Cruz.

A história também é contada através da atuação decisiva de outros personagens, como o pai-de-santo Elói Antero Dias, responsável por providenciar os instrumentos da primeira bateria da escola. E como o evangélico Silas de Oliveira, que terá que romper com os próprios pais para se tornar o maior nome da história do samba-enredo, como compositor dos antológicos “Aquarela brasileira” e “Heróis da liberdade”, este último em parceria com Manoel Ferreira e Mano Décio da Viola. E o que dizer da enfermeira Ivone Lara, que aproveitou o descanso no expediente do Hospital Gustavo Riedel para se tornar a primeira mulher a assinar um samba-enredo: “Os cinco bailes da história do Rio”, em parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau.

Entre os destaques da nova edição estão os boxes criados por Rachel Valença para contar, em primeira pessoa, suas inúmeras histórias no dia-a-dia do Império e os bastidores da pesquisa para o livro. Há também os perfis de personagens mais recentes desses 70 anos de história: sejam notáveis como os compositores Wilson das Neves e Arlindo Cruz, sejam ritmistas, casais de mestre-sala e porta-bandeira, baianas, serventes, passistas, vendedores de rua, destaques, torcedores, presidentes… Todos componentes fundamentais desta escola que, se nos tempos atuais não samba à vontade no carnaval das “Super Escolas de Samba S/A”, se orgulha como nenhuma outra agremiação de sua própria história.

Uma história que se aprofunda neste livro, que, como bem define o historiador Luiz Antonio Simas (no Prefácio à segunda edição), é “o melhor e mais completo trabalho sobre a trajetória de uma escola de samba no Brasil”.

 Entrevista com a autora Rachel Valença

Como foi reencontrar o livro de 1981 como uma obra em aberto, a ser atualizada? Imagino que você já tivesse em mente todos os pontos a aprimorar ou refazer…

Há muito tempo, desde que a primeira edição se esgotou, tenho o plano de atualizar. Por uma série de razões, o projeto foi sendo adiado, mas eu ia juntando material e criando condições para realizar a tarefa. A primeira edição abrange 33 carnavais: da fundação da escola até 1981. Esta segunda edição aborda os 36 carnavais que vieram depois e tem ainda a missão de atualizar e complementar o que já estava escrito. Porque de 1981 para cá muita coisa se publicou sobre o Império e sobre as escolas de samba em geral e as ferramentas de pesquisa se ampliaram.

Fazer pesquisa hoje em dia é uma tarefa que conta com facilitadores como o Google (mesmo que ele muitas vezes leve a informações erradas), mas antes não era assim. Qual a principal contribuição que as novas ferramentas trouxeram para “Serra, Serrinha, Serrano”?

Sem dúvida foi o acesso pela internet a jornais e revistas. Para a primeira edição gastei muito tempo na seção de periódicos da Biblioteca Nacional, lendo jornais das décadas anteriores que nem digitalizados eram. Copiava à mão, num caderno que guardo até hoje, os trechos que interessavam. Às vezes era permitido fazer cópia xerox, se o jornal estivesse em bom estado. Fiquei tão traumatizada que passei, desde então, a fazer clipping de noticiário sobre o Império Serrano e sobre carnaval em geral, para ter ao meu alcance o material de que iria precisar.

Mas na pesquisa para esta edição, com ajuda de ferramentas de acesso on-line a arquivos de jornais, pude preencher lacunas referentes aos primeiros anos da escola e até sobre o Prazer da Serrinha. Descobri, por exemplo, que seu Molequinho, aos 15 anos, ganhou um festival de sambas da escola de seu Alfredo Costa. Além da espetacular capacidade de liderança, que o fez fundar o Império anos depois, tinha desde cedo a veia de compositor.

Um dos charmes desta segunda edição são os boxes em que você faz uma espécie de making of do livro, com a autora dando vez à contadora de causos. Teve algum desses causos que te deixou particularmente emocionada?

A dificuldade de separar fatos e emoções já existiu na primeira edição. Quando nela narramos a vitória de 1972, não é um relato objetivo: estávamos lá, vivemos aquele momento espetacular, era impossível descrevê-lo sem emoção. Só que no período compreendido na segunda edição minha participação na escola se tornou muito mais intensa. Já não era só uma componente. Vivi com intensidade o cotidiano da escola e se tornava difícil separar minhas experiências pessoais da objetividade dos fatos. Poderia simplesmente deixar de lado essas memórias pessoais, mas cheguei à conclusão que elas são uma outra forma de contar como é de fato a escola, como é seu funcionamento, como são as pessoas. O leitor pode saber que Mano Décio, por exemplo, além dos lindos sambas que compôs, era aquele gentleman capaz de começar a gravação de nossa entrevista para o livro com aquela frase maravilhosa em que chama o apartamento acanhado de “mansão” e a pesquisadora de “encantada dama”… Ao escrever o livro, fui botando essas histórias em boxes para separá-las da narrativa objetiva e depois pensar o que fazer. Acabaram ficando assim mesmo.

Dos casos contados, o que mais me emociona é do carnaval de 1980. O Império lutava com dificuldade para pôr o carnaval na rua. Alfredinho e eu éramos responsáveis pela ala das crianças, a Ala Baleiro Bala. Foi muito esforço para conseguir vestir as 50 crianças. A fantasia era de saci e tinha, no figurino, um pequeno adereço de mão, um cachimbinho verde, que a criançada adorou. Mas não houve dinheiro para ele e na hora da entrega da roupa todos perguntavam pelo cachimbo. A decepção era visível e eu ia ficando muito triste. No dia seguinte, na concentração, um garoto chegou com os pais, que carregavam grandes caixas de papelão. Puseram no chão e começaram a distribuir os cachimbos de barro pintadinhos de verde. A esposa esclareceu que o marido passara a noite moldando e pintando os cachimbos porque vira a tristeza dos pequenos. Costumo dizer que este foi o momento em que eu entendi toda a grandeza do Império Serrano: aquele pai anônimo, com seu pequeno gesto espontâneo, mostrava de forma nítida o que era somar esforços desinteressadamente para que as coisas corressem bem. Até hoje me emociono quando falo desse momento. E ao longo dos anos, quando pessoas vêm exigir camisas, ingressos, convites para festas, troféus, honrarias, alegando o que fizeram pela escola, penso bem aqui dentro: este não é um verdadeiro imperiano, como era o escultor de cachimbos de 1980…

Além dos 70 anos de história do Império Serrano e, como pano de fundo, a história das escolas de samba nesse período, o livro nos faz acompanhar sua própria história, primeiro como imperiana, depois como pesquisadora/escritora e, por fim, como dirigente da escola e integrante da Velha Guarda. Fale um pouco da origem dessa paixão…

 É difícil falar disso. Não sou mística, por isso a explicação que tenho não combina comigo e parece falsa. Mas sabe a sensação que se tem ao entrar pela primeira vez num lugar e se sentir em casa? Assim foi com a quadra do Império quando cheguei lá em 1971, nos preparativos para o carnaval de 1972. A quadra era descoberta e o chão era de terra ainda. Eu não era de samba, morava na Zona Sul, bem longe dali, mas ao entrar me senti em casa. Estranhamente, pensei: Eu sou daqui. Isso não se explica à luz da razão. Ou talvez a explicação seja exatamente essa: há excesso de razão na minha vida, era preciso fugir de toda lógica para me sentir bem, muito bem. Estou na escola há 45 anos e tive muitas ocupações e atribuições: saí em ala por muitos anos, depois por 13 anos fui responsável, junto com Alfredinho, pela Ala das Crianças. Dali fui para a bateria, onde saí por 11 anos, submetendo-me ao rigor dos ensaios e da dura disciplina. Depois fui vice-presidente por dois mandatos e ingressei na Velha Guarda, lugar apropriado para a minha geração. Em todos esses momentos a pesquisadora estava presente, ela tem na cabeça um bloquinho de anotações e acumula fatos, frases ouvidas, prospectos de samba e gravações, se interessa por tudo que diz respeito à escola. Nem depois de terminar a segunda edição essa pesquisadora que mora dentro da sambista quer se aposentar…

Costumo dizer que o Império Serrano mudou o rumo da minha vida, deu a ela um sentido muito maior. Conviver com pessoas com trajetórias tão diferentes da minha e da das pessoas que me cercam foi maravilhoso. Vivenciar a democracia e seus efeitos foi fundamental para entender o mundo. E a cultura que ali encontrei é de uma riqueza impressionante: a música, a dança, a indumentária, a culinária, o respeito aos mais velhos e às tradições, a religiosidade, a forma de transmissão de saber, tudo me agrada. E uma quase ausência de hipocrisia nas relações pessoais, muito bacana. As coisas que devem ser ditas são ditas e depois se compartilha a cerveja…

Entre as singularidades históricas do Império Serrano estão conceitos que volta e meia são relativizados no mundo atual das escolas de samba, como o respeito pela democracia e a valorização dos elementos culturais de matriz africana. Bandeiras inquestionáveis, mas que talvez façam com que a escola fique deslocada no contexto atual, concorda?

De fato, esses são valores essenciais para a escola. Sem eles, não dá para imaginar o Império Serrano. Fico estarrecida quando alguém que diz amar a escola prega abertamente a ameaça a esses valores. No Império, são as pessoas que contam. E até os “golpistas”, que burlam as regras democráticas, precisam de legitimidade para se sustentar. Se não a tiverem, não se mantêm. Já vi acontecer muitas vezes. Nossa escola é uma celebração religiosa de matriz africana. Não há como negar nem disfarçar. Não há por que negar. Somos o Menino de 47, de Molequinho, de Elói Antero Dias, de Vovó Maria Joana Rezadeira, de gente negra, gente de ação e de fé, decidida e competente, que o transformou no Reizinho de Madureira. Não me espanta que o contexto atual das escolas de samba do Rio de Janeiro não abrigue uma escola com essas características. Quer saber? Não aprecio muito esse contexto, sou bastante crítica em relação a ele. Já no Império continuo sendo feliz. Lá ouço lindos sambas, e não apenas os antigos. Lá tenho uma bateria que me leva às lágrimas. Lá tenho Soninha Bumbum e suas filhas, passistas inigualáveis. Já tenho Iracema, destaque dos velhos tempos, e suas filhas, que levam a elegância a sério. Lá tenho Jamelão, que aos 70 anos faz passos de mestre-sala com desembaraço inacreditável, e tenho a querida Raphaela, que conheci aos onze anos e hoje é responsável pela apresentação de nosso pavilhão. Lá as baianas são alegres e numerosas, imbuídas de sua obrigação quase religiosa. Não me espanta que não haja espaço para o Império num contexto que pouco tem a ver com esses valores.

Como você imagina o Império Serrano daqui a 70 anos, no carnaval do longínquo 2087?

 Eu o imagino exatamente como é hoje: a maior e mais importante escola de samba do universo.