Terreiro de São Sebastião, por Luiz Antonio Simas

17/01/2020 318 visualizações

Neste dia 20 de janeiro celebra-se o padroeiro do Rio de Janeiro. São Sebastião se tornou, com o passar dos anos, símbolo do sincretismo religioso e de respeito à diversidade. É figura presente na obra de alguns de nossos autores mais cariocas como José Beniste, Alberto Mussa, Nei Lopes, Luiz Antonio Simas e tantos outros. Para homenagear a cidade onde o Grupo Editorial Record foi fundado, transcrevemos a crônica Terreiro de São Sebastião, do livro O corpo encantado das ruas, de Luiz Antonio Simas, que tem como epígrafe um ponto de caboclo.

“Naquela estrada de areia
Aonde a lua clareou
Todos caboclos pararam
Para ver a procissão
De São Sebastião.”
– Ponto de caboclo

“As ruas desprezam este tipo de efeméride, mas para os gabinetes oficiais a cidade do Rio de Janeiro comemora aniversário no dia 1o de março. Foi para combater os tupinambás, reunidos na Confederação dos Tamoios, e, conforme os desejos franceses, estabelecer uma colônia no território que Estácio de Sá, sobrinho do governador-geral, criou um arraial no sopé do Pão de Açúcar, em 1565. O episódio é consagrado pela historiografia oficial, cheia de pompas e salamaleques, para comemorar a cidade.

A fundação, em certo sentido, escancara alguns dilemas que marcam os cariocas até hoje: bravos canoeiros, guerreiros entrincheirados nas paliçadas de Uruçumirim (o atual Morro da Glória), os índios resistiram, infernizaram a vida dos colonizadores, foram escravizados, combateram até o fim de suas forças e acabaram relegados ao subterrâneo da história. Quem ficou bem na fita foi Arariboia, o chefe temiminó que se converteu ao catolicismo, aderiu aos portugueses, virou cavaleiro da Ordem de Cristo e recebeu, por ter lutado ao lado dos europeus contra os tamoios, a sesmaria do morro de São Lourenço, origem da cidade de Niterói. No enigma da volta do mundo, são os tupinambás derrotados que descem nas umbandas cariocas para saravar a nossa banda.

Ao drama da caça aos tupinambás, marco fundador do Rio de Janeiro, podemos acrescentar o horror da escuridão dos tumbeiros e mais de trezentos anos de chibata. Estudos recentes indicam que, entre os séculos xvi e xix, uma em cada cinco pessoas escravizadas no mundo colocou os pés no chão da Guanabara. O vento carioca, que traz em suas asas o brado lancinante dos tamoios, sopra também os zumbidos dos chicotes nas costas lanhadas do povo do Congo e a melancolia de muitos fados.

Eu poderia colocar pimenta no vatapá do mito do carioquismo, louvando o carioca maneiro e descolado, de bem com a vida, sorriso no rosto, Havaianas nos pés e pele curtida de sol. Mas acho que os tempos são propícios também para outras matutações.

É neste sentido que percebo, mirando as cidades que formam a grande cidade, que uma pista para se pensar o Rio é atentar para a relação, aparentemente paradoxal, entre as elites cariocas, o poder público e os pobres da cidade. Em certo momento crucial para o Rio, aquele da transição entre o trabalho escravo e o trabalho livre e entre a Monarquia e a República, a cidade encarou os pobres como elementos das “classes perigosas” (a expressão foi largamente utilizada em documentos oficiais do período) que maculavam, do ponto de vista da ocupação e reordenação do espaço urbano, o sonho da cidade moderna e cosmopolita.

Ao mesmo tempo, era dessas “classes perigosas” que saíam os trabalhadores urbanos que sustentavam – ao realizar o trabalho braçal que as elites não cogitavam fazer – a viabilidade desse mesmo sonho: operários, empregadas domésticas, seguranças, porteiros, soldados, policiais, feirantes, jornaleiros, mecânicos, coveiros, floristas, caçadores de ratos. Pouca coisa mudou nesse embate disfarçado de cordialidade desde então.

Coloquemos ainda, nesse caldeirão carioca, aqueles que, sobrevivendo, ousaram inventar a vida na fresta, dando o nó no rabo da cascavel e produzindo cultura onde só deveria existir o esforço braçal e a morte silenciosa: capoeiristas, malandros, sambistas, chorões, vendedoras de comida de rua, mães de santo, devotos da Senhora da Penha, centenas de Zés devotos de seu Zé Pelintra, minhotos pobres, alentejanos atrás dos balcões de botequins vagabundos, polacas, marujos, jongueiras, funkeiros, festeiras e quizumbeiros de todos os matizes e lugares.

Para muitos é difícil admitir isso, mas os inventores do que há de mais forte na cidade do Rio de Janeiro não discutiram filosofia nas academias e universidades, não escreveram tratados, não pintaram os quadros do Renascimento, não foram convidados a frequentar bibliotecas, não compuseram sinfonias, não conduziram exércitos em grandes guerras, não redigiram as leis, não fundaram empresas e só frequentaram os salões empedernidos para servir às sinhás.

Os nossos grandes inventores rufaram tambores, chamaram Zambiapungo e Olorum, riscaram o asfalto preenchendo de dança o intervalo entre as marcações do surdo, despacharam as encruzas, subiram o São Carlos e as escadarias da Penha, bradaram revividos em seus santos-cavalos nas matas e cachoeiras, celebraram os mortos na palma da mão.

A cidade, aldeia de flor e faca, pernada e afago, gemido de amor e som de tiro, chibata e baqueta de surdo, incomoda. Desconfio sinceramente dos que acham que ela precisa ser consertada. O Rio de Janeiro precisa de um concerto. Uma letra e está feita a diferença: que a beleza dos nossos instrumentos, em suas múltiplas percepções da vida, possa soar como inclusiva harmonia da gente carioca em sua arte de fazer insistentemente a vida. No chão de aldeia tupinambá virada em cais do Valongo, a morte, convidada de honra que deveria campear soberana na nossa história, insiste, mas morre – sim, a morte morre – na rua”.