“Todo dia”, de David Levithan

26/09/2015 10 visualizações

Por Helena Mayrink

David Levithan_author photo_no creditEm Todo dia, David Levithan conta a história de um protagonista extraordinário. “A” não tem gênero nem sexualidade definidos: a cada manhã, ele acorda como alguém diferente, ao menos em seu exterior. Como uma Cinderela à mercê da meia-noite, precisa se adaptar a um novo corpo, uma nova personalidade e novos relacionamentos. Em vidas de horas contadas, não se permite realmente se apaixonar por ninguém – até conhecer Rhiannon, que desafia qualquer prazo de validade. Para que o amor improvável persista, a garota precisa aprender a se relacionar intimamente com uma pessoa diferente todos os dias, enquanto “A” tem de descobrir se interferir profundamente na vida de alguém vale a pena para ficar com quem se ama.

Embora tão diferente, é com esse personagem extremamente humano que o leitor compartilha ansiedades e frustrações, e se constrói uma identificação fácil e sincera. Levithan, que já colaborou com autores como Rachel Cohn – em Nick & Norah – Uma noite de amor e música, que ganhou filme em 2008, e Naomi & Ely e a lista do não beijo – e John Green – em Will & Will – Um nome, um destino, primeiro livro jovem adulto com personagens gays a entrar na lista do mais vendidos do New York Times – é também editor de livros Young Adult (YA) na Scholastic, em Nova York. Com um texto literário e criativo, recheado de referências culturais, Levithan apresenta aos jovens leitores, em Todo dia, uma nova visão sobre diversidade.

A descrição detalhada e intensa da obra lhe dá ares de roteiro cinematográfico. Adicionada ao conflito que permeia o enredo principal e um constante desejo de que a história impossível se torne mais possível, cria-se a fórmula daquele que foi escolhido pelo School Library Journal, pela Kirkus Reviews e pelo Booklist o Melhor Livro de 2012.

Leia trechos do livro:

“Sou um andarilho e, por mais solitário que isso possa ser, também é uma tremenda libertação. Nunca vou me definir sob os mesmos critérios das outras pessoas. Nunca vou sentir a pressão dos amigos ou o fardo das expectativas dos pais. Posso considerar todo mundo parte de um todo, e me concentrar no todo, não nas partes. Aprendi a observar muito melhor do que a maioria das pessoas faz. O passado não me ofusca, nem o futuro me motiva. Concentro-me no presente, porque é nele que estou destinado a viver.”

“Pessoas normais não têm que decidir o que deve ser lembrado. Vocês recebem uma hierarquia, personagens recorrentes, a ajuda da repetição, da expectativa, a base firme de uma longa história. Mas eu preciso decidir a importância de todas as lembranças. Só me lembro de umas poucas pessoas e, para isso, preciso me manter firme, porque a única repetição disponível (o único meio que tenho de vê-las novamente) é se eu recordá-las na minha mente. Escolho o que devo lembrar, e estou escolhendo Rhiannon. Repetidas vezes, eu a escolho, eu me recordo dela, porque deixá-la ir por um instante permitirá que ela desapareça.”

“É muito difícil ter uma noção verdadeira do que é a vida quando se está num único corpo. Você fica tão preso a quem você é. Mas quando quem você muda todos os dias, você fica mais próximo da universalidade. Mesmo dos detalhes mais triviais. Você percebe que as cerejas têm gosto diferente para pessoas diferentes. Que o azul parece diferente. Você vê todos os estranhos rituais que os garotos têm para demonstrar afeição sem admitir. Você aprende que, se um dos pais lê para você no fim do dia, é sinal de que é um bom pai, porque já viu muitos outros pais que não têm tempo para isso. Você aprende o verdadeiro valor de um dia, porque todos os dias são diferentes.”

“Existem poucas coisas mais difíceis do que nascer no corpo errado. Tive que lidar com isso muitas vezes enquanto estava crescendo, mas apenas por um dia. Antes de me tornar tão adaptável – tão tolerante com o modo como minha vida funcionava – eu resistia a algumas das transições. Adorava ter cabelo comprido, e ficava chateado ao acordar e descobrir que tinha sumido. Havia dias em que me sentia como uma garota e dias em que me sentia como um garoto, e esses dias nem sempre correspondiam ao corpo no qual eu estava. Ainda acreditava em todo mundo quando diziam que eu tinha que ser uma coisa ou outra. Ninguém estava me contando uma história diferente, e eu era jovem demais para pensar por mim mesmo. Ainda tina que aprender que, no que se referia ao gênero, eu era e não era as duas coisas.”

“Se você olhar para o centro do universo, existe frieza lá. Um vazio. No final das contas, o universo não se importa conosco. O tempo não se importa conosco. É por este motivo que temos que cuidar um do outro.”