Uma estreia literária consagradora

31/10/2015 6 visualizações

Por Marcelo Vieira

 

Agachado no esconderijo que achou para si, um garoto fugitivo escuta os gritos dos homens que o perseguem. Quando não o encontram, o que lhe resta é uma planície infinita e árida, a qual deve atravessar se quiser ficar longe de uma vez por todas do que provocou sua fuga. Certa noite, seu caminho cruza com o de um pastor de cabras idoso, e, a partir desse momento, tudo mudará na vida dos dois.

Intempérie narra a fuga de uma criança através de um país devastado pela seca e regido pela violência. Um mundo isolado, onde não há nomes ou datas, no qual a moralidade escapou pelo mesmo ralo por onde a água escoou. É nesse cenário que o garoto, ainda não totalmente entregue, terá a oportunidade de se iniciar nos dolorosos rudimentos da consciência, ou, pelo contrário, exercer para sempre a violência da qual já provou.

Através desses arquétipos — como o garoto, o pastor de cabras e o aguazil —, Jesús Carrasco constrói uma narrativa dura, mas salpicada com momentos de intenso lirismo. Um romance esculpido palavra por palavra, no qual a presença de uma natureza implacável tece e se confunde com a história, em que a dignidade do ser humano emerge com força incomum de fissuras secas sobre a terra.

A partir de um mote simples, o autor elabora uma prosa riquíssima, de ritmo hipnótico, em que forma e conteúdo se mesclam, e a beleza das palavras sobressai conforme descobrimos o destino de personagens tão genéricos quanto fascinantes. Uma estreia vitoriosa e premiada. Em 2013, Intempérie foi eleito como livro do ano pelos jornais El País, El Mundo e La Vanguardia, entre outros diários espanhóis. Também foi aclamado por leitores, associações e sindicatos de livreiros.

“A estreia de Jesús Carrasco tem a forma e o pano de fundo das grandes histórias. As fissuras da terra que lhe servem de cenário contrastam com seu relato pleno, perfeito.” — El País, Espanha

“Cru, emocionante, poético. Intempérie é tão perfeito que Carrasco quase não pode chamar a si mesmo de estreante.” — Het Parool, Holanda

“Um drama fascinante e atemporal sobre um jovem que luta para sobreviver em um mundo onde a natureza é tão impiedosa quanto os seres humanos.” — Dietmar Adam, Lektoratsdienste, Alemanha

“Um verdadeiro paraíso em um momento de vulgaridade literária.” — Roberta Maresci, Il tempo, Itália

“Em Carrasco, a literatura espanhola descobre uma nova voz, profunda e áspera, mas também clara e vívida.” — Alain Favarguer, La Liberté, França

Confira trechos da obra:

Quando despertou, o sol estava lá no alto. A dura luz zenital atravessava o telhadinho de galhos e iluminava seus joelhos como agulhas nas quais a poeira flutuasse. Assim que abriu os olhos, sentiu que seus músculos estavam intumescidos e pensou que fora precisamente seu corpo que pusera fim ao seu sono. Calculou que devia estar há sete ou oito horas enfiado ali e decidiu que tinha de sair o quanto antes. Muito lentamente, levantou a cabeça e tocou a tampa com os cabelos. O pescoço como uma dobradiça enferrujada. Endireitou-se em um ritmo artrítico, afastou algumas varas, olhou ao redor e confirmou que não havia ninguém. Poderia sair e seguir rumo ao norte, onde sabia que havia uma fonte na qual os tropeiros davam de beber a suas mulas. Talvez pudesse se esconder no meio dos juncos, aproveitar um momento de descuido, penetrar na carreta de algum comerciante e, entre frigideiras e calcinhas, reaparecer a muitos quilômetros da aldeia. Sabia, no entanto, que chegar à fonte significaria caminhar em campo aberto a plena luz do dia, tendo como único refúgio algum monte isolado de pedras. Na planície, qualquer pastor ou caçador reconheceria sua figura desmazelada e saberia que era o garoto perdido. Não lhe restava, portanto, outra opção; seria obrigado a continuar escondido até que a tarde caísse, quando seus contornos de arame poderiam passar por um arbusto seco ou uma silhueta obscura contra o sol laranja que se punha.”
(Págs. 11 – 12)

 

O garoto molhou os pedaços em seu leite morno tal e qual vira o pastor fazer. Tinha dificuldade de mastigar e engolir, mas, naquelas circunstâncias, a fome venceu a dor, como sempre acontece. Enquanto raspava a tigela, pensou que era a primeira vez que tomava alguma coisa quente desde que saíra de sua casa duas noites atrás e que também era a primeira vez na vida que comia na companhia de um desconhecido. Ali, com a tigela nas mãos, deu-se conta de que não havia previsto contingências tão básicas como a falta de alimentos ou as verdadeiras condições de vida impostas por uma planície como aquela. Tampouco fazia parte de seus cálculos a ideia de ter de pedir ajuda a alguém e, muito menos, tão cedo. Na verdade, não havia preparado a sua partida. Simplesmente, um dia, uma gota d’água fizera o copo transbordar. A partir desse momento, brotara nele a ideia da fuga como uma ilusão necessária para suportar o inferno silencioso em que vivia. Uma ideia que começou a se formar em sua mente quando seu cérebro ficou pronto para abrigá-la e que não o abandonou mais.”
(Pág. 42)