Por Juliana Krapp
Mais de cinco séculos depois, Pedro Álvares Cabral enfim abre o jogo: sim, houve muito vinho durante a viagem na qual descobriu o Brasil. Tiradentes confessa que sempre gostou muito de sexo. Dona Beja espanta a vaidade e assume que nunca chegou nem aos pés da Maitê Proença. E, a despeito do fim trágico, Bispo Sardinha surpreende, revelando um imbatível bom humor — que alimenta com muita erva no charuto.
Em Uns Brasileiros, Mario Prata entrevista 22 personalidades marcantes na História do Brasil — todas já mortas. O que não o impediu de encontrá-las em botequins ou demais lugares aprazíveis, acompanhado de tulipas de chope e tira-gostos, para conversas tão saborosas quanto reveladoras. Ajuda a reparar, com isso, uma lacuna no cenário nacional: “a porralouquice sumiu da imprensa brasileira”, aponta.
Mario Prata é escritor, dramaturgo, jornalista e cronista. Em mais de 50 anos de escrita, publicou 3 mil crônicas e cerca de 80 títulos, entre romances, livros de contos, roteiros e peças teatrais. Já recebeu 18 prêmios nacionais e estrangeiros, com obras reconhecidas no cinema, literatura, teatro e televisão.
Este novo livro apresenta um rol bastante eclético de personalidades: de Bispo Sardinha a Charles Miller, de Pedro Álvares Cabral a Dona Beja. Como foi a seleção dos entrevistados?
A princípio não era para ser livro. Eu comecei a fazer as entrevistas para a revista mensal Brasileiros, de São Paulo. Fazia uma por mês, mas não na ordem que temos agora — nem lembro mais qual foi a primeira. Tudo começou em 2003, segundo o diretor da revista, o Helio Campos Neto que, aliás, escreveu a orelha do livro. Quando já tinha umas oito publicadas a Guiomar de Grammont, que era editora da Record, soube e me convidou [para compilar os textos numa publicação]. Aí comecei a fazer três, quatro por mês, mas sem nenhuma ordem, nem cronológica, nem sexual, nem de importância. Sentia que fulano podia dar uma boa entrevista e ia atrás. Quando coloquei as 22 em ordem cronológica, como está no livro, percebi que havia feito, sem querer, um quase estudo da formação racial do povo brasileiro, sem nenhuma pretensão. O português, o índio e o negro. Quando cheguei no Carlos Gomes, vi o brasileiro total: neto de negro, branco, índio, mameluco, cafuzo: uma síntese total. Aí entrevistei o Charles Miller, branco puríssimo, filho de inglês com escocesa, europeu total, nascido no Brás, em São Paulo. O Brasil estava começando o século XX, que foi quando os europeus e asiáticos começaram a chegar. Mas tudo isso foi sem querer.
As conversas evidentemente são fictícias, porém respaldadas em ampla pesquisa histórica. O quanto você diria que há de invenção e o quanto há de verdade nesses perfis?
É tudo verdade. A parte histórica. Claro que é ficção eu ter fumado maconha com a dona Maria I, a Louca. Mas foi irresistível. A Louca, né? Na verdade, ela me ofereceu haxixe, mas quando soube que eu tinha maconha do Maranhão, entrou na minha. Fumamos e tragamos. Gostei da velha. Mas o masturbador oficial do d. João VI veio mesmo com ele em 1808. Isto é contado até num livro de um australiano.
Qual foi o entrevistado mais surpreendente?
Foi o Anchieta, que eu achava um babaca, tentando civilizar os índios. Mas foi um cara incrível, inclusive como escritor. Teve gente que chegou a compará-lo a Camões. Fundou São Paulo com 20 anos, depois lutou na Guanabara contra os franceses. Como ele mesmo me disse, “era apenas um garoto que, como tu, amava os Beatles e os Rolling Stones”. Ou seja, se o cara vivesse hoje, curtiria os Beatles e não a música sertaneja universitária. Um cara raro, com rabo de cavalo e tudo. Tomamos muito chope lá naquela praia onde ele escrevia o poema da Virgem.
E o mais difícil?
Foi o Aleijadinho. Tão difícil que eu cheguei a ir a Vila Rica (hoje Ouro Preto), mas não tive coragem [de encontra-lo]. Fiz apenas a abertura da entrevista. Foi um grande artista com uma doença maior do que ele, que foi deformando-o a ponto de ele não sair mais de casa. Teve uma vida muito triste. Levei de presente alguns dos livros coloridos, destes de capa dura, sobre ele, e pedi para um pequeno escravo entregar. Podem ver na caricatura dele, feita pelo genial Lézio Jr, que ele está lendo um dos livros. Outro difícil foi o d. Pedro I, mas por outro motivo. Tomamos um porre no Pavilhão Chinez (assim, com z), um bar do Bairro Alto, em Lisboa. Eu, ele e o Chalaça. Mas [a entrevista] acabou ficando muito engraçada. E ele só aceitou conversar depois que eu prometi não falar das suas gonorreias e da dor de barriga na hora do Independência ou Morte. Mas acabamos falando.
Qual deles você gostaria de ter encontrado de verdade, para um papo cara a cara?
Eu encontrei com todos eles, cara a cara. Leia o livro que você vai acreditar piamente.
Todo jornalista — e, suponho, todo ficcionista — tem seus truques e técnicas para extrair o máximo do entrevistado. Quais são os seus?
Eu acho que com a maioria foi o álcool. Acho que bebi com todos. E eu não bebo há alguns anos. Mas ali estava a serviço.
Os textos mesclam dados históricos a informações de cunho íntimo, polêmicas pessoais, aspectos picantes e dados nem sempre discretos sobre a biografia e o comportamento dos perfilados. Qual a sua relação com o gênero entrevista? Para além da ficção, sente falta desse estilo de conversa descontraída, marota e perspicaz que já foi mais frequente na imprensa?
Olha, trabalhei em redação uns vinte anos e sempre fui, modéstia à parte, um bom entrevistador. As entrevistas hoje são muito sérias. Os repórteres, mal-humorados e o chefe de redação, medroso. Enfim, a porralouquice sumiu da imprensa brasileira. Cada entrevista deste livro foi uma farra, para mim e para o entrevistado. Mesmo porque eu não queria sacanear ninguém. Escrevi um livro a favor, ao contrário da imprensa de hoje, que é contra tudo, é do contra. O jornalismo hoje está muito espírito de porco. Se alguma coisa dá certo, a mídia prefere não publicar.
Há quem diga que o humor e a ironia andam escassos na cena nacional. Concorda? Que falta eles fazem?
Para mim o escândalo de Petrobras é humorismo puro. Eu rio com todas as entrevistas e depoimentos dos envolvidos. Eles mentem, mentem, mentem, com uma cara de pau incrível. Isso é humor, é ironia. Se eu for levar a sério, vou lá e mato um deles. São verdadeiros palhaços. Esse pessoal do futebol também. O Marin eu rio só de olhar para a cara de babaca dele. E quando fala, só diz merda. Mas merda de uma qualidade acima de qualquer suspeita. O que anda escasso é a seriedade. O humor e a ironia abundam.
Quem você gostaria de entrevistar, mas ainda não foi possível?
Ah, tem material para mais uns dez livros. Já pensou um livro de entrevistas com todos os presidentes do Brasil? Os mortos, evidentemente.