Vamos falar sobre o fascismo com as crianças?

6/08/2020 523 visualizações

Por: Rafaella Machado*

O fascismo tem sido amplamente debatido na atualidade, especialmente no contexto do ressurgimento mundial de governos autoritários de extrema direita. No entanto, pouco se discute sobre a atratibilidade desse discurso para jovens e outros grupos mais vulneráveis. Mas qual o risco envolvido em não abordar esse assunto com as crianças?

Muitas vezes, essa omissão acontece porque adultos bem-intencionados querem poupar as crianças da maldade humana. É compreensível. Ao mesmo tempo, ao não abordar esse assunto, estamos deixando os jovens mais suscetíveis a reproduzir certos discursos. A juventude tem um papel de enorme importância tanto no combate quanto na adesão a certos preceitos culturais. Jovens estão em fase de formação de caráter e são mais abertos a diferentes visões de mundo. Não é à toa que o Terceiro Reich investiu tanto em programas obrigatórios de recrutamento de crianças, por exemplo.

Mas seria possível recriar um regime como o da Alemanha nazista nos dias atuais? Para provar que sim, um jovem professor americano realizou um experimento com seus alunos adolescentes e o desfecho quase acabou em tragédia.

O caso real aconteceu na Califórnia em 1967 e inspirou um livro infanto-juvenil, chamado A Onda, que já foi adaptado duas vezes para a TV, a mais recente delas para o Netflix. O professor resolveu colocar o experimento em prática depois que um estudante questionou a responsabilidade da população alemã pelo Terceiro Reich. A simulação era para que os estudantes entendessem o contexto que levou a Alemanha a apoiar Hitler. Ele ensinou aos alunos postura, respeito, disciplina e mentalidade de grupo. Inventou um slogan, uma saudação e até uma “polícia” de estudantes para vigiar as ações uns dos outros.

                     

Ao colocar em prática os preceitos totalitários em sala de aula, todos os elementos que compõem um governo fascista se configuraram na escola. Começando pela tentativa de censura ao jornal estudantil, passando pelas ameaças à aluna que editava a publicação e chegando às agressões físicas e verbais contra críticos ao movimento.

O que podemos aprender com o experimento escolar de 1967 e o que ele tem em comum com o Brasil de hoje e com a Alemanha nazista? Em primeiro lugar, ele surge após uma série de derrotas significativas para as comunidades em questão. A escola californiana vinha perdendo competições importantes e não possuía um alto rendimento acadêmico. Estava humilhada perante seus pares.

Guardadas as devidas proporções, tanto o Brasil atual quanto a Alemanha Pós-Primeira Guerra viviam períodos econômicos e socialmente críticos antes de eleger líderes totalitários. Ambos os países vinham de um sentimento de derrota, uma vontade de voltar ao fervor nacionalista do passado. E foi nesse contexto que um líder carismático com discurso intolerante prosperou.

Uma valiosa lição que tiramos de A Onda é o paradoxo da tolerância. A liberdade de expressão é importante em um sistema democrático e devemos estar abertos a crenças diferentes das nossas. No entanto, se uma crença luta pelo extermínio de outras, trata-se de um discurso intolerante e ele deve, sim, ser combatido.

A onda mostra de forma didática e apropriada ao leitor jovem que não importa se estamos falando de um ambiente escolar ou de política internacional, de crianças ou adultos no poder, é preciso ter uma visão crítica para impedir que um líder carismático, com a promessa de excelência, normalize a violência e a intolerância com nossos pares.