“Você tem a vida inteira”, de Lucas Rocha

15/08/2018 199 visualizações

As vidas de três jovens de 20 e poucos anos se entrelaçam em volta de um assunto que ainda parece ser tabu – o vírus HIV – neste romance de estreia de Lucas Rocha. Em “Você tem a vida inteira”, que chega às livrarias em agosto pela Galera, o autor fala de forma sensível e contemporânea sobre amor e amizade na vida de quem é soropositivo.

A trama começa com Ian, que recebe o resultado positivo do teste de HIV. No centro de tratamento onde fez o exame ele conhece Victor, cujo resultado foi negativo. Victor ainda está irado com Henrique, o rapaz com quem está saindo, por ele ter contado que era soropositivo apenas depois que eles transaram – embora tenha se precavido e usado camisinha em todos os momentos.  Já Henrique está gostando de verdade de Victor e, por isso, tomou a decisão de se abrir sobre o HIV. Ele está habituado aos preconceitos; suas experiências anteriores no assunto não foram muito boas, e ele ainda reluta em acreditar que possa amar alguém de novo.

Por meio dessas três perspectivas, Lucas narra os medos, as esperanças e o preconceito sofrido por quem vive com HIV, numa prosa delicada e embalada também por humor, referências pop e personagens secundários cativantes. Aos 26 anos, este bibliotecário natural de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, é mais um que, como muitos de sua geração, teve Harry Potter como base na sua formação literária. Nesta entrevista, ele fala sobre representatividade, a importância da disseminação de informação para minimizar os preconceitos, além de dar mais detalhes sobre seu processo de desenvolvimento dos personagens e a pesquisa para escrever “Você tem a vida inteira”.

 

Apesar de o tratamento ter avançado muito e os portadores do HIV viverem uma vida absolutamente normal e saudável, há ainda muito preconceito e muita desinformação sobre o assunto hoje, especialmente entre os jovens. Você concorda? Qual é a importância de falar sobre o assunto, portanto?

Acredito que a falta de informação atinge todas as faixas etárias em um mesmo nível, não só os jovens. Mas acho importante que eles estejam informados sobre o que é verdade e o que é mito dentro de toda a lógica de controle e transmissão do HIV, e escolhi essa faixa etária porque é a com quem melhor dialogo e com quem acredito ter maior proximidade. Mas a transmissão de HIV também cresce, por exemplo, entre a população da terceira idade, que é um grupo negligenciado por campanhas de prevenção pelo simples fato de se esquecerem que a terceira idade possui vida sexualmente ativa.

A verdade é que ainda existe um estigma social muito grande com os portadores do vírus HIV, principalmente com os homens gays, as pessoas trans e aqueles que trabalham com sexo, um estigma que remonta às décadas de 80 e 90 e ao desconhecimento que as esferas social e de saúde possuíam sobre o que era o vírus HIV e como controlá-lo. Hoje a medicina evoluiu e atingiu um estágio em que o portador vive uma vida saudável com o uso dos antirretrovirais. Falar sobre HIV é importante para que o avanço social atinja o mesmo nível do clínico; que os portadores possam falar naturalmente sobre sua condição sem que isso seja motivo de afastamento de terceiros ou de preconceitos no que diz respeito ao mercado de trabalho e às relações afetivas.

Uma coisa bem bacana da história de “Você tem a vida inteira” é poder enxergá-la pelo olhar de personagens com perspectivas bem diferentes: um menino que acabou de descobrir que tem o vírus, outro que já convive com ele há tempos e um terceiro que não tem o vírus e que se relaciona com os outros de forma ainda um tanto preconceituosa. Qual foi o seu processo para criar esses personagens? Alguma dessas perspectivas foi mais desafiadora pra você?

A ideia inicial do livro seria a de seguir apenas a perspectiva de Ian, personagem que abre o livro. Mas percebi que, para contar a história no espaço de tempo em que eu queria que ela se passasse (um período de cerca de dois meses, fora o epílogo), um personagem não seria o suficiente. Então, quando terminei de escrever o primeiro capítulo, soube que o menino de cabelos azuis que também espera pelo seu resultado no centro de tratamento seria importante; e logo depois pensei: e o rapaz com quem ele se relaciona? Como deve estar se sentindo? Foi mais ou menos assim que Victor e Henrique surgiram e, a partir daí, comecei a elaborar e entrelaçar a vida desses três garotos e de seus amigos.

A perspectiva mais desafiadora, para mim, foi a de Victor. Costumo dizer que ele é o personagem que mais amo e mais odeio, porque a jornada de crescimento dele é a maior dos três personagens: ele é quem carrega uma série de preconceitos e quem tem que aprender a ver o outro com mais empatia; ele é quem está mais distante das minhas convicções pessoais de vida, então tive que me afastar e programar meu cérebro para pensar como ele e não como eu. Isso foi um desafio imenso, mas acredito que o resultado final tenha valido a pena!

Apesar de conter reflexões sobre um tema sério, o livro é também bem divertido e cheio de referências a cultura pop. Foi uma tentativa de retirar esse estigma de tristeza e doença que infelizmente ainda paira quando se fala de HIV?

Sim, definitivamente. Enquanto levantava narrativas que tivessem o HIV como tema central, encontrei pouquíssimas abordagens que não terminassem ou tivessem, ao longo de sua história, algum personagem que morresse em decorrência de complicações com HIV/Aids, principalmente porque a maior parte das narrativas que encontrei se concentrava em retratar a época da epidemia descontrolada dos anos 80 e 90. Apesar de achar fundamental lembrar que praticamente toda uma geração não teve a sorte que temos hoje, eu não queria contar a história sobre o soropositivo que desiste da vida. Estamos em 2018 e essa realidade, sobretudo em narrativas contemporâneas e em um contexto onde o portador possui acesso à medicação, não pode mais ser retratada como a regra. O que quis fazer foi tratar o portador do HIV como uma pessoa com seus medos e suas preocupações, sim, mas também com uma sede de viver que pessoas sem o convívio com o vírus também possuem. Por isso a capa colorida, o título afirmativo e os personagens que transitam entre seus diálogos internos e preocupados com o futuro acerca do vírus e da vida de um modo geral.

A trama tem muita informação prática sobre o assunto: tratamentos, termos médicos, etc. Como foi seu processo de pesquisa para escrever o livro?

Essa foi a parte mais delicada: mais do que querer fazer uma história que fosse feliz, eu queria fazer uma história que não passasse nenhuma informação errônea. Ela foi revisada pelo menos umas cinco vezes e, nas cinco, eu alterava alguma informação que havia sido escrita de forma inadequada!

Para os momentos mais técnicos, contei com o auxílio de dois infectologistas de um centro de tratamento que me explicaram como funciona a mutação do vírus, a medicação no organismo e a importância de não interromper o tratamento nem que seja por um dia. Além disso, mergulhei em artigos científicos sobre o tema e conversei com outros portadores do HIV para ter diferentes perspectivas e fazer com que os personagens que convivem com o vírus não soassem unilaterais.

Me parece que há um equilíbrio meio difícil de atingir quando se fala de HIV hoje em dia porque ao mesmo tempo em que é ótimo esclarecer que a vida dos portadores do vírus pode ser absolutamente normal, ainda é preciso chamar a atenção para a importância da prevenção. Qual é a melhor forma de atingir esse equilíbrio, na sua opinião?

Informação. Acho que não tem nenhum outro artifício que possa ser melhor do que informar ao máximo sobre todos os avanços que a medicina alcançou ao longo dos quase quarenta anos desde que a Aids começou a atingir níveis epidêmicos. Além disso, passar bons exemplos de portadores que convivem com o vírus é essencial para desmistificar a ideia de que o HIV é uma sentença de morte.

Além disso, acho que também é necessário acolher o portador. As campanhas falam muito sobre prevenção – o que é ótimo! –, mas acabam deixando de lado o acolhimento àqueles que descobriram o HIV e não sabem muito bem o que fazer a partir daí. Um dos motivos pelos quais eu quis abrir o livro com um personagem descobrindo, logo no primeiro capítulo, a presença do HIV em seu organismo, foi a de mostrar que a jornada, por mais que possa parecer confusa ou assustadora, também pode ser recheada de coisas boas e momentos felizes.

A questão da representatividade tem sido muito mais discutida nos últimos anos em diversos meios, inclusive o literário. Vê muita diferença em relação aos livros que você lia quando era criança, por exemplo? De que maneira você trouxe esse debate para a trama do “Você tem a vida inteira”?

Sim, acho que a representatividade cresce e está trazendo cada vez mais pluralidade às narrativas, e eu não poderia estar mais feliz por presenciar esse momento. Eu me lembro que o primeiro livro que li na vida tinha um protagonista negro, e a cor da pele dele não trazia nenhuma problemática àqueles que o rodeavam; mas me considero sortudo e uma exceção à regra, porque depois desse livro eu não me lembro de ler nada que não fosse o protagonista masculino, caucasiano, cisgênero e heterossexual.

Ainda temos inúmeras vozes em silêncio na comunidade onde estou inserido – da sigla LGBTQIA+, a maior parte das narrativas que vejo são G, e vou ficar muito feliz quando todas as outras letras também tiverem seu espaço de destaque, principalmente na literatura jovem brasileira –, mas é inegável que o mercado está mais receptivo às histórias plurais. Mas acho que, da minha parte como escritor, escrever sobre pessoas diferentes do padrão não é um ato político idealizado ou uma forma de estabelecer um tipo de afirmação ao mundo; é simplesmente construir personagens que reflitam as pessoas ao meu redor.

Como nasceu a ideia para a trama do “Você tem a vida inteira”?

Eu me lembro que, no comecinho de 2016, eu trabalhava revisando artigos científicos de saúde para uma ONG chamada Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) – ONG essa que, posteriormente, descobri ter sido fundamental no Movimento da Reforma Sanitária que implementou o Sistema Único de Saúde no Brasil – e, em um dia, recebi um artigo que falava sobre a percepção que uma série de entrevistados sem formação possuía sobre o HIV e a Aids. Lendo os relatos dos depoentes, percebi que ainda havia falta de informações fundamentais (como a de camisinha ser importante para evitar não só a gravidez, mas também as DST’s e IST’s, por exemplo), o que me fez questionar se o acesso que eu tinha às informações acerca do HIV/Aids  era o mesmo que o resto da população ao meu redor possuía. O resto é história, e, quando percebi, já estava rabiscando as vidas desses três garotos no papel.

Me conta um pouco sobre a sua trajetória como escritor? Como começou, o que você já escreveu até hoje? Você tem algum autor que te inspire? 

Eu comecei a levar a sério a ideia de escrever quando entrei na faculdade. Antes disso, vivia em grupos de discussão de literatura de fantasia e ficção científica no Orkut, participava de alguns grupos onde uns liam e comentavam os contos dos outros, e lia muitos livros de ficção especulativa, além de clássicos e outros escritores que estivessem disponíveis nos sebos que existiam perto da minha casa (livros eram caríssimos e a biblioteca da minha cidade nunca funcionava!).

O flerte com a literatura jovem veio um pouco tarde. Sou inegavelmente da “Geração Harry Potter”, mas enquanto uma parte dos leitores migrou para as narrativas do gênero Jovem Adulto, eu fiquei na parcela que migrou para a fantasia e a ficção científica. Mas então descobri os livros para jovens dentro desse nicho e, posteriormente, os livros jovens contemporâneos, que hoje são um dos meus pilares de leitura.

Apesar de ser meu primeiro livro publicado, “Você tem a vida inteira” é meu quarto livro finalizado. Gosto de dois desses outros três, e um eu finjo que não existe, mas está engavetado porque a trama é boa, mas o andamento da narrativa é péssimo! Ao longo do tempo, fui aprimorando minha forma de contar histórias, mas sei que nenhum livro é igual ao anterior e os desafios impostos sempre serão diferentes e cada vez maiores. Como sou meu maior crítico, sei que preciso dar o meu melhor antes de outras pessoas opinarem sobre o meu trabalho e o ajudarem a aperfeiçoá-lo ainda mais, porque escrever um livro pode ser um processo solitário, mas editá-lo e reescrevê-lo certamente é um processo coletivo.

Além da J. K. Rowling, outros autores que li à exaustão na minha adolescência foram: Agatha Christie, Stephen King, José Saramago e Gabriel García Márquez. Atualmente leio de tudo um pouco e não posso dizer que exista aquele escritor ou aquela escritora pelo qual sou fissurado, mas os últimos romances que me marcaram profundamente foram “O ódio que você semeia”, da Angie Thomas, e “Dois garotos se beijando”, do David Levithan. Também sou apaixonado pela narrativa do Benjamin Alire Sáenz e do Vitor Martins.