“Vozes guardadas”, de Elisa Lucinda

17/11/2016 386 visualizações

Por Mariana Moreno

Artista multifacetada, Elisa Lucinda é atriz, cantora, jornalista, professora, cantora e poeta.  Há quase quinze anos em cartaz com o monólogo “Pare de falar mal da rotina”, ela encerra o ano com estreia dupla. Além da peça em homenagem à Adélia Prado, que marca a reabertura do teatro Laura Alvim nesta quinta, 17, Elisa lança a coletânea de poemas “Vozes Guardadas” (Record), que reúne sua produção poética dos últimos 11 anos.

 “Vozes guardadas” reúne poesias que você escreveu ao longo dos últimos 11 anos. Por que você decidiu esperar todo esse tempo e como foi administrar a “farra dos inéditos”, que é como você se refere aos textos do livro?

Veja bem, não decidi esperar. Foi acontecendo, não tenho um planejamento para a minha carreira literária, nem sei se se faz isso. Vou vivendo a serviço do que a literatura faz em mim e do que as circunstâncias propõem em meio às demandas naturais. Explico: durante esse tempo fui escrevendo muitos poemas, coisa que faço de forma praticamente cotidiana e livros foram formados desses grupos de poemas. No entanto, se intercalaram a eles A poesia do encontro, livro idealizado e encomendado por Gilberto Dimenstein a partir de uma conversa entre Rubem Alves e eu, mais o Parem de Falar Mal da Rotina, que me exigiu muito para transcrevê-lo do palco para a literatura, uma vez que ele só existia cenicamente; mais a coleção infantil Amigo Oculto que não tem fim e que precisa ser continuada, porque afinal trata-se de uma coleção, e mais o Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada que me deu um trabalhão em pesquisas, viagens a Portugal e a leitura de zentos livros sobre o gênio. Por isso, chamei carinhosamente de farra dos inéditos, porque é como se eu sentisse que eles também queriam sair para ser livro. Os inéditos ficam na casa da gente entupindo a linha de produção, rsrsrs. De modo que, tal qual um parto, há uma hora em que a estação do nascimento torna-se irreversível. Graças a Deus a hora chegou e é essa. Com essas poesias publicadas, a casa está radiante sabendo que está livre para tocar os outros inéditos, entre eles um novo romance. Afinal, me empolguei e o fato de ter sido finalista do Prêmio São Paulo de Literatura na minha estreia no gênero, me incentivou ainda mais a desenvolver a trama que comecei a escrever assim que terminei o Pessoa.

Seu novo livro, na verdade, são dois: “Jardim das cartas” e “O livro do desejo”. Todas as ‘cartas declaradas’ que compõem a primeira parte da obra, como a dedicada ao rapper Emicida, foram apresentadas aos seus destinatários ou algumas delas estavam em sigilo até agora?

Creio que a maioria ou metade estava em sigilo até agora. Mas nenhum deles sabe ainda que estão no livro. Tenho muitos poemas dedicados. Nem todos couberam nesta coletânea de inéditos.

Você nasceu no dia de Iemanjá e água é um tema que recebe atenção especial em seu livro. A natureza, de uma maneira geral, é um refúgio que inspira sua produção artística?

Sem a natureza, que também sou eu, não sei se existiria minha poesia. Ela está na natureza ancorada. Vive e mora em mim uma infância de quintal com direito a esse esparramar entre matos, árvores frutíferas, barro, tanajuras, passarinhos, animais domésticos e outros romantismos ecológicos dos quais nasce minha inspiração. A presença da água no meu livro é marcante mesmo, sou muito vinculada a ela, sou litorânea, nascida no dia de Iemanjá, sempre vivi perto do mar, sou identificada com Oxum, Yemanjá e Yansã, que representam o mar, o rio, e as tempestades.  Além do que, associo a água à vida, à liberdade, à força, quem pode detê-la? Manoel de Barros diz mais ou menos assim: Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito.

Sua poesia é direta e acessível e você é conhecida por promover a popularização do gênero. Falando especificamente sobre este caráter social da arte, como funciona o trabalho da Casa Poema, fundada por você e Geovana Pires em 2010?

Apostamos no ensino da poesia, tanto para o autodesenvolvimento de nossas capacidades e possiblidades de expressão, quanto na construção de uma cidadania, uma vez que o indivíduo desprovido da palavra, de repertório para traduzir-se, para exigir seus direitos, para compreender sua relação com seu mundo, fica mais exposto a opressões, manipulações e outras perversões de dominação que contam com a ignorância para tanto. Além disso, temos o Projeto Versos de Liberdade que leva a poesia tanto para adolescentes que estão em cumprimento de medida socioeducativa, quanto para os meninos das escolas públicas. É preciso que a poesia volte às aulas. Seu conteúdo traz valores humanistas para o coletivo. Os poetas não são bélicos, em geral querem a paz, querem a justiça do mundo, no coração do poeta cabe a humanidade. Por isso, por mais mil motivos, creio que a poesia deva fazer parte da formação de todo o cidadão. Em todas as minhas funções com a sociedade e com o meu trabalho, apostei todas as fichas no poder da palavra, é ela que me empoderou para circular com respeito num país tão racista e a falta desta assassina muitos jovens pretos e muita mulher negra nesse país.

 Você acaba de estrear uma peça sobre Adélia Prado. Qual é a influência da escritora mineira em sua produção poética?

Me agrada na Adélia sua transgressão, sua maestria em parecer apenas uma senhorinha envolta em cozinha, pão de queijo e marido, sendo, no entanto, uma das artistas mais inquietantes da nossa literatura. É corajosa, escancara nosso papel de criatura sem deixar de exalar mistério. Tem um poema dedicado ao cu (objeto de amor) e ninguém comenta, isso não é notícia, ninguém vê. A mineirinha se protege em sua erudição e é uma intelectual de menções incalculáveis. Adoro. Me ensina palavras, grandezas e humildades que poucos filósofos conseguiram. Quero, com esse trabalho, que mais pessoas a leiam e que tornem adeptos, como eu, do seu atávico amor pelo ser humano e pela humanidade incalculáveis.

Há novas vozes guardadas se acumulando? Pretende publicá-las em breve em um novo livro?

 Já tem um bauzinho para um novo que estou provisoriamente chamando de Álbum de fatos. Mas acho que agora a poesia vai esperar um pouco para vir a público. O meu oceano está acalmado. Agora devo publicar a nova edição do Parem de Falar Mal da Rotina, um novo romance, que também pretendo publicar no ano que vem, e ainda dois livros para criança da Coleção Amigo Oculto que já estão prontos para serem editados. Fora as crônicas, o novo livro de contos e mais um outro livro inédito que tenho guardado, o qual tenho ofereço para algumas atrizes amigas para que ele chegue ao palco. Não vou dizer o nome agora.

A estação do momento pede a comemoração desses versos amorosos que compõem o “Vozes Guardadas”. É o meu maior livro em número de páginas superando, inclusive, o Fernando Pessoa. São 381 poemas, se não me engano, e há ali muito alimento, muita nutrição para os meus fãs, os leitores exigentes de minha poesia que já estavam fazendo passeata na minha porta. Pronto, estamos todos medicados, porque também me alimenta cada vez que um verso meu serve à outra alma. Essas vozes são antibélicas num tempo sinistro, triste, sombrio, em que os discursos dominadores pregam a exclusão, a guerra e a continuação malévola da injustiça no mundo. Vozes guardadas são tambores humanistas, afetuosos, ideológicos, eróticos, e de difícil catalogação. É como eu digo no poema desse livro chamado Última moda:

(…)

não caibo nestas caixas

nestas definições

nestas prateleiras.

Quero andar na vida

sendo a vida pra mim

o que é para o índio a natureza.

Assim voo, pedalando solta

na estrada do rio da beleza

nos mares da liberdade alcançada, essa grandeza.

Em tal grandeza meu corpo flutua…

Nos mares doces e nas difíceis águas da vida crua,

minha alegria prossegue, continua.

Despida de armas e de medos

sou mais bonita nua.