“Will & Will, um nome, um destino”, de David Levithan e John Green

7/11/2015 11 visualizações

Por Thaís Britto

Will & Will, um nome, um destino é um título que já chega às mãos do leitor cheio de predicados. Foi o primeiro livro jovem adulto com um protagonista gay a entrar na lista dos mais vendidos do New York Times. Foi também pioneiro em trazer a temática LGBT para os leitores jovens no Brasil. E ainda é assinado por dois dos mais importantes autores de literatura juvenil da atualidade: John Green, de A culpa é das estrelas, e David Levithan, de livros como Todo dia, Dois garotos se beijando e Nick e Nora: uma noite de amor e música.

A boa notícia? Will & Will sobrevive tranquilamente ao hype.

É difícil não se derreter com os dois rapazes chamados Will Grayson que protagonizam a trama. Em comum eles têm um certo sentimento de indiferença em relação ao resto do mundo, uma dificuldade de lidar com a própria personalidade, uma tendência ao isolamento e um humor um tanto sarcástico. Ah, a adolescência! Mas as similaridades param aí.

O Will que começa narrando a história – eles se alternam, sempre em primeira pessoa, um a cada capítulo – é urbano, indie, está prestes a se apaixonar por uma menina e é o melhor amigo de Tiny Cooper, o menino gay mais divertido e espalhafatoso da escola. Já o segundo Will mora num bairro do subúrbio com a mãe, tem uma personalidade bem depressiva e ainda não aprendeu a lidar bem com sua sexualidade. Seu único momento feliz é  quando conversa pela internet com Isaac, o menino por quem está apaixonado. Um dia, Will e Isaac resolvem finalmente se encontrar. E é nesse dia que o caminho dos dois xarás vai se cruzar também.

Temas clássicos do universo adolescente como a descoberta do primeiro amor e a importância da amizade ganham força em Will & Will graças às melhores e mais marcantes características dos dois autores. O texto ao mesmo tempo cheio de doçura e tristeza de Levithan emociona, ao mesmo tempo em que o humor irônico de John Green garante as risadas. E uma coisa é certa: toda escola deveria ter uma Aliança Gay-Hétero.

É impossível falar de Will & Will sem mencionar a participação de Tiny Cooper, um personagem secundário que rouba a cena e, a partir de certo momento da história, ganha destaque de protagonista. Sua honestidade muitas vezes desconcertante é uma das melhores surpresas do livro. O final  emocionante e apoteótico, inclusive, acontece na encenação do musical  escrito, dirigido, produzido e estrelado por  Tiny – que virou Me abrace mais forte, um roteiro de verdade, escrito por Levithan e lançado em outubro pela Galera.

Leia alguns trechos:

“Tiny acha que sou incapaz do que os humanos chamam de emoção porque não choro desde o meu aniversário de 7 anos, quando vi o filme Todos os cães merecem o céu. Suponho que eu devesse saber pelo título que o final não seria feliz, mas, em minha defesa, eu tinha 7 anos. De qualquer forma, desde então não chorei nunca mais. Eu não entendo muito bem qual é o sentido de chorar. Além disso, acho que chorar é quase – assim, exceto em caso de morte de parentes ou coisa parecida – totalmente evitável, se você seguir duas regras muito simples. 1. Não se importar muito com nada. 2. Calar a boca. Todas as coisas ruins que já me aconteceram derivaram no não cumprimento de uma dessas regras.”

 

“toda manhã rezo pra que o ônibus escolar bata, e que todos morramos nos destroços pegando fogo. então minha mãe vai poder processar a empresa que fabrica ônibus escolares por não fazer ônibus escolares com cintos de segurança e conseguir mais dinheiro com minha trágica morte do que eu jamais conseguiria ganhar em minha trágica vida. a menos que os advogados da fábrica de ônibus possam provar para o júri que eu seria um fracasso garantido. então eles se livrariam do processo dando à minha mãe um ford fiesta usado e considerando a questão resolvida.”

 

“- Em que ano acha que estamos, 1832? Quando você gosta de alguém e essa pessoa gosta de você, põe a porra da boca na boca da outra, abre a boca um pouco e então põe só um pedacinho da língua pra fora pra esquentar as coisas. Pelo amor de Deus, Grayson. Todo mundo sempre critica que a juventude da América é devassa, que são maníacos por sexo, distribuindo punhetas como se fossem pirulitos, e você não consegue nem beijar uma garota que decididamente gosta de você?

– Eu não gosto dela, Tiny. Não assim.

– Ela é maravilhosa.

– Como você pode saber?

– Eu sou gay, não cego. O cabelo dela é todo fofo e ela tem o nariz perfeito. Isso, perfeito. E o quê? O que vocês gostam? Peitos? Ela parece ter peitos. Eles parecem ser aproximadamente do tamanho normal de peitos. O que mais você quer?

– Não quero falar disso.”