"A desordem mundial", de Luiz Alberto Moniz Bandeira
21/10/2016
Por Leonardo Valente
A combinação entre rigor histórico, documentação relevante e não raro inédita, e análise conceitual criteriosa sempre foram as marcas dos livros de Luiz Alberto Moniz Bandeira, e “A Desordem Mundial” não foge à regra. Pelo contrário, trata-se de uma das mais importantes contribuições intelectuais atuais para se entender os tempos turbulentos que chacoalham o tabuleiro do poder entre as nações. De maneira didática, mas sem perder a densidade, Moniz Bandeira dá ordem ao caos, com fundamentação relevante para o entendimento sobre um sistema internacional em franco e perigoso processo de desestruturação. Comprova, ainda, que os Estados Unidos não demonstram mais a capacidade de manter a estabilidade internacional, e que sua liderança, apesar de presente, já dá claros sinais de deterioração.
A nova ordem de transição pós hegemonia norte-americana, mas ainda com grande preponderância dos Estados Unidos, é a desordem, pelo menos por enquanto. Em meio a uma Europa cuja unicidade encontra-se ameaçada, a uma Síria assolada por uma das mais cruéis guerras recentes, a um preocupante crescimento das extremas-direitas em todo o mundo, ao terrorismo internacional, e a ex-repúblicas soviéticas convertidas em alvo de perigosa disputa geopolítica entre Washington e Moscou, Moniz Bandeira consegue estabelecer nexos estruturais e relações causais sofisticadas, que ajudam a compreender o mundo para além da visão dominante anglo-saxã, tradicionalmente defensora da hegemonia norte-americana. Também alerta para outro fato, muito mencionado no pós 11 de Setembro, mas que hoje é pouco analisado nos círculos intelectuais: o de que a mais importante democracia do mundo, conhecida por tentar espalhar seu regime, continua a ver suas liberdades declinarem a passos largos, e que isso contribui acentuadamente para o colapso da ordem internacional. Uma superpotência inconformada com a ascensão de nações rivais que escapam ao seu controle, e que para fazê-las recuar na disputa pelo poder é capaz, inclusive, de sacrificar parte das liberdades individuais que a tornou tão sedutora e admirada.
Durante o bate-papo, tive o privilégio de ouvir um dos mais importantes historiadores brasileiros da atualidade tratar não apenas dos fatos que relata detalhadamente em “A Desordem Mundial”, mas de correlacioná-los com a enxurrada de eventos importantes dos últimos meses, e que confirmam ainda mais suas teses. Entender o frágil e conflituoso castelo de cartas das nações de nossos tempos não é uma tarefa fácil, mas Moniz Bandeira sabe como poucos traduzir a entropia da contemporaneidade em entendimento analítico.
Tanto o título de seu livro, “A desordem mundial”, quanto seu conteúdo, remetem não apenas ao caos conjuntural pelo qual passa o mundo, mas também a uma importante crise sistêmica de liderança, a ausência de uma ordem hegemônica, que vem se deteriorando de forma acelerada desde o 11 de Setembro. Na sua opinião, qual o atual papel dos Estados Unidos neste contexto?
Os Estados Unidos ainda continuarão sendo pelas próximas décadas a potência mais importante do sistema internacional, mas não mais estamos num mundo unipolar, e isto é muito importante que se tenha em mente. Sua capacidade de ação vem sendo limitada nos últimos anos, e a tendência é que seja cada vez mais restrita. A Rússia, por exemplo, interveio na guerra da Ossetia contra a Geórgia, em 2008, e os Estados Unidos nada puderam fazer. Protestaram, tentaram ações multilaterais, mas nada deu certo. Na guerra da Síria, a Rússia, ao intervir pesadamente e impedir a derrubada do regime de Bashar al-Assad, que cairia sem essa ajuda, mudou o curso da guerra, da dinâmica geopolítica da região e mais uma vez se impôs como ator global, mostrando que os Estados Unidos não podem impor unilateralmente sua vontade. Esta foi uma conclusão dura para a Casa Branca. A China, por sua vez, torna-se uma potência econômica e trabalhar para acabar com o predomínio do dólar como principal moeda de reserva mundial. E a reação dos Estados Unidos a essa perda de poder é um dos principais motivos da desordem mundial. Não cheguei a essa conclusão agora. “A Desordem Mundial” é o terceiro livro de uma espécie de trilogia, que inclui ainda “Formação do Império Americano”, e “A Segunda Guerra Fria”. Os três se complementam e mostram as etapas de ascensão e declínio dos Estados Unidos. “A Desordem Mundial”, contudo, traz documentos que consegui posteriormente e engloba acontecimentos mais recentes. Tudo isso começou em 2008, quando os embaixadores Jerônimo Moscardo, então presidente da Fundação Alexandre de Gusmão, e Carlos Henrique Cardim, diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) me convidaram para escrever um ensaio sobre a geopolítica e a dimensão estratégica dos Estados Unidos, a fim de apresentá-lo em uma conferência, no Rio de Janeiro. De lá para cá, muita coisa mudou, pois a História é muito dinâmica, mas uma das coisas que mais pode-se observar é uma perda de poder relativo dos EUA, apesar de sua notória importância, e a tentativa de não perder esse poder, de recuperar o espaço perdido. Esse movimento de reação explica em grande parte os atuais conflitos mundiais, e o estado de desordem internacional.
O plano de intervenção na Síria é descrito por você com impressionante riqueza de detalhes no livro. O desdobramento dessa intervenção em uma guerra sangrenta assusta o mundo atualmente, especialmente nos últimos meses, por conta do medo de um confronto direto entre as duas grandes potências militares, Estados Unidos e Rússia. Você acredita nessa possibilidade?
Não acredito em um confronto direto entre as duas potências neste momento, especialmente por conta das eleições norte-americanas de novembro. As eleições são crucias para a tomada de decisões dos Estados Unidos, e pelo menos até a posse do novo presidente não vejo muitas chances de uma decisão mais radical neste sentido. A Ucrânia e a Síria são dois teatros de guerra considerados cruciais para os Estados Unidos, mas onde eles estão atolados e, virtualmente, derrotados. Aleppo, bastião dos rebeldes na Síria, em breve passará ao controle dos russos e do governo sírio. Apesar do aguçamento das tensões, um cenário que muitos analistas consideram talvez mais grave do que a crise dos mísseis instalado em Cuba em 1962, não creio que elas esquentem ao ponto de levar os Estados Unidos e a Rússia a um confronto armado direto, isso iria contra o próprio objetivo do capitalismo liberal defendido pelos Estados Unidos, pois uma guerra nessas proporções não beneficiaria ninguém. Não acredito que os falcões norte-americanos, mesmo depois das eleições, se arrisquem a tanto. A Rússia, ainda que devastada, tem igualmente condições de reduzir os Estados Unidos a pó de urânio. A guerra fria entre Washington e Moscou, no entanto, deve prosseguir de uma forma ou de outra porque constitui uma necessidade econômica para os Estados Unidos. A indústria de armamentos dos Estados Unidos precisa desse tipo de tensão, e a ameaça russa é sempre um bom motivo para investimentos no setor.
A desordem resultante do declínio dos Estados Unidos implica também, na sua opinião, na retomada da velha iniciativa de intervenções em governos de outros países? As crises políticas na América Latina e a tentativa de golpe na Turquia seriam exemplos dessa interferência?
Os Estados Unidos nunca deixaram de tentar intervir, especialmente quando seus interesses estão em jogo, mas é preciso separar os casos. Na América Latina, especialmente no Brasil, o que se observa é uma clara interferência externa dos norte-americanos, combinada a fatores internos. Os dois fatores, externo e interno, contribuíram para o aumento do poder do Judiciário, para o desmantelamento das empresas nacionais estratégicas e para o impeachment da presidente Dilma. É claro que tudo isso pode ser visto de uma maneira mais ampla, como uma ofensiva dos Estados Unidos sobre sua área de influência direta, para diminuir o papel da China e da Rússia. Já na Venezuela, acredito que a culpa pela situação lastimável do país é muito mais por conta do governo venezuelano do que por uma ação dos Estados Unidos. Tanto Chávez, quanto Maduro, erraram muito na economia, gastaram de forma irresponsável, o que tornou o país vulnerável. No caso da Síria, o fator interno para a crise e a guerra, por exemplo, praticamente inexistia, a influência externa é que foi decisiva. A Síria era estável política e economicamente, tinha uma boa situação de respeito aos direitos das mulheres e não tinha conflitos étnicos ou religiosos deflagrados. Já o caso da Turquia é diferente, e não acho que pode ser atribuído, pelo menos de forma direta, aos Estados Unidos. Não se pode afirmar que a tentativa de golpe contra o governo da Turquia foi organizada pelo governo do presidente Obama. Havia condições internas para um levante militar, devido a graves contradições políticas e religiosas que o país sempre teve. Grande parte da população da Turquia, inclusive das Forças Armadas, não aceita a espécie de califado que tentou-se instalar com o presidente Recep Tayyip Erddogan. A Turquia sempre foi laica e nacionalista, e dificilmente aceitará ser diferente. Mas, um fato relevante é que o golpe não deu certo, e que o país se voltou para a Rússia. Essa é uma guinada de grande importância geopolítica e uma ameaça direta aos interesses norte-americanos.
O petróleo é uma preocupação recorrente em sua obra, uma das motivações mais importantes nas ações das grandes potências, especialmente dos Estados Unidos. O petróleo também foi fundamental para jogar o Brasil no centro dessa desordem mundial?
O petróleo e a participação do Brasil nos BRICS foram fundamentais para que os Estados Unidos trabalhassem de forma direta no que chamo de golpe jurídico, midiático e parlamentar no Brasil. É importante observar que toda a corrupção da Petrobras foi identificada a partir da espionagem feita pela NSA na empresa. Foi a partir dessas escutas que o Judiciário brasileiro, que tem muitos de seus juízes trabalhando e cooperando com os Estados Unidos, pode avançar nas investigações. Desde então, partiu-se com voracidade para entregar as reservas do Pré-Sal para empresas estrangeiras, para esfacelar as empresas nacionais de construção, como a Odebrecht, e para afastar o Brasil dos Brics. É importante ressaltar que as grandes empresas nacionais, como a Odebrecht, estão envolvidas em grandes projetos militares brasileiros, como o submarino nuclear, e a destruição dessas empresas pode significar também a destruição desses projetos estratégicos. O Brasil também incomoda por dominar a tecnologia nuclear, isso é um fato. É a maior economia do continente, depois dos Estados Unidos, e a preocupação de Washington com os rumos que a política externa brasileira toma é constante.
Um dos grandes méritos, não apenas de “A desordem mundial”, mas também de “Formação do Império Americano” e de “A Segunda Guerra Fria” é o de não deixar dúvidas sobre as causas estruturais de crises e guerras recentes, que muitas vezes são vistos como fenômenos isolados pelo grande público. Os livros mostram que os objetivos das grandes potências, e especialmente dos Estados Unidos, estão direta e indiretamente em todas a grandes questões internacionais, e que estas lutam o tempo todo por hegemonia. Em sua opinião, não estamos mais em um mundo unipolar (liderado por uma só potência), mas poderemos voltar a ele em breve, com outra potência?
Não vejo possibilidade de um mundo unipolar nas próximas décadas. Os Estados Unidos permanecerão por muito tempo com grande relevância, a Rússia, que está ressurgindo do que sobrou da União Soviética, tem poderio militar e político para ter grande importância e influência no cenário internacional, e a China certamente terá grande protagonismo, principalmente econômico. Teremos um mundo dividido entre potências.
Leonardo Valente é professor e coordenador do curso de Relações Internacionais da UFRJ, doutor em Ciência Política, mestre em Relações Internacionais e jornalista. É também escritor de obras de ficção e acadêmicas.










