A geografia da pele
+5
"A geografia da pele", de Evaristo de Miranda
Por Mariana Moreno
Distante dos roteiros de viagens e dos safáris fotográficos, o Níger, ao sul do deserto do Saara, é um dos países mais pobres do mundo. Foi lá, em meio a choupanas de palha, cabras, tradições e campos infindáveis de cereais, que o agrônomo Evaristo de Miranda viveu durante três anos trabalhando em um projeto para ajudar a reduzir os desequilíbrios agrícolas e ecológicos que afetavam a região. Durante esta experiência, alguns costumes secretos da população hauçá lhe foram revelados. Agora, passados mais de trinta anos da promessa de silêncio, ele conta suas vivências na África no livro “A geografia da pele”.
O livro será tema do Clube de Leitura da Livraria da Travessa do Shoppping Leblon, nesta quarta, 27 de janeiro, às 17h.
A África é tema frequente na literatura, em livros de viagem e na mídia, sobretudo nos documentários de TV. O que difere sua “Geografia da Pele” do que se conhece sobre o continente?
O Niger, o país onde vivi, está fora das manchetes. Lá não há leões, nem gorilas, elefantes ou safáris. É um dos pontos mais centrais da África, ao sul do deserto do Saara. Um ponto de cruzamento entre diversas etnias, as últimas a serem dominadas pelos colonizadores europeus. O Niger não está em filmes de natureza, nem frequenta roteiros de viagens ou de safáris fotográficos. É o país mais pobre do mundo e, no entanto, sua população não é famélica. A região onde trabalhei é feita de areia, pastagens, choupanas de palha, tradições, cabras, ovelhas e campos infindáveis de cereais, povoada por animais invisíveis, em meio a acácias e baobás.
Você adota as palavras “imerso” e “profunda” no subtítulo do livro (“um brasileiro imerso na África profunda”). O que o fez caracterizar as experiências relatadas com tais palavras?
Não passei por lá apenas numa viagem de aventuras, nem fiz rápidas visitas turísticas. Eu vivi como agrônomo e pesquisador, durante vários anos, com a população local: os nômades, os pastores, os agricultores. Aprendi a falar suas línguas, morei nas aldeias, comi sua comida e compartilhei de seu modo de vida para tentar entender – e ajudar a reduzir - os desequilíbrios agrícolas e ecológicos que afetam a região. Foi realmente uma imersão numa África profunda, pouco conhecida e extremamente surpreendente.
Em quais momentos dos anos passados nessa África “profunda” você se sentiu num beco sem saída, seja por questões culturais, seja por limitações físicas?
No livro “A geografia da pele”, relato diversos desses episódios. Foram situações muito variadas, desde ser convidado a comer morcegos fritos até a dificuldade em encontrar a maneira certa, não ofensiva, de recusar uma jovem escrava buzú, que me foi ofertada em sinal de amizade por um grupo tuaregue, para que eu a levasse à França. E houve também situações de real perigo, no deserto do Saara, e em meio a experiências surreais, em estados alterados de consciência.
Por que você esperou mais de trinta anos para publicar suas vivências? Quando estava lá, você já acumulava os relatos com ideia de compor a obra ou só se dedicou ao resgate de memórias recentemente?
Durante todo o meu tempo na África, eu registrei minhas experiências, como faço até hoje ao trabalhar com os pequenos agricultores do Nordeste ou da Amazônia. Num determinado momento, após uma progressiva vivência com a população hauçá, eles decidiram me revelar alguns segredos sobre sua produção agrícola, alguns costumes secretos e o destino de seus cereais. Antes, porém, me fizeram jurar que manteria o segredo por 28 anos. Foi o que fiz: mantive a promessa. Nem em meu doutorado mencionei tais coisas. Agora, o mestre do tempo me autoriza a falar nesse livro.
Você voltou a percorrer os caminhos daquela época? Acha que aquelas paisagens e aquela diversidade de culturas permanecem vivas? Ou eles vão sucumbir com a entrada de movimentos como o Boko Haram?
Nunca mais. Às vezes tento identificar, em imagens de satélite, as transformações na vegetação, estradas e aldeias da região. É uma de minhas especialidades científicas na Embrapa: monitorar a agricultura por satélite. Com a ajuda da tecnologia, enxergo poucas mudanças: vilarejos cresceram, estradas melhoraram, mas a paisagem segue igual, assim como os arranjos de vegetação relacionados ao cultivo de alimentos e manejo do gado. Alguns ecos de grandes alterações vêm pela imprensa, como essa ameaça do Boko Haram e do islamismo radical. Os militantes desses movimentos agem livremente, sequestram mulheres, atacam vilarejos, incendeiam igrejas, estupram e escravizam jovens cristãs. Ao norte, a revolta armada dos tuaregues, a derrubada do ditador Kadafi na Líbia, a criação abortada de um Estado islâmico pela Al-Qaeda no Mali e a intervenção militar da França e dos países africanos trouxeram violência e insegurança, inéditas para os nômades do Saara e para os vilarejos nas fronteiras do Sahel com o grande deserto, onde eu vivi. Em meio a emboscadas, combates, bombardeios e controles militares, eu imagino os agricultores e os pastores que conheci prosseguindo silenciosamente na busca de seus humildes sonhos verdes.
Qual a sua interpretação, hoje, das marcas em suas pernas e braços que compõem “A geografia da pele”?
Como digo no início de meu livro, minha pele não suportou anos no deserto do Saara. Animado pela ousadia dos deuses da juventude, não percebi o quanto ela era tatuada pelo sol, vento, vegetação, animais e seca. Uma estranha geografia marca minha epiderme. Percorro suas manchas, rugas, máculas, dobras e cicatrizes como quem caminha entre colinas, montanhas, cordilheiras, países e continentes. Nas entranhas da memória, diversas sonoridades identificam essas paisagens africanas de meu corpo. Mas não consigo entender. Há trinta anos estou mudo em hauçá. Não ouço, nem falo ou leio. A areia do tempo apagou e soterrou essa língua africana em meu coração. Após estarem por anos em minhas noites, os olhares peuls, a luta dos hauçás, as espadas dos tuaregues, as interrogações de um guia zarolho e até o sorriso de uma jovem parteira sem braços desapareceram de sonhos e pesadelos. Na memória ficaram sinais hieroglíficos, espelhados nos céus da epiderme, que o tempo não apagou. Diluíram-se em meio a outros, amazônicos, polares e nordestinos. Mas, à noite, eles ainda cintilam.
Artigos Relacionados
Quem somos
Nós somos um dos maiores conglomerados editoriais da América Latina e com o maior catálogo no segmento dos não-didáticos, o Grupo Editorial Record tem atualmente cerca de seis mil títulos.
Saiba MaisLivros em alta
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE

EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
EM BREVE
