A razão indignada
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"A razão indignada – Leonel Brizola em dois tempos ", de Américo Freire e Jorge Ferreira
Por Cláudia Lamego
Herói carismático ou líder populista? Foram muitos os rótulos que Leonel de Moura Brizola acumulou durante a sua longa e profícua vida política. Para o cientista político João Trajano Sento-Sé, o trabalhista foi um dos poucos personagens da história do Brasil a transitar nas duas esferas da política, a institucional e a que desafia o status quo, com desenvoltura rara. Ou seja, ao mesmo tempo em que militava num partido tradicional e atuava para chegar ao poder pelas democráticas disputas eleitorais, Brizola foi, com a verve de um grande orador, um agitador das massas e contestador da ordem dominante. Sento-Sé assina o prefácio do livro A razão indignada – Leonel Brizola em dois tempos (1961-1964 e 1979-2004), da Civilização Brasileira.
Organizado por Américo Freire e Jorge Ferreira, o livro reúne 10 artigos de historiadores sobre a atuação de Brizola nos anos que antecederam o golpe de 1964, seja como governador do Rio Grande do Sul e líder da cadeia da legalidade, e a partir da redemocratização, quando fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT), se elegeu governador do Rio de Janeiro duas vezes e perdeu duas eleições presidenciais. Os textos versam sobre sua atuação política no cenário nacional, sua representatividade para o trabalhismo no Brasil e também sobre políticas públicas implementadas durante seus governos.
Em entrevista ao blog, o professor Américo Freire diz que estudar e escrever sobre Brizola é um desafio. “Como historiadores, lidamos com as memórias em disputa e com o uso político do passado. Nosso papel é dialogar e interpretar tudo isso, sem cair em apologias fáceis ou avaliações críticas tão fáceis quanto. Também é oportunidade para colocar em questão a tese corrente em vários círculos, em geral conservadores e liberais, de que Brizola era, nada mais, nada menos, do que um líder populista - ou seja, um irresponsável, demagogo. Nada melhor do que contrastar esse senso comum com estudos que examinam, por exemplo, suas principais proposições políticas ou mesmo algumas das políticas públicas por ele empreendidas em seus governos no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro”.
Assinam os textos, além do próprio Américo e de Jorge Ferreira, Angela de Castro Gomes, Bruno Marques Silva, Carla Brandalise, Gabriel da Fonseca Onofre, Libânia Xavier, Marluza Marques Harres, Michelle Reis de Macedo, Soanne Cristino Almeida dos Santos e Tânia dos Santos Tavares.
Como surgiu o projeto do livro e como foi o processo de realização e a compilação dos textos?
Escolhemos dois momentos-chave na trajetória de Leonel Brizola como figura política nacional - os anos entre 61-64 e as décadas de 80 e 90. A ideia foi privilegiar o estudo de conjunturas em que o político gaúcho deixou sua marca direta na vida política e social do país, seja como governador de estado (do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro), seja como líder partidário, seja como defensor da legalidade e no combate ao golpe civil-militar de 1964, seja como candidato à presidência da República. Durante os anos de exílio, ainda que tenha mantido contatos políticos no Uruguai e depois nos EUA e em Portugal, Brizola não reuniu condições para influir no rumo geral dos acontecimentos políticos no Brasil.
Com a morte de seu principal líder, em 2004, o PDT perdeu parte de seu protagonismo no processo político. Além disso, o Partido dos Trabalhadores vive uma espécie de agonia. Em que lugar do cenário político atual podemos encontrar a representação da herança trabalhista no Brasil, principalmente neste momento em que a flexibilização da CLT e a possível perda de direitos trabalhistas estão na ordem do dia?
O trabalhismo é uma das principais correntes políticas do Brasil Contemporâneo. Pelo significado político da ação de Vargas, de João Goulart e do próprio Brizola, entre outros, o trabalhismo passou a ser bastante identificado com a implantação de um projeto nacional-estatista para o país, assim como pela adoção de uma ativa política social. Seu legado é amplo e está inscrito na ordenação da legislação trabalhista e na manutenção da presença do Estado em importantes setores da economia, como petróleo, energia elétrica, bancos públicos e etc. Esse legado foi objeto de intenso debate na vaga neoliberal dos anos 90. Mais recentemente, durante os governos do PT, esse debate refluiu. Hoje em dia, com o recrudescimento da crise e a polarização política, está de novo na ordem do dia.
Ainda sobre a crise política atual no Brasil, Brizola vem sendo muito lembrado pela cadeia da legalidade em 1961. Muitas pessoas, diante de acontecimentos históricos importantes recentes, evocam a sua figura e se perguntam como ele agiria se estivesse vivo. Vocês arriscariam algum palpite sobre a atuação do trabalhista, por exemplo, nessa discussão sobre o impeachment? É possível, pelo seu histórico, prever suas reações?
Nós, historiadores, não gostamos desse tipo de previsão, além do mais quando se fala de Brizola. Ele e o PT sempre viveram às turras. Foram poucos os momentos de entendimento (2º turno das eleições presidenciais de 1989; campanha presidencial de 1998). Como homem de esquerda, estaria em clara oposição às ameaças golpistas e ao projeto neoliberal proposto pelo consórcio PMDB/PSDB. Também é possível supor que estivesse contra "tudo o que aí está" - uma das suas expressões favoritas. Tudo isso, porém, é mera suposição. Brizola era um político de fortes convicções, mas também era um homem pragmático, que se movia conforme as circunstâncias que via interessantes para si e para seu partido.
Na década de 60, durante a Guerra Fria e divisão do poder econômico mundial entre os Estados Unidos e a então União Soviética, e diante da revolução cubana, Brizola dividia os brasileiros entre “comprometidos” com o capital estrangeiro e a espoliação econômica do Brasil pelas grandes potências e os “não-comprometidos”, estes alinhados com a luta por direitos sociais e trabalhistas no país. Hoje, é possível dizer que ainda vivemos uma polarização de campos políticos no Brasil? Há alguma semelhança entre a crise política e econômica de hoje e a que desaguou no golpe de 1964?
O quadro hoje é bem diferente de 1964 e bem mais complexo. Em 1964, as direitas, lideradas pelos militares, conseguiram conquistar setores expressivos da opinião pública contando para isso com a quase totalidade dos jornais e de amplos segmentos religiosos. Para combater o governo, mobilizaram o poderoso e eficiente instrumento do anticomunismo. Por fim, tiveram importante apoio do governo dos Estados Unidos para avalizar a ação golpista. Hoje em dia, a ofensiva das oposições - que contam com respaldo da mídia e de segmentos do Poder Judiciário - tem encontrado maior resistência por parte de segmentos de opinião pública nacional e internacional. Também, hoje em dia, os militares se encontram distantes do centro dos acontecimentos, pelo menos até agora.
No prefácio do livro, o professor João Trajano Sento-Sé lembra que a trajetória de Brizola é feita também de muitas derrotas e que ele extraía heroísmo dessas lutas inglórias. Publicamente, ele era visto ora como herói carismático ora como líder populista. Queria que vocês comentassem o desafio de estudar e escrever sobre ele, que parece um personagem que nunca se esgota em apenas uma obra.
Vitórias e fracassos fazem parte da vida de qualquer figura pública. Com Brizola não foi diferente. Estudar Brizola é um bom desafio. Como historiadores, estamos o tempo todo lidando com as memórias em disputa e com o uso político do passado. Nosso papel é dialogar e interpretar tudo isso, sem cair em apologias fáceis ou avaliações críticas tão fáceis quanto. Também é oportunidade para colocar em questão a tese corrente em vários círculos, em geral conservadores e liberais, de que Brizola era, nada mais, nada menos, do que um líder populista - ou seja, um irresponsável, demagogo. Nada melhor do que contrastar esse senso comum com estudos que examinam, por exemplo, suas principais proposições políticas ou mesmo algumas das políticas públicas por ele empreendidas em seus governos no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Portanto, estudar Brizola não deixa de ser um modo de levar o leitor a pensar um pouco mais, a desnaturalizar o que lê e ouve nas ruas, seja sobre ele ou qualquer outra coisa.
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