“Açúcar de melancia”, de Richard Brautigan
13/07/2016
Um dos representantes da geração beat, movimento contracultural que surgiu em São Francisco, nos Estados Unidos, entre os anos 1950 e 1960, Richard Brautigan teve uma vida tão incomum que seria digna de uma das ficções escritas por ele. Abandonado em um quarto de hotel aos seis anos junto com a irmã de apenas dois, aos 20, ele pediu para ser preso porque já não aguentava mais passar fome e frio. Da prisão, seguiu para um hospício e foi diagnosticado com esquizofrenia e depressão. Após terminar a terapia com eletrochoques, começou a escrever e publicar seus primeiros livros de poesia. Em 1967, lançou o romance “Pescar truta na América”, que chegou a alcançar a marca de dois milhões de exemplares vendidos à época. No ano seguinte, publicou “Açúcar de melancia”, que recebe agora, pela Editora José Olympio, sua primeira edição no Brasil.
Ambientado em um universo distópico e surrealista, onde quase tudo é feito de açúcar de melancia, o livro mostra, por meio de um narrador que nunca diz seu nome, a rotina dos moradores e dos vizinhos do vilarejo euMORTE. Apesar do nome curioso e da paisagem mágica, como rios com um centímetro de largura, o lugar se assemelha a uma cidade qualquer. As pessoas trabalham, conversam e se relacionam. Ao longo da narrativa, no entanto, os personagens começam a assumir posturas assustadoras, que causam bem mais estranhamento do que o cenário fantástico criado por Brautigan. Um dos momentos aterrorizantes é o desfecho da trajetória de Margaret, com quem o narrador mantinha um relacionamento.
Outro lugar que compõe a história e que instiga a atenção é “Obras esquecidas”, uma região misteriosa, que segundo o narrador, abarca espaços temporais que não podem ser alcançados. Uma das coisas que se acumulam por lá são livros, usados como alimento para o fogo. O tradutor da edição brasileira, que também assina o posfácio da obra, relaciona o fato à ideia já explorada no filme Fahrenheit 451, de 1953.
Por meio de diálogos curtos, repetitivos e infantilizados, o escritor ironiza nosso próprio cotidiano enquanto nos lança em seu universo non-sense.
Leia a seguir os dois capítulos da obra, publicados no último domingo, 10, no caderno Ilustríssima do jornal Folha de São Paulo:
Iluminando as pontes
Olhei para cima através dos pinheiros e vi a estrela-
-d’alva. Brilhava no céu com um tom confortável de
vermelho, pois essa é a cor das nossas estrelas aqui.
Elas têm sempre essa cor.
Contei uma segunda estrela-d’alva no lado oposto
do céu, não tão imponente, mas tão bonita quanto a
que chegou primeiro.
Cheguei à ponte verdadeira e à ponte abandonada.
Elas ficam lado a lado sobre o rio. Trutas pulavam
no rio. Uma truta de mais ou menos cinquenta centímetros
saltou. Pensei que era um lindo peixe. Tinha
certeza de que lembraria dele por um tempão.
Vi alguém se aproximar pela estrada. Era o Velho
Chuck vindo de eumorte para acender as lanternas
na ponte verdadeira e na ponte abandonada. Caminhava
devagar, pois era um homem muito velho.
O pessoal diz que ele está velho demais pra acender
as luzes das pontes e que ele deveria era ficar numa
boa lá em eumorte e pegar mais leve. Mas o Velho
Chuck gosta de acender as lanternas e voltar pela
manhã para apagá-las.
O Velho Chuck diz que todo mundo deveria ter
alguma coisa para fazer e iluminar aquelas pontes era
o lance que ele tinha para fazer. Charley concorda
com ele.
— Deixa o Velho Chuck iluminar as pontes se
ele curte fazer isso. Assim ele não apronta nenhuma
travessura.
Isso é uma piada porque o Velho Chuck deve
ter tipo uns noventa anos e está bem longe de fazer
travessuras, movendo-se na velocidade das décadas.
O Velho Chuck enxerga muito mal e não me viu
até quase bater em mim. Eu esperei ele chegar perto.
— Oi, Chuck — falei.
— Boa noite — respondeu ele. — Vim acender as
lanternas das pontes. Como vai você esta noite? Vim
acender as lanternas das pontes. É uma bela noite,
não é?
— Sim — falei. — Linda.
O Velho Chuck enveredou pela ponte abandonada,
sacou um fósforo de quinze centímetros de seu macacão
e acendeu a lanterna ao lado da ponte que dá
para eumorte. A ponte abandonada está ali desde
a época dos tigres.
Naqueles dias dois tigres foram presos na ponte e
mortos e daí tacaram fogo na ponte. O fogo destruiu
apenas parte dela.
Os corpos dos tigres caíram no rio e ainda dá para
ver os ossos no fundo, nos pontos mais arenosos e
jogados nas rochas e esparramados aqui e ali: ossos
pequenos, costelas e um pedaço de crânio.
Existe uma estátua no rio ao lado dos ossos. É a
estátua de alguém que foi morto pelos tigres há muito
tempo. Ninguém sabe quem eles eram.
Nunca consertaram a ponte e agora é uma ponte
abandonada. Tem uma lanterna em cada lado da ponte.
O Velho Chuck as acende todas as noites, apesar
de o pessoal dizer que ele está velho demais para isso.
A ponte verdadeira é toda feita de pinheiros. É
uma ponte coberta e está sempre tão escuro dentro
dela como dentro de uma orelha. As lanternas têm o
formato de rostos.
Um rosto é o de uma linda criança e o outro rosto
é de uma truta. O Velho Chuck acendeu as lanternas
com os longos fósforos que sacou de seu macacão.
As lanternas da ponte abandonada são tigres.
— Vou caminhar com você de volta pra eumorte
— falei.
— Ah, não precisa — disse o Velho Chuck. — Sou
lento demais. Você vai se atrasar pro jantar.
— E você? — falei.
— Eu já comi. Pauline me deu algo pra comer um
pouco antes de sair.
— O que teremos pro jantar? — perguntei.
— Nem vem — disse o Velho Chuck, sorrindo. —
Pauline disse que, se eu encontrasse você no caminho,
não era pra contar o que tem hoje à noite pro jantar.
Ela me fez prometer.
— Essa Pauline — falei.
— Ela me fez prometer — disse ele.
euMORTE
Já estava quase escuro quando cheguei a eumorte.
As duas estrelas-d’alvas agora brilhavam lado a lado.
A menorzinha tinha passado por cima da maiorzona.
Estavam tão próximas agora que quase se tocavam, e
daí se juntaram e viraram uma só estrela bem grande.
Não sei se coisas como essas são justas ou não.
Não sei se coisas como essas são justas ou não.
Havia luzes acesas em eumorte. Observei-as enquanto
descia a colina ao sair dos bosques. Pareciam
cálidas, convidativas e alegres.
Um pouco antes de chegar a eumorte, as coisas
mudaram. eumorte é assim: está sempre mudando.
Para o bem. Subi os degraus até a varanda da frente,
abri a porta e entrei.
Atravessei a sala de estar na direção da cozinha.
Não havia ninguém na sala, nenhuma pessoa sentada
nos sofás distribuídos ao longo do rio. Normalmente
é ali que as pessoas se reúnem, ou então ficam nas
árvores perto dos rochedos, mas lá também não tinha
ninguém. Havia muitas lanternas brilhando ao longo
do rio e nas árvores. Estava perto da hora do jantar.
Quando cheguei ao outro lado da sala, senti um
cheiro bom que vinha da cozinha. Saí da sala e caminhei
pelo corredor que passa debaixo do rio. Pude
ouvir o rio acima de mim, brotando da sala de estar.
O rio soava bem.
O corredor estava perfeitamente seco e dava para
sentir o cheiro de coisas boas que saíam da cozinha
e enchiam o corredor.
Quase todos estavam na cozinha: quer dizer, ao
menos aqueles que fazem suas refeições em eumorte.
Charley e Fred papeavam sobre algum assunto. Pauline
se preparava para servir o jantar. Todo mundo
estava sentado. Ela ficou feliz em me ver.
— Olá, forasteiro — disse ela.
— Que tem pra jantar? — perguntei.
— Ensopado — respondeu ela. — Do jeito que
você gosta.
— Maravilha — falei.
Ela me deu um sorriso simpático e sentou. Pauline
usava um vestido novo e eu podia ver o agradável
contorno de seu corpo.
O vestido tinha um decote largo e dava para ver a
curva delicada de seus seios. Tudo aquilo me deixou
muito contente. O vestido tinha um perfume adocicado
porque era feito de açúcar de melancia.
— Como vai o livro? — perguntou Charley.
— Bem — falei. — Muito bem.
— Espero que não seja sobre pinhas — disse ele.
Pauline me serviu primeiro. Ela me deu uma enorme
porção de ensopado. Todo mundo se ligou que eu
era o primeiro a ser servido e reparou no tamanho da
porção, e todos sorriram pois sabiam o que significava
e estavam felizes com o que estava rolando.
A maioria deles não gostava mais de Margaret.
Quase todos desconfiavam que ela tinha conspirado
com nafervura e sua gangue, embora nunca tivesse
existido uma evidência real.
— Este ensopado está bom demais — disse Fred.
Ele pôs uma grande colherada de ensopado na boca,
quase derramando um pouco sobre o macacão. —
Hummmm... que bom — repetiu ele, dizendo em voz
baixa: — Bem melhor do que cenouras.
Al quase o ouviu. Por um segundo ele deu uma
olhada severa para Fred, mas, como não compreendeu
totalmente o que ele tinha dito, relaxou e disse
em seguida:
— Certeza que sim, Fred.
Pauline riu levemente, pois ela ouviu o comentário
de Fred e eu dei uma olhada para ela como se dissesse:
“Não ria alto demais, querida. Você sabe como Al é
sensível quando se trata de sua habilidade culinária.”
Pauline concordou com um aceno de cabeça.
— Contanto que não seja sobre pinhas — repetiu
Charley, apesar de já terem se passado bem uns dez
minutos desde que ele tinha falado alguma coisa pela
última vez, e também havia sido algo sobre pinhas.










