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ABL +7

Ana Maria Gonçalves é a primeira mulher negra na ABL

11/07/2025
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 width=Ana Maria Gonçalves foi eleita para a Academia Brasileira de Letras com 30 votos, sagrando-se a primeira mulher negra a ser eleita para a instituição. Ela ocupará a cadeira 33 que tem como patrono Raul Pompeia e era ocupada pelo gramático Evanildo Bechara. Ana Maria é mineira de Ibiá, cidade do interior de Minas onde cresceu vendo a mãe ler enquanto cuidava dos afazeres domésticos. Tem dois livros publicados, entre eles Um defeito de cor, recentemente eleito o livro brasileiro do século XXI e se tornou um marco da literatura brasileira. A Portela transformou a história de Kehinde em samba-enredo e o Museu de Arte do Rio organizou uma exposição inspirada na obra. “Um defeito de cor completará ano que vem duas décadas de publicação com fôlego de lançamento e isso diz muito sobre sua atemporalidade. Ana Maria Gonçalves esculpiu algo monumental. Como editora e amiga da autora, é muito emocionante testemunhar tão de perto a trajetória da obra e acompanhar a curva ascendente de leitores do livro porque isso é também testemunhar o povo brasileiro se dando conta de sua própria identidade”, afirma Livia Vianna, editora-executiva do Grupo Editorial Record. “Um defeito de cor é um presente para a Record e para todo o Brasil por muitos motivos, mas sobretudo por devolver à mulher negra a força e protagonismo que foram tão apagados na história. Então ver a Ana ocupando tantos espaços merecidos é uma vitória de uma sociedade inteira. É como ver Kehinde/ Luisa Mahin nessa cadeira 33 da ABL. Estamos emocionados e orgulhosos”, completa a vice-presidente do Grupo Editorial Record, Roberta Machado. Ana escreveu Um defeito de cor (Ed. Record) como se atendesse a um chamado. Ela estava no café de uma livraria quando uma obra de Jorge Amado caiu da prateleira em seu colo, aberto no prólogo, em que o autor baiano fazia um convite a uma moça para ir à Bahia e se oferecia para ser seu cicerone. Jorge Amado dizia ainda precisar de um jovem historiador que contasse a história da Revolta dos Malês, rebelião de escravizados de origem muçulmana ocorrida em Salvador, em 1835. Depois dessa leitura inesperada, Ana Maria foi morar na Ilha de Itaparica e começou a pesquisa que daria origem a Um defeito de cor. A protagonista do romance histórico, eleito o livro brasileiro mais importante do século XXI, é Kehinde, inspirada em Luísa Mahin, uma das lideranças da Revolta dos Malês e que seria a mãe do advogado abolicionista Luís Gama. Apesar de não a ter conhecido, Gama homenageia a mãe em dois poemas e a menciona numa carta autobiográfica enviada a um amigo. Com esses elementos em mãos, Ana Maria Gonçalves deu início à escrita da épica trajetória de Kehinde/ Luísa, desde a sua viagem forçada da costa africana até o Brasil onde chegou na condição de escravizada. “Sou uma escritora de personagens, adoro lidar com os personagens, então o desenvolvo até eu achar que eu cresci junto, que é meu amigo de infância, conhece todos os gostos, comida preferida, roupa, cor, signo, orixá, todos os elementos que podem me fornecer informações sobre ele, para mim é importante”, explica Ana Maria Gonçalves. O resultado foi um livro de quase mil páginas, que conquistou o prêmio Casa de las Américas e inspirou gerações de autores contemporâneos. Lançado em 2006, Um defeito de cor caminha para a sua 45ª edição, com mais de 180 mil exemplares vendidos. A obra ganhou um novo impulso depois que a Portela o transformou no samba-enredo do carnaval de 2024, que tinha os versos como refrão: “Salve a lua de Benim/ Viva o povo de Benguela/ Essa luz que brilha em mim/ E habita a Portela/ Tal a história de Mahin/ Liberdade se rebela/ Nasci quilombo e cresci favela” Na ocasião, a Editora Record registrou um aumento de dez vezes nas vendas e precisou rodar uma nova tiragem na terça-feira de carnaval para atender a alta da demanda. Ana Maria Gonçalves chegou ao topo da lista de mais vendidos da Amazon e, desde então, vendeu 80 mil exemplares praticamente dobrando a quantidade vendida em quase 20 anos. “Ele furou a bolha da literatura totalmente, extrapolou”, comemorou, na época, Ana Maria. Um defeito de cor ainda inspirou uma exposição no Museu de Arte do Rio e ganhou uma edição especial com ilustrações da artista plástica Rosana Paulino e um conto inédito de inspiração afrofuturista.     DE ONDE VEM O TÍTULO UM DEFEITO DE COR O título Um defeito de cor remete a uma lei do tempo colonial que estabelecia regras para pessoas negras ingressarem no serviço público ou ocuparem cargos clericais e militares. “A pessoa negra que quisesse ou fosse convidada a participar da administração pública precisava escrever para o imperador dizendo que tinha bons antecedentes e pedindo dispensa do defeito de cor, ou seja, ele abria mão da própria cor e a reconhecia como um defeito. Precisavam pedir dispensa e perdão por isso. E, assim, muitas figuras negras de destaque do período colonial tiveram que fazer isso”.   O QUE DIZEM SOBRE O LIVRO “É meu livro definitivo, meu livro preferido, o livro que mais dou de presente, o que eu mais indico. É o melhor livro que li na minha vida. Me abriu uma visão não só política mas emocional da condição da existência negra no nosso país, da chegada e do começo de uma trajetória.”_Lázaro Ramos, ator e diretor “Nesse livro, Ana Maria Gonçalves produz um corte plurissignificativo nos protocolos de representação do negro e da negrura na sociedade e na literatura brasileiras.”_Leda Maria Martins, pesquisadora, ensaísta e professora aposentada da UFMG “Romance histórico da diáspora negra do Brasil. Apresenta-se como contraponto ao apagamento da história do povo negro. Primeiro épico antiescravagista da literatura brasileira.”_Luiz Fernando Carvalho, diretor de cinema e TV “Com uma perspectiva feminina e moderna sobre um fenômeno que determina a vida brasileira até os dias de hoje, é um livro essencial para a compreensão do país.”_Noemi Jaffe, escritora, professora e crítica literária