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Autoestima em debate com Luiza Junqueira e Manuela Xavier

16/03/2021
Autoestima em debate com Luiza Junqueira e Manuela Xavier

O que vem antes: a autoestima ou a autoaceitação? A provocação colocada pela editora-executiva da Rosa dos Tempos, gerou um dos momentos de grande reflexão do segundo episódio da Live Delas, promovida às segundas de março no perfil da Rosa dos Tempos no Instagram. A transmissão contou com a participação da comunicadora Luiza Junqueira e da psicanalista Manuela Xavier, que destacaram a importância histórica do livro O mito da beleza para o movimento feminista. Confira a programação completa da Live Delas aqui.

“Pra mim, o que gerou a autoestima foi ter transformado meu corpo numa obra de arte. Relendo o livro, me deu orgulho. Não necessariamente do meu corpo, mas daquela obra, desse lugar que eu o coloquei. Orgulho do meu trabalho”. Para Luiza, a relação com a alimentação, com as imagens e com a fotografia foi fundamental.

Manuela também trouxe uma questão interessante à provocação feita pela editora-executiva Lívia Vianna. O que seria, de fato, aceitação O que é “aceitar”? “Eu hoje tenho 15kg a mais se comparado ao início da quarentena. Eu me aceito? Tanto faz. Precisamos de um esvaziamento disso que está no corpo e de uma potencialização do que está na existência. Isso é autoestima”, elaborou. Manuela também ressaltou que não necessariamente é preciso gostar do que se vê no espelho, mas entender que essa imagem compõe sua existência. “Hoje é assim, amanhã pode ser outra coisa. E está tudo bem. Ninguém escapa do mito da beleza: há ainda uma legislação muito ferrenha sobre as mulheres, e essa história de aceitação é um labirinto sem fim. O corpo é superfície, não é forma”

Manuela, que trabalha com leituras dirigidas, conta que fez, recentemente, a leitura de O mito da beleza. “Como psicanalista, eu li O Mito da Beleza, Mas naquela época eu não estava inteirada de assuntos políticos. Da indústria que forma, molda e modela a nossa forma de lidar com o corpo”, conta Manuela, que diz que estava alienada na indústria das dietas, da ditadura da mutilação dos corpos, do “para ficar bonita é preciso sofrer” e outros dogmas. “Voltei ao livro e vi que havia um movimento de exclusão de corpos marginais. Naomi Wolff diz isso. Não importa o corpo, se trata da obediência, da deslegitimação dos corpos. Quando reunimos para a leitura do livro, foram quase 800 mulheres se descobrindo aprisionadas”.

Num mundo em que há hoje cursos de autoestima, em que a representatividade virou um produto, o livro de Naomi Wolff foi lembrado como um apelo à sociedade para repensar essa representatividade, essas existências subjetivadas ao controle dos corpos. “É um sistema que é feito pra isso. É tudo muito calculado. Tem uma pegadinha muito grande no livro: você pode ser bonita, você pode ser magra, se você não é, é um problema seu, você que não está se esforçando. Para o homem não.”, lembra Livia, que cita a a ex-presidente Dilma Roussef. “Ela foi reconstruída na imagem, no cabelo, maquiagem. Eram várias críticas em cima da imagem de Dilma e ela teve que se adequar, reformar sua aparência”.

Nas palavras finais, Luiza disse que “esse livro abriu meus olhos, segue abrindo até hoje. Precisamos passar a informação” e Manuela ressaltou, mais uma vez, a importância do aprendizado empoderante do que Naomi escreveu. “Que possamos ver beleza nas nossas estranhezas. Numa sociedade que quer a reprodução de um padrão único para todas, que a gente possa seguir o nosso desejo”, concluiu.