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Autor de "A clínica", Vicente Vilardaga fala sobre o conceito de "jornalismo de terror"

01/09/2016
Autor de "A clínica", Vicente Vilardaga fala sobre o conceito de "jornalismo de terror"
Por Mariana Moreno Com mais de 25 anos de experiência como repórter, Vicente Vilardaga foi finalista do Prêmio Jabuti em 2014 com o livro “À queima-roupa, o caso Pimenta Neves”. Este ano ele lançou pela Record “A clínica: a farsa e os crimes de Roger Abdelmassih”. Ao contar histórias de personagens com trajetórias obscuras e decadentes, o jornalista observou que os livros deste perfil permitem o desenvolvimento de uma narrativa com características singulares, a qual ele denominou “jornalismo de terror”. Como você definiria o “jornalismo de terror” e quais elementos narrativos os compõem? Basicamente, é uma grande reportagem sustentada em uma narrativa de suspense. Meus dois livros podem ser considerados histórias reais de terror na medida em que despertam no leitor sensações de medo e horror diante dos atos criminosos cometidos pelos seus protagonistas. O suspense, porém, não vem, exatamente, do desvendamento de um crime ou da descoberta de quem o cometeu. Os leitores sabem que Abdelmassih cometeu vários crimes antes de ler “A clínica” porque acompanharam o caso pela imprensa. E o mesmo vale para o caso de Pimenta Neves. O fim da história é conhecido. Mas a verdade e a natureza do mal devem ser expostas aos poucos. Antes de ser denunciado, Abdelmassih era um medalhão, aparentemente um profissional insuspeito. Todo mundo se surpreendeu quando ele foi desmascarado. E a narrativa precisa reproduzir essa surpresa. A boa caracterização do personagem ajuda muito nessa construção. É óbvio que no caso de um livro-reportagem essa caracterização deve ser fruto de apuração rigorosa, baseada na realidade, e não de invenção. Nos seus dois livros, os personagens centrais seguem uma trajetória de ascensão e queda: pessoas respeitadas profissionalmente, socialmente abastadas e que sucumbiram por causa de seus crimes. Como estes caminhos que se degringolam favorecem a construção de uma narrativa com ritmo de thriller ainda que os leitores já saibam o desfecho da história? A decadência tem um componente misterioso, principalmente quando o personagem joga contra si próprio – é ele mesmo o senhor de suas mazelas. Por isso é importante começar mostrando o personagem no alto, quando ele era um profissional respeitado e sem máculas, para que ao longo da história a queda seja bem compreendida e percebida com toda sua intensidade. Ao mesmo tempo, você vai detectando pequenos vícios do personagem, comportamentos desviantes ao longo de sua vida, que, sem psicologismos, exibem algum transtorno de personalidade. Como você disse, tanto Pimenta Neves como Abdelmassih eram profissionais muito respeitados, sumidades em sua área, mas eram homens problemáticos, sujeitos a mudanças de humor e de difícil trato com seus subordinados. E isso não pode se perder. A narrativa tem que mostrar o período de grandiosidade para depois entrar na espiral do fracasso. Abdelmassih é claramente um impostor, um farsante que exercia a profissão sem qualquer consciência ética e que, no final, acaba sendo desmascarado. Pimenta é um personagem que perde o controle, mas isso acontece gradualmente. Seus problemas de personalidade são intensificados na relação com a namorada Sandra Gomide e, principalmente, depois da separação. Em termos de estilo, quais devem ser as escolhas do escritor para gerar este clima de suspense na trama? Que recursos usar e quais evitar? Para acirrar a tensão da história, deve-se criar alguma incerteza inicial e gerar expectativa no leitor em relação aos novos acontecimentos. É preciso fazer as revelações ao longo da trama a conta gotas, apresentar os fatos no momento oportuno e manter o ritmo da narrativa. O suspense é excelente ingrediente para a construção de uma história e não ameaça a objetividade jornalística. Em matérias curtas, muito orientadas para a busca dos fatos, é mais difícil de sustentá-lo. Em livros, que permitem um desenvolvimento narrativo mais longo e a exploração de detalhes, ele se torna um recurso interessante para manter a atenção do leitor e fazê-lo mergulhar na história. O que deve ser evitado? Além de se exceder em adjetivos, entrar em histórias laterais e perder o eixo da narrativa, o que é uma tentação jornalística e um risco. Frequentemente, na apuração me deparei com algumas frentes promissoras de investigação que não contribuíam em nada para o andamento da narrativa. Também surgiram vários personagens enigmáticos, que poderiam até merecer uma melhor caracterização. Mas é muito mais produtivo manter o foco no protagonista. Qual a importância da cronologia ao contar histórias de decadência como a de Roger Abdelmassih? Acho que recuperar e ser rigoroso com a cronologia dos fatos, além de ser um ingrediente da objetividade jornalística, é uma forma de organizar as ideias e dar consistência à reportagem. Escrever uma história é dominar o tempo dos acontecimentos. Nos dois livros, a divisão em capítulos corresponde aos anos em que os casos se passam. “À Queima-Roupa” começa em 1994, ano em que Pimenta volta ao Brasil depois de um longo tempo nos Estados Unidos, e vai até 2000, quando acontece o assassinato de Sandra Gomide. E “A clínica” começa em 2007, apogeu da clínica de Abdelmassih, e vai até 2014, ano da prisão definitiva, depois da fuga. Ao escrever um livro de não-ficção, a liberdade criativa do autor é restrita justamente por ter um compromisso com a veracidade dos fatos. Por outro lado, o número amplo de fontes e de entrevistados dá margem para múltiplas abordagens do personagem. Como equilibrar o volume de informações e as diferentes versões sobre o protagonista? Existe o risco de humanizá-lo demais? Um dos problemas de se estender demais na biografia de um criminoso é que isso pode dar margem para que o leitor sinta algum tipo de empatia por ele, o que não deve acontecer. Suas contradições devem ser exibidas, mas nenhum aspecto positivo de sua personalidade será forte o suficiente para compensar suas maldades. Como se tratam de casos profundamente investigados, esclarecidos e que evoluíram para uma condenação judicial, as diferentes versões se acomodaram na decisão condenatória. Hoje, não há dúvidas, por exemplo, sobre o fato de Abdelmassih ser culpado de crimes de estupro. Mas, essa convicção só surgiu no julgamento, em 2010. Antes disso, havia defensores e acusadores se digladiando, personalidades que defendiam sua inocência e gente que só via virtudes no ex-médico. Para ser fiel à história, o livro precisou captar essa divisão social, acomodar as diferentes visões e exibir as incertezas de seus acusadores e os argumentos dos seus defensores durante o processo. É um cuidado jornalístico elementar. Há outras histórias do mesmo perfil que lhe inquietam e sobre as quais você gostaria de se debruçar? Tenho algumas ideias, sobre personagens contemporâneos e históricos. Além de casos rumorosos, estou olhando especificamente para alguns vilões. Um deles, que tem me interessado muito, é o coronel Joaquim Silvério dos Reis, o Dedo-duro, traidor de Tiradentes. É um personagem sinistro, que marcou a cultura brasileira. Acho que a história a Inconfidência Mineira pode ser contada sob uma perspectiva de terror, com suspense, explorando o antagonismo entre Silvério, um delator seletivo, e Tiradentes.