Baladas Proibidas
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"Baladas proibidas", de Gabriel Godoy e Bolívar Torres
Por Thaís Britto
Gabriel Godoy nasceu numa cidade pacata, com apenas 20 mil habitantes. Mas, aos 18 anos, deixou a família para ganhar o mundo. Começou ali, meio que por acaso, um caminho perigoso pelo universo do tráfico de drogas, que lhe rendeu diversão e dinheiro, mas também sofrimento, perdas e até uma temporada na prisão. Sua impressionante trajetória é o tema de "Baladas proibidas", livro lançado pela Record e escrito em parceria com o jornalista Bolívar Torres.
Hoje, anos depois de abandonar o tráfico, Gabriel trabalha na ressocialização de ex-detentos. Nesta entrevista, ele fala sobre a decisão de contar sua história em livro, e sobre o trabalho social que administra atualmente.
Quando e por que você decidiu contar sua história num livro?
Decidi escrever o livro em agosto de 2014. Nesse período estava participando de projetos de ressocialização, dava testemunho em clínicas de recuperação e percebi que através da minha história estava podendo ajudar algumas pessoas. Então pensei em escrever o livro para que mais pessoas fossem alcançadas. Pois a grande lição do meu livro é que não importa quão envolvido esteja com o submundo do crime. Sempre é possível mudar de vida.
Em algum momento você hesitou ou teve medo de contar alguma parte específica da sua trajetória?
Medo não! Mas hesitei em alguns momentos sim. Não podia contar tudo que vivi, iria expor pessoas, então tive que hesitar em alguns relatos. Acho que 30% da minha historia real não está no livro.
Qual foi o fator definitivo que influenciou sua decisão de deixar o tráfico?
Cerca de três meses depois que comecei a frequentar a igreja, vivi um milagre muito grande com Deus. Foi algo sobrenatural mesmo que só Deus poderia fazer e ele fez assim como havia pedido. Foi tipo uma prova de Deus. Depois desse milagre resolvi de vez abandonar não somente o tráfico, como as baladas, o uso de drogas e qualquer outro vício. Me batizei novamente e comecei minha vida do zero.
Assim que você abandonou o tráfico, como ficou sua vida? Qual foi o impacto imediato que essa decisão teve no seu dia a dia?
Minha vida mudou radicalmente. Antes vivia de segunda a segunda na balada, passava a maioria das noites acordado e dormia de dia. A primeira mudança foi com o horário. Foi difícil me acostumar. O segundo impacto veio com o trabalho. Quando larguei o tráfico passei a trabalhar numa loja de materiais de construção do meu amigo Eduardo. Acordava 7h da manhã, trabalhava até as 18h. Não foi fácil a nova rotina, mas valeu muito a pena não ter desistido.
Quando você decidiu que queria se dedicar a projetos sociais? E como chegou à ideia da iniciativa específica que queria construir?
Comecei a trabalhar em projetos sociais pela igreja - queria levar a outras pessoas uma nova esperança e perspectiva de vida. Pois havia vivido na pele uma transformação e sabia que ela era possível. As pessoas tinham que saber disso. Quando vi que deu resultado resolvi me dedicar por inteiro a essa causa.
Pode explicar mais sobre seu projeto e como funciona?
Meu instituto é uma associação privada e sem fins lucrativos que nasceu para se dedicar às causas sociais com ações junto a pessoas que desejam deixar para trás o universo das drogas, proporcionando assim melhorias de vida para a população em geral. Em junho de 2017 teremos uma sede na minha cidade natal (Serra Negra). Lá vamos disponibilizar cursos de especialização totalmente gratuitos para até 100 pessoas por formação, além de aulas de artes marciais, doação de cestas básicas e também teremos um clínica de reabilitação onde vamos atender até 60 pessoas por demanda de tratamento, tudo isso será financiado por empresas parceiras. No site do instituto disponibilizo maiores informações.
Também estou produzindo um canal no Youtube. Se chama "Trilhando outro caminho", e no canal entrevisto ex-detentos, ex-usuários de droga, médicos, especialistas em segurança pública e atletas que venceram as drogas. O intuito do meu canal é mostrar para as pessoas que bandido nem sempre será bandido, através dessas histórias de superação quero mostrar isso para a sociedade.
Uma das partes mais impressionantes do livro fala sobre o período que você passou na prisão - e como ele contribuiu para você expandir ainda mais os negócios como traficante. Os problemas do sistema carcerário brasileiro têm sido alvo de muita discussão recentemente. O que você, que já passou por essa experiência, acha que pode ser feito para melhorar as condições dos detentos e evitar essa "profissionalização" que a cadeia acaba proporcionando?
Eu sei a solução. Só temos um caminho para mudar o cenário do pais. Afirmo! Primeiro deveriam ser construído novos presídios para separar presos primários (aqueles que estão sendo presos pela primeira vez ) dos presos residentes ( aqueles que já têm uma certa experiência no sistema), feito isso diminuiria a organização do crime. Hoje o preso primário quando cai na cadeia não tem experiência nenhuma de como as coisas funcionam, não tem esquema, porém os residentes treinam os presos para que entrem nos esquemas junto. Uma vez que o preso iniciante convive somente com primários, ele não saberia como começar a organizar qualquer tipo de ação dentro do presídio, sem contar que dificilmente se juntaria a alguma facção. É claro que haveriam os presídios com somente residentes, talvez possa parecer que nesses presídios o crime teria mais força. Isso até pode acontecer nos primeiros anos, mas com o passar do tempo com as penas cumpridas o jogo ia invertendo. Também deveria haver escolas dentro de todos os presídios, o preso deveria estudar e fazer um curso em troca de uma redução de pena. Também deveria haver empresas cadastradas que dariam emprego assim que o preso sair. Sei lá, talvez em troca de desconto no imposto. Imaginem, o preso termina a pena, sai da cadeia com o ensino médio concluído, com um curso técnico e com um emprego esperando. A chance do indivíduo voltar para o crime diminui em 80%. Garanto isso porque converso com muitas pessoas do meio em ações em favelas. De cada 10 criminosos que converso 7 não querem estar no crime, porém não tem oportunidade para ser reinserido na sociedade. Não tenho dúvidas que um sistema assim diminuiria o crime no país. Mas não digo isso para todos os indivíduos que comentem crime. Acho que estuprador e quem comete assassinato deveria ter pena de prisão perpétua.
Você se arrepende de alguma passagem específica da sua trajetória? Ou acredita que ela foi necessária para construir a pessoa que você é hoje?
Espiritualmente me arrependo de tudo. Diante de Deus já busquei meu perdão e não faria nada de novo. Mas não posso ser hipócrita e me arrepender no mundo natural, afinal quando estava lá no rolé estourando Chandon não queria estar em outro lugar. Então não posso me arrepender. Contudo creio sim que tudo que vivi foi necessário para construir quem sou hoje. Garanto que vou fazer muito mais o bem do que já fiz de mal algum dia, e não teria esse desejo se não tivesse vivido tudo que vivi. Na verdade quando digo mal que fiz, foi o de estar lá na balada, disponível com droga na mão, nunca fui bater na porta de ninguém, nunca obriguei ou induzi alguém a usar droga, se não fosse eu, teria outro no meu lugar, então não considero tanto mal assim.
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