"Celso Daniel", de Silvio Navarro
17/10/2016
São Paulo, 18 de janeiro de 2002. Depois de jantar no Rubaiyat, restaurante paulista no bairro dos Jardins, o prefeito de Santo André Celso Daniel deixou o local com o empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. Minutos depois, já na zona sul da cidade, o carro em que os dois estavam foi fechado e bandidos que estariam em outros três veículos sequestraram o prefeito. O corpo de Celso Daniel apareceu, crivado de tiros, dois dias depois, na rodovia Régis Bittencourt, no município de Juquitiba. Envolto em mistério sobre o verdadeiro mandante e com uma série de mortes suspeitas nos meses e anos subsequentes, o assassinato é recontado agora no livro Celso Daniel, do jornalista Silvio Navarro, que passou os últimos quatro anos pesquisando sobre o crime.
Sombra, acusado pelo Ministério Público de encomendar o sequestro e a morte de Celso Daniel, morreu no último dia 27 de setembro. Ele era o único dos sete réus do processo que investigava o homicídio a não ter ido a júri popular. No livro, Silvio Navarro lembra o caso de um outro criminoso, o assaltante Dionísio de Aquino Severo, resgatado de um presídio de helicóptero e morto logo depois, em abril de 2002, dentro de outra prisão paulista, que chegou a ser investigado como um possível elo entre os sequestradores da favela do Pantanal e os empresários de ônibus, entre eles Sombra, suspeitos de serem os mandantes do crime.
O assassinato é um dos calcanhares-de-aquiles do Partido dos Trabalhadores, que sempre tentou afastar a hipótese de envolvimento político do caso. No entanto, o crime estaria por trás das denúncias de corrupção na prefeitura de Santo André, que vieram à tona logo depois e que são apuradas, em diferentes procedimentos investigativos, pelo Ministério Público há quase duas décadas. Alguns personagens da história, como Ronan Maria Pinto, Klinger de Oliveira, entre outros empresários do ramo de transporte público do ABC paulista, já foram condenados por desvios de recursos públicos em primeira instância — e recorrem da sentença na Justiça. O caso voltou à tona nas investigações da Lava Jato. Para Navarro, Santo André teria sido uma espécie de laboratório do que o PT faria, anos depois, no governo federal, nos já conhecidos casos de corrupção envolvendo o partido, como o mensalão e o petrolão.
“Celso Daniel” é um livro-reportagem escrito em ritmo de thriller e suspense. Segundo Navarro, o seu maior desafio foi organizar a apuração, feita com a ajuda de um pesquisador e de um revisor. Para contar a história, ele teve que pesquisar em diversos processos judiciais, bater as versões desencontradas e localizar testemunhas pouco conhecidas 14 anos depois. Ele revela que houve muita resistência e negativas de algumas pessoas ligadas ao PT em permitir acesso ao acervo pessoal de Celso Daniel, bibliotecas e arquivos.
Seu livro chega às livrarias poucos dias depois da morte do personagem principal do sequestro e assassinato do prefeito Celso Daniel: Sérgio Sombra, suspeito de ser o mandante, que chegou a ficar preso apenas por alguns meses. O promotor do caso Celso Daniel, Roberto Wider, de Santo André, disse que, com a morte dele, o caso chega ao fim. Você acredita que, desenterrado pela Lava-Jato, o caso de corrupção na prefeitura de Santo André e, por extensão, a morte do prefeito, ainda pode revelar informações que ficaram obscuras até hoje?
As denúncias de corrupção em Santo André são apuradas, em diferentes procedimentos investigativos, pelo Ministério Público há quase duas décadas. Alguns personagens, como Ronan Maria Pinto, Klinger de Oliveira, entre outros empresários do ramo de transporte público do ABC paulista, já foram condenados por desvios de recursos públicos em primeira instância — e recorrem da sentença na Justiça. No caso da Lava Jato, a fase batizada de Carbono 14 seguramente acarretará em novas condenações por crimes como lavagem de dinheiro, empréstimos simulados e fraude em contratos da Petrobras.
No caso do homicídio, o processo será retomado na Vara de Itapecerica da Serra, onde o corpo de Celso Daniel foi achado, em outubro após a defesa de Sérgio Sombra ter conseguido anular parte da tramitação na Justiça. Porém, como Sérgio era o único dos sete réus que não enfrentou o júri popular, não são esperadas muitas novidades porque os demais seis criminosos cumprem penas altíssimas, alguns em penitenciárias de segurança máxima, por uma série de crimes anteriores -- ou seja, o homicídio do prefeito apenas agravou os já respectivos históricos criminais. O único personagem que conseguiu a progressão da pena, Itamar Messias dos Santos, foi preso cometendo novos delitos tão logo deixou o presídio. Se alguma novidade surgir sobre o assassinato, muito provavelmente, será por meio de confissão, o que é pouco provável transcorridos 14 anos.
Você contou, em nota no livro, que começou a pensar em escrevê-lo em 2012, quando a morte de Celso Daniel completava dez anos, e dois anos antes de a Lava-Jato desencadear um processo que, até agora, chegou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. De alguma forma, você já tinha em mente que a corrupção em Santo André pode ter sido mesmo o projeto-piloto de corrupção e caixa dois que o PT colocou em prática nos anos subsequentes, em que governou o Brasil?
Acreditava que havia um modus operandi de desvio de recursos públicos empregado pelo Partidos dos Trabalhadores para financiar um projeto de poder. E a ligação de alguns personagens de Santo André com a cúpula do partido e, mais tarde, com o governo federal é inequívoca: Celso Daniel seria, aliás, foi escalado para ser o coordenador da campanha de Lula em 2002; Gilberto Carvalho era secretário municipal de Santo André e, de lá, seguiu para a antessala de Lula no Palácio do Planalto. Porém, um elemento foi crucial para fechar este círculo: o depoimento de Marcos Valério de Souza, o operador do mensalão, ao Ministério Público Federal, em 2012. Ele afirmou que Ronan Maria Pinto teria ameaçado contar o que sabia sobre os desmandos em Santo André — o depoimento foi revelado pela revista Veja —, envolvendo Lula, Carvalho e José Dirceu, se não recebesse R$ 6 milhões. Por fim, a Operação Carbono 14 detalhou uma intrincada operação de desvios de verbas para fazer esses R$ 6 milhões chegar às mãos de Ronan.
Você tentou e não conseguiu entrevistar o Sombra para o livro. Teve muita dificuldade de ouvir as pessoas envolvidas? Tentou chegar à cúpula do PT? O Eduardo Greenhalgh, a Miriam Belchior, o Gilberto Carvalho, esses que tiveram uma relação mais próxima com o Celso Daniel, algum deles quis dar depoimento para o livro?
Tentei entrevistar Sergio Sombra durante mais de dois anos, mas ele nunca aceitou. Aliás, ele sempre foi avesso a entrevistas para qualquer órgão de imprensa e só falou ou em juízo ou quando foi convocado pela CPI dos Bingos e da Câmara Municipal de Santo André. Sobre outros personagens ligados ao PT, tive muita dificuldade em obter depoimentos em ON, mas alguns políticos foram receptivos como João Avamileno e Eduardo Suplicy. Outros, sequer aceitaram iniciar um diálogo sobre o tema — nesse caso, as falas usadas no livro foram dadas em entrevistas no passado para grandes jornais ou em CPIs.
Desde o início, as investigações do caso foram obscurecidas pela disputa, dentro da polícia, de quem deveria ficar responsável pelo caso. A morte do Dionísio, que aparece como personagem importante no livro e que as investigações descartaram como suspeito, mas que, sempre ficou à sombra do caso, aconteceu dentro de um presídio paulista – administrado pelo governo estadual do tucano Geraldo Alckmin. No livro, você diz que mesmo o PSDB não quis se aprofundar muito nessa história. O caso de Celso Daniel lembra o assassinato de PC Farias, em Alagoas, até hoje não totalmente esclarecido. Acha que alguma coisa mudou na disposição das polícias em investigar e na Justiça em julgar casos desse tipo no Brasil desde então?
É importante frisar que os profissionais destacados para a investigação do caso, seja do DHPP, do Deic ou da Antissequestro eram competentes. Porém, o governo de São Paulo tinha muita pressa em concluir logo o caso porque Geraldo Alckmin enfrentaria em 2002 uma eleição em voo solo – Mário Covas, de quem fora vice, morrera no ano anterior — e a segurança pública era um problema grave para o Palácio dos Bandeirantes – o estado vivia uma onda de sequestros. À época, o potencial eleitoral de Alckmin ainda era incerto e os tucanos temiam que a força da "onda Lula” ajudasse a eleger um candidato do PT em São Paulo. Em 2005, quando a delegada Elisabeth Sato teve a oportunidade de revisitar o caso, esbarrou na resistência interna de que, caso chegasse à conclusão distinta sobre o crime, teria de desqualificar o trabalho de nomes importantes na Polícia Civil. A polícia queria prender a quadrilha da Favela Pantanal. O Ministério Público, queria chegar às pessoas que estavam por trás da ação que aqueles criminosos realizaram – e os promotores sabiam que alguns personagens graúdos investigados por corrupção gravitavam na gestão de Santo André.
Por fim, gostaria que falasse um pouco dos desafios que enfrentou para amarrar todas as pontas desse processo intrincado e contar uma história, já mais ou menos conhecida, numa narrativa envolvente e com ritmo de suspense.
Sempre achei que esse caso tornara-se uma novela policial – quiçá, um roteiro de cinema. Porém, a dificuldade em contá-lo foi enorme dado o volume de processos judiciais, as dezenas de versões desencontradas – ou alteradas aqui e ali — e, sobretudo, o tempo transcorrido: localizar testemunhas pouco conhecidas 14 anos depois, assim como seus respectivos depoimentos em delegacias do estado registrados na época dos fatos. Para tal, contei com a ajuda do pesquisador Felipe Frazão de Queiroz e do revisor Felipe Machado. Também houve resistência e negativas de algumas pessoas ligadas ao PT em permitir acesso ao acervo pessoal de Celso Daniel, bibliotecas e arquivos. Definitivamente, o PT não queria que este livro fosse publicado porque Celso Daniel é um fantasma que ainda assombra muita gente graúda – parafraseando o ex-presidente Lula.










