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a rosa do povo +8

Drummond narrou vitória aliada em 'A rosa do povo'

09/05/2025
Drummond narrou vitória aliada em 'A rosa do povo'

O russo em Berlim

Carlos Drummond de Andrade (In A rosa do povo, 1945, Editora Record) Esperei (tanta espera), mas agora, nem cansaço nem dor. Estou tranquilo. Um dia chegarei, ponta de lança, com o russo em Berlim. O tempo que esperei não foi em vão. Na rua, no telhado. Espera em casa. No curral; na oficina: um dia entrar com o russo em Berlim. Minha boca fechada se crispava. Ai tempo de ódio e mãos descompassadas. Como lutar, sem armas, penetrando com o russo em Berlim? Só palavras a dar, só pensamentos ou nem isso: calados num café, graves, lendo o jornal. Oh, tão melhor com o russo em Berlim. Pois também a palavra era proibida. As bocas não diziam. Só os olhos no retrato, no mapa. Só os olhos com o russo em Berlim. Eu esperei com esperança fria, calei meu sentimento e ele ressurge pisado de cavalos e de rádios com o russo em Berlim. Eu esperei na China e em todo canto em Paris, em Tobruk e nas Ardenas para chegar, de um ponto em Stalingrado, com o russo em Berlim. Cidades que perdi, horas queimando na pele e na visão: meus homens mortos, colheita devastada, que ressurge com o russo em Berlim. O campo, o campo, sobretudo o campo espalhado no mundo: prisioneiros entre cordas e moscas; desfazendo-se com o russo em Berlim. Nas camadas marítimas, os peixes me devorando; e a carga se perdendo, a carga mais preciosa: para entrar com o russo em Berlim. Essa batalha no ar, que me traspassa (mas estou no cinema, e tão pequeno e volto triste à casa: por que não com o russo em Berlim?) Muitos de mim saíram pelo mar. Em mim o que é melhor está lutando. Possa também chegar, recompensado, com o russo em Berlim. Mas que não pare aí. Não chega o termo. Um vento varre o mundo, varre a vida. Este vento que passa, irretratável, com o russo em Berlim. Olha a esperança à frente dos exércitos, olha a certeza. Nunca assim tão forte. Nós que tanto esperamos, nós a temos com o russo em Berlim. Uma cidade existe poderosa a conquistar. E não cairá tão cedo. Colar de chamas forma-se a enlaçá-la, com o russo em Berlim. Uma cidade atroz, ventre metálico, pernas de escravos, boca de negócio, ajuntamento estúpido, já treme com o russo em Berlim. Essa cidade oculta em mil cidades, trabalhadores do mundo, reuni-vos para esmagá-la, vós que penetrais com o russo em Berlim. A rosa do povo | Leia Drummond