A primeira vez que eu soube que Sartre e Simone de Beauvoir eram pessoas vivas e não só escritores e figuras interessantes de um meio intelectual foi quando em 1960 eles passaram pelo Rio de Janeiro… quatro anos antes de um criminoso golpe de estado, que manteria por vinte anos uma ridícula ditadura militar, no Brasil.
Eu estava no “ciclo cientifico” do Colégio Bennet e, no nosso curso de filosofia, tínhamos estudado (e vivido descobertas e entusiasmos intensos) os movimentos filosóficos europeus, de entre as duas guerras (e passaríamos aos de depois da segunda guerra). O ’personalismo’, a vida, interessando enquanto tal, na arte, no amor e, mais importante, na solidariedade e na amizade, como temas de filósofos, herdeiros de Pascal e das angústias de Nietzsche, franceses e alemães (entre outros, a fenomenologia de Husserl, o ‘dasein’ de Heidegger, e as ‘crises amorosas’ de Kierkegaard).
Culminando o interesse por tais movimentos com o dizer de Sartre: ‘que o existencialismo é um humanismo’. E seria, então, na vida cotidiana que a filosofia iria se fazer, pela escrita, como algo que se dirige à psicanálise. A “ filosofia da pessoa”, trazendo temas como “angústia”, “superação”, se faz movimento intelectual, político e literário de intensas posições e oposições, na École Normale Supérieure, nas ruas, na França e em vários outros países da Europa.
Mais tarde, na antiga faculdade nacional de filosofia da Universidade do Brasil (hoje UFRJ), os cursos de filosofia, sociologia, antropologia, ciência política, história econômica entre todas as outras atividades culturais universitárias (não excluo nunca as conversas de bar), completaram o entendimento das categorias de pensamento que me dirigem a um consenso ou a uma ação contraditória.
Já em Paris, acho que encontrei Simone de Beauvoir, num dia de chuva, no Liberté, um envelhecido bar dos anos 50, no Boulevard Edgard Quinet, onde algum tempo antes tinha encontrado o Sartre tomando um café. (Não era o bar onde ela tinha o hábito de ficar bebendo um chá, lendo, escrevendo ou simplesmente estando: o Deux Magots, em frente à igreja de Saint-Germain des Prés.)
Paris é assim. Encontram-se os ícones de uma ou outra profissão relevante, nas “escolas” ou nas ruas de uma cidade feiticeira. Minha outra “cidade maravilhosa”, onde vivo há 42 anos, sempre surpresa com as emoções que continua provocando em mim.
Reencontrar os romances de Simone de Beauvoir, atualmente, é rever o quão rígida era a concepção burguesa do papel da mulher na Europa, que se tornou hegemônica mesmo desde a Revolução Francesa. E, no entanto, outras concepções competiam contra esta rigidez desde o século 18... deixando marcas importantes na filosofia do cotidiano e efêmeras nas artes, na literatura, mas não nos “costumes” e na moral comum. Um combate contra o moralismo, vil e violento, da “tradição”, como argumento de autoridade, é sempre difícil de ser, ao menos, concebido.
Simone de Beauvoir trabalha sobre a “existência”, vivendo, ao mesmo tempo a dureza de querer indicar caminhos para a igualdade e independência das pessoas, qualquer que seja o sexo, a cor ou a nacionalidade. Sua obra tem um componente autobiográfico importante: e é forte o seu talento em julgar, tratando filosófica e literariamente, o que parece indiscutível, categorizando temas como a educação da jovem mulher, procurando superar o que tomou forma de “naturalidade” na moral dominante. Penso nos temas da escolarização diferente entre meninas e meninos, na obrigatoriedade do casamento como imposição moral à liberdade, no desejo e no amor, na ideia de fidelidade consagrada no juramento religioso, na divisão sexual do trabalho e das remunerações, no papel da mulher que “faz tudo”, na família ou no trabalho, na obrigação sexual, na “vergonha” implícita ao celibato, ao infantamento fora do casamento, ou ao envelhecimento etc.
De tudo ela fez literatura, mas fez também crítica e engajamento em ações políticas de contestação.
Todas as concepções que parecem “normais” nos nossos dias, foram (e ainda são) o fruto de lutas sociais, passeatas, testemunhos difíceis (desde a luta pelo direito de voto até à legalização do aborto) que praticaram todas as gerações do como veio a ser chamado o movimento: “feminista”. No caso de Simone de Beauvoir, o “existencialismo” em filosofia e o feminismo a aproximaram de outros movimentos políticos, procurando participar e aprofundar a coerência institucional e legislativa do “Estado de Direito”, depois da guerra: a prevalência dos Princípios de Liberdade, Justiça e Igualdade de Direitos.
Duzentos e tantos anos de cuidado civil, reflexões e luta, permanentes, para estabelecer uma tão frágil coerência.










