Alexandre Marques Rodrigues
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"Entropia", de Alexandre Marques Rodrigues
Por Flavio Izhaki
Alexandre Marques Rodrigues estreou na literatura com Parafilias, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2014 (categorias contos). O livro ganhou resenhas elogiosas da crítica e foi lembrado nas principais premiações do país (finalista do Jabuti e semifinalista do Oceanos). O autor lança em julho Entropia, primeira investida no romance, e nesta entrevista fala sobre a mudança de registro literário, a pressão de escrever sabendo que será publicado e sobre alguns dos temas mais caros à sua escrita, o corpo e o silêncio.
Uma pergunta inevitável é saber como foi a transição do autor que estreou com um livro de contos para o romancista. Entropia sempre foi um romance na sua cabeça?
A questão das formas literárias, para mim, está relacionada mais a como a história será contada do que ao tipo de história. Entropia podia ter sido um conto, naturalmente. Mas, a forma como eu queria narrar a história impunha que eu escrevesse um romance. Desde o começo, então, Entropia foi pensado e escrito para ser uma narrativa longa. Um romance, em relação a um conto, não apresenta mais dificuldades, apenas outros tipos de desafios.Escrever Parafilias foi tão complexo quanto escrever Entropia.
O narrador de Entropia tem uma dicção particular, um esmero na respiração e no andamento do desenrolar dos capítulos. Como chegou nesta voz para narrar o livro?
A leitura é uma preocupação que tenho quando escrevo, a forma como o leitor avançará pelo livro. O ritmo, o andamento, o tamanho dos capítulos, a estruturação dos parágrafos são componentes que o escritor tem nas mãos para conduzir, ou pelo menos para envolver o leitor. Em Entropia optei por trabalhar os parágrafos de uma forma não muito tradicional, o que pode causar inicialmente algum estranhamento ao leitor. Fiz uso também de notas de rodapé, que desenvolvem a narrativa fora do corpo principal do texto. Acredito que, com isso, consegui dar ao texto o ritmo que desejava.
Como foi a pesquisa para escrever esse romance? Há mergulhos em cidades, profissões (contador, músico) e locais (cemitérios, hotel)...
Minha relação com a música é mais antiga do que com a literatura. No mesmo quarto em que está a mesa onde escrevo, há também um piano em que às vezes me arrisco na composição. Algumas dessas partituras tiveram espaço dentro do romance, também uma parte mais teórica encontrou sua função na estrutura da história narrada.Era uma vontade antiga mesclar esses dois universos e, em Entropia, foi possível fazer isso.
O que acabou exigindo alguma pesquisa foi a criação de Nova Harz, uma cidade ficcional. Estudei o processo de nacionalização das cidades brasileiras de colonização alemã, que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa cidade paralela,espelhada em Blumenau, a história com letra maiúscula não teria atuado com as mesmas forças. Nova Harz tornou-se, ao fim, também um dos personagens de Entropia.
Uma linha que define o livro, no relacionamento das personagens, é o binômio distância-silêncio. Curiosamente você faz a ponte entre dois dos personagens quase apenas por ligações telefônicas em que pouco se diz, em que as pausas ocupam mais espaço do que as palavras, quase como se toda conversa rumasse para o silêncio. Telefone, aliás, que como meio de comunicação parece ter os dias contados. O uso dele é proposital?
O telefone, na sua função original de falar com outra pessoa, é uma invenção cheia de mistérios: a voz de quem está distante soa próxima, torna-se presente no âmbito da ausência. É essa contradição que eu procuro mostrar nos telefonemas entre os dois personagens, o quanto eles estão distantes mas, ao mesmo tempo, há algo muito tênue que os liga, que os une precariamente. Exatamente como em um telefonema, que pode ser interrompido a qualquer momento.
Ainda sobre o relacionamento das personagens, especialmente os que envolvem homem-mulher, o corpo é o vetor de relações que se sustentam quase sobre o nada. O personagem principal do livro tem uma clara questão com o relacionamento homem-mulher que pode estar ligado à mãe dele. Ter estudado psicologia ajudou na elaboração do personagem?
Freud disse que a literatura, muitas vezes, expõe, abre melhor ao entendimento o comportamento humano do que a própria psicologia. Esse talvez seja o único ponto em que concordo com ele. Minha formação de psicólogo influencia menos o que escrevo do que minha experiência como leitor. Mas, é claro, uma das formas possíveis de entender o personagem é tecer essa compreensão a partir de sua relação com a mãe. Não penso que seja a única forma de entendimento, nem mesmo a melhor. Sempre procuro, quando escrevo, apenas pôr diante dos olhos do leitor os personagens, as situações, as histórias, sem criar uma explicação, sem fechar em uma única possibilidade de compreensão a vida ficcional que se abre ali. Seria muito pobre se eu escrevesse o livro inteiro apenas para dizer: a culpa é da mãe.
Com a progressão do romance, a ideia de identidade ganha consistência não somente na trama como no modo de narrar, uma variação de narradores e perspectivas dentro do próprio capítulo. É como se não somente o narrador estivesse empreendendo uma busca, mas o próprio autor, ou, como diz o narrador em dado momento: “Ninguém conhece ninguém, ao fim, ninguém entende nada.” É essa empreitada de desvendar o indecifrável que te interessa como autor?
A literatura é, para mim, principalmente a oportunidade de experimentar variadas formas de ser. Sendo assim, minha preocupação, enquanto escritor, está relacionada mais à exposição de possibilidades do que a solução de enigmas. A multiplicidade de narradores propicia variados modos de ver, de entender as coisas. Mas nenhum ponto de vista precisa se sobrepor a outro. Como autor, me interessa continuar no espanto de não estar entendendo nada.
Na entrevista que deu para Edney Silvestre, no programa “Globonews Literatura”, você detalhou como era sua rotina de escrita, que levantava e escrevia pelas manhãs. Depois do prêmio e com a certeza da publicação, alguma coisa mudou? Como foi lidar com a pressão por um novo livro depois do sucesso do prêmio e dos elogios da crítica especializada?
Ganhar um prêmio literário, ou escrever já com um contrato assinado funcionou para mim mais como um incentivo do que como uma pressão. Minha forma de trabalhar continuou a mesma. O cuidado que tenho com as palavras, o que quero com a versão final do texto é o resultado de um processo muito minucioso, que alcanço apenas com o tempo. Acredito que sou um escritor que precisa trabalhar dentro de uma rotina, diariamente.
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