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Entrevistas +2

"Filhos da América", de Nélida Piñon

05/12/2016
"Filhos da América", de Nélida Piñon
Cláudia Lamego Carioca de Vila Isabel, Nélida Piñon confessa que só recentemente descobriu o sambista de seu coração: o paulista Adoniran Barbosa. “Mestre da oralidade. Um criador que ousou mencionar o nome Iracema, seu grande amor, como pretexto para esclarecer que perdeu o retrato da amada, e dela só restou um sapato. Eu teria dado anéis e brincos para ter escrito esta frase”, escreve a autora, em “Heródoto e a aprendiz Nélida”, que abre seu novo livro, de ensaios, “Filhos da América”. Neste texto que é quase a introdução para um testamento de sua vida e obra, Nélida discorre sobre suas origens, as influências literárias que marcam as suas narrativas ficcionais, a inspiração na família e amigos para criar seus personagens e, entre outras, a relação que mantém com a sua dupla cultura: a brasileira e a galega. Nos 28 textos que compõem a seleta, Nélida escreve ainda sobre Machado de Assis e José de Alencar, escritores que ela considera como dois dos principais intérpretes do Brasil na literatura, sendo Machado o que se sobressai, inclusive em outros ensaios do livro; perfila a atriz Marília Pêra, exalta a escrita de Rachel de Queiroz, saúda a chegada de Antônio Torres à Academia Brasileira de Letras e, entre outros temas, homenageia a amiga Carmen Balcells, que morreu em 2015 e foi agente literária dos maiores escritores da América Latina, entre eles os também amigos de Nélida Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Julio Cortázar. Neste que também é um livro sobre memória, Nélida rende tributos à literatura ibero-americana, passeia por sua Galícia da infância e a que restou na vida de seus parentes que com ela vieram para o Brasil, recorda os caminhos que a levaram a escrever livros como “A república dos sonhos”, sobre imigração, e “Vozes do deserto”, sobre as narrativas árabes, que tem Scherezade como protagonista.   No primeiro ensaio de “Filhos da América”, você dá início a uma espécie de inventário de sua formação e de sua obra. Nele, fala sobre a proximidade do fim da vida e parece desejar deixar para os leitores uma espécie de “testamento” de sua trajetória. Como surgiu a necessidade de escrever este novo livro? A literatura nasce de uma aventura pessoal, dos impulsos da tribo, de imposições coletivas. Da transgressão às leis da inércia, da consciência da morte, da necessidade de perpetuar o que é transitório, de reagir a uma ordem social que decreta a vida como um bem fugaz, um simples resumo biográfico. Portanto, habilito-me a acrescentar a este resumo biográfico as narrativas, as maravilhas, as lendas, os mitos, as versões contraditórias da realidade, tudo enfim que diz respeito à espécie humana. Como filha de Homero, de Shakespeare, de Cervantes ou de Camões, lhes sigo as pegadas, usurpo suas imaginações, faço da civilização legado que a mulher também erigiu. Assim, com a cultura a tiracolo, busco os enigmas da condição humana e ausculto segredos, o arfar da língua, o mistério da ambiguidade, a arte poética. Tudo que é inerente à pátria do coração humano. Sinto-me às vezes imersa em uma placidez quase ameaçadora. A exercer o direito de me isentar de prestar contas dos meus sentimentos, de tornar públicas minhas admoestações relativas às impiedosas normas da contemporaneidade. Reflito sobre a banalidade metafísica e cósmica e dou-me conta do quanto é penoso ser mortal. Portanto enveredo pelas trilhas traiçoeiras do pensamento é sujeitar-me a incomoda finitude humana, ao silêncio que apaga de vez meu alvoroço verbal, a tudo que amealhei ao longo das estações. De nada valendo pedir prorrogação dos dias, ou fazer valer meu falso protagonismo. Avancei pela criação do FILHOS DA AMÉRICA superando os pedregulhos da linguagem. Enquanto atada a conceitos estéticos, ia fazendo um balanço da existência, sem fugir das lembranças pungentes. Levava-me a fome pela vida que ainda me sobrava. Via-me em um espelho realista que em geral contrariava meus interesses. Não queria ser Nélida, a escritora, mas antes a vizinha dos demais. Associada aos sinais imperceptíveis do cotidiano é serva das turbulências humanas . A mulher que arde como uma sarça ardente. Para o livro tinha à disposição um repertório criativo desafiante. Ciente, porém, de não haver soluções na criação literária, mas interdições. O próprio ato de pensar propunha-me uma zona de sombras onde o mistério se refugiava, para eu não o alcançar.   O livro tem temas recorrentes, como as suas formas de apreender o mundo para narrá-lo com suas histórias e personagens, mas também ensaios sobre escritores brasileiros, como Machado de Assis e José de Alencar, mexicanos como Juan Rulfo e cubanos como Cabrera Infante, além de textos sobre Rachel de Queiroz, a atriz Marília Pêra e a agente e amiga Carmen Balcells. Como foi o processo de organização da obra? Você tinha alguns textos e desengavetou ou começou a escrever sabendo que ia juntá-los no livro? Quando se põe um ponto final num livro assim, com tantas possibilidades de alargamento? O texto literário resiste à primeira leitura. Para desbravá-lo há que ir a sua retaguarda em cujos escaninhos se alojam os saberes que a imaginação produz. Com a rebeldia da própria criação, com os desdobramentos estéticos do universo narrativo. Evitei institucionalizar o que eu contava, não queria registrar o pensamento a partir de uma cátedra. Só queria a explosão do verbo, conviver com a história do mundo, com os recursos provindos da invenção. De uma riqueza diante da qual sou cega, surda, afásica. Como escritora, respondo pela minha imperícia e imprudência. Cabe-me o destemor de retificar a escritura em que estágio esteja, desbaratar a palavra. Valorizo a arte que altera, poda, acrescenta ao poliedro narrativo o que antes não existia. Acata as versões que se seguem até ter o prazer lúdico de vir a dominar a escrita. Afinal a criação não é em si pedagógica, seu ímpeto não educa. Eu mesma vivo na expectativa de uma estética que em prol da beleza textual acata acertos radicais. Enquanto me assombra as fímbrias da narrativa advinda de árdua colheita. Escavo o terreno baldio à procura de uma raiz poética. Sujo as mãos enquanto empresto minha carne verbal para descrever o próximo, que é minha réplica. Aspiro familiarizar-me com as fundações do mundo. Considero a aventura humana magnífica, mas seus argumentos são secretos. Diante deste quadro, invento, que é a minha maneira de afrontar a realidade. E ao contabilizar os bens humanos, a história que conto ultrapassa o epílogo. Ainda assim não cesso de questionar o alcance da arte, com a esperança de que frase da minha lavra seja poética. Mesmo na cozinha, ao pé do lume e das panelas, descascando as batatas, inventario a vida. Em tal cenário acaricio os objetos próximos, alguns inúteis. Tenho pena de um dia deixá-los em mãos estranhas. Cada um deles encarna os seres que amei. Em conjunto fazem parte de meu enredo. Eu sou, inteira, um espetáculo. O pano de fundo do meu teatro como que detalha minhas características. Ali me encontro em meio aos acertos e fracassos. Meus preciosos bens.   Num dos textos, você diz que é uma “mulher de duas culturas”, tendo sido forjada em solo brasileiro e também catalão, para onde se mudou com dez anos e com o qual mantém uma relação visceral, seja pelas memórias, seja pela permanente tentativa de entendimento desse mundo por meio de seus familiares que vieram morar no Brasil. Duas culturas parece pouco para uma escritora que leu todos os clássicos, que bebe na fonte dos gregos e dos cânones literários do Ocidente, que estudou profundamente a cultura árabe para fazer “Vozes do deserto”, que transita entre o popular e o erudito com a facilidade de quem nasceu em Vila Isabel e cresceu assistindo aos concertos de música clássica e óperas no Municipal, que viaja pelo Brasil, mas não para no país, circulando pelo mundo com frequência. Quais são as coisas que ainda te movem e comovem? Certo espírito que ora me inquieta reflete-se no cotidiano literário. Presente nos textos atuais, registro no FILHOS DA AMERICA a minha estética narrativa, minha renovada aliança com culturas milenares que foram alicerces do meu imaginário . Desde cedo fruí da escritura alheia e da minha, em graus variados. Ah, como foi um martírio a minha curiosidade. Meu contínuo esforço em galgar as pirâmides, o Anapurna, a cordilheira dos Andes, meus patamares estéticos. Paragens onde iriam desaguar os saberes. Como lutei para não ir ao solo. Talvez estes FILHOS expressem mudanças sofridas. Eu bem sei quais foram. Pressinto que cada frase do livro superou minhas intenções iniciais. Quisera ter fracassado, porque peco por ser frondosa. Nunca fui franciscana. Sou quem visita o avesso e as vísceras das frases. Que horror. E tudo na ânsia de transmitir ao leitor meu derradeiro frêmito.   Complementando a pergunta anterior, no ensaio sobre a importância de Machado e Alencar para a literatura brasileira, principalmente como os dois, cada um em seu estilo, forjaram uma literatura nacional e moderna, você lamenta que hoje o mercado esteja ditando as regras, exercendo um “arbítrio estético” preocupante sobre os autores. Queria saber o que você tem acompanhado da produção nacional e se tem tido oportunidade de conversar e dar conselhos, como o do texto quando diz que “convém se acautelar com o cosmopolitismo artificial que prega aplausos e contratos maquiavélicos em troca da alma narradora”. Somos homens e mulheres que prolongam a narrativa. O talento e os recursos que ambos os gêneros apresentam nos igualam. Como explicar que Flaubert ao compor Bovary disse: je suis Emma. Acaso há uma literatura masculina e feminina? Claro que tal constatação seria uma negação da arte. O que há são idiossincrasias individuais, a mirada peculiar, as genealogias espirituais e contraditórias, a gênese criativa de cada qual, sua capacidade de fabular e desmoronar o mito. Sobretudo uma sensibilidade quase exótica que nos leva a ver o mundo com uma visão construída através de uma vida pessoal e de uma herança que se perde na noite dos tempos. No caso da mulher, ela leva na sua psique os milênios em que foi subjugada, humilhada, foi escrava, desfalcada de direitos e do respeito. Vítima do uso da força que ela não tinha. Acredito, portanto, que a mulher poderá adicionar à sua criação um certo impressionismo advindo de seu enredo coletivo. Uma sensibilidade que talvez imprima marcas na sua atuação criadora. Constato o perigo que corremos todos nós, escritores, sob a pressão de um mercado implacável. E quando menciono “mercado” poderia estender o conceito. Sua aplicação a envolver a sociedade como um todo. Há tantas razões para sofrermos transtornos que afetam a absoluta liberdade estética. Com leveza destaco algumas: - A pressa de publicar afim de adquirir a soberania da escrita oficial. - Ser reconhecido como escritor em uma sociedade que viver no anonimato é uma afronta, razão de padecimento. - A ocupação de vazios devidos à ausência da tradição literária, à falta de cultura consolidada o que exige concentração intelectual, a dispersão verbal, a desatenção em relação à fala do outro, a impaciência em ler. Os próprios escritores leem pouco. Tendem a ler seus parceiros generacionais e se descuidam dos grandes mitos do passado, ou mesmo daqueles que ainda vivem. Como se o autor consagrado, com mais de 50 anos, espécie de criatura medieval pode ser considerado ultrapassado, deve falecer o mais rápido possível para dar passos aos mais jovens que tem fome de espaço. - O século vinte é uma metáfora do universo eclipsado, já não tem mais razão de ser reverenciado. Prevalece a pressa em publicar. Além de carecer da sobrevivência, o que é indispensável. Para ser reconhecido, para ter um ofício bem-sucedido, que lhe garanta a subsistência. E também porque prevalece o sentimento da transitoriedade dos feitos humanos. Portanto logo também você será substituído pelo querem ao seu alcance. Também não capto o ideal quase romântico de vir a construir uma obra que leve décadas. Um esforço ingente mediante o qual se consolidada uma longa narrativa, uma viagem extraordinária pela construção estética Mil outras razões que poderíamos discutir em outro momento E confirmo o que inclui no livro. Tenho sido jurada de vários prêmios, o que me permite conhecer a melhor produção dos mais jovens. Quando conversamos, uso da sinceridade que me é natural, mas não posso ser impositiva. Mas também não me esquivo de opinar quando solicitada.