Christoph Türcke
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"Hiperativos", de Christoph Türcke
Por Olga de Mello
O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é uma disfunção orgânica ou um comportamento que responde a pressões sociais diversas e que a indústria farmacêutica mantém sob controle? Estas questões, que o filósofo Christoph Türcke têm observado desde os anos 1990, são levantadas em Hiperativos! Abaixo a cultura do déficit de atenção, no qual ele discute o conceito de doença diante de uma sociedade que estimula a “interrupção contínua” – o que alimentaria a falta de atenção. No lugar de medicamentos para combater o TDAH, Türcke propõe a educação de estudantes e dos pais, que muitas vezes preferem um diagnóstico de transtorno a enfrentar sua própria incapacidade de criarem os filhos.
Para Türcke, a ênfase das repetições e rituais dentro de uma nova disciplina no currículo escolar, o “estudo de ritual”, promoveria a imersão e concentração dos alunos, além de fortalecer valores e a discussão da diversidade social, que também seria levada aos pais, em apresentações de pequenas peças produzidas pelos estudantes. Professor emérito da Escola de Artes Visuais de Leipzig, na Alemanha, Türcke morou no Brasil por dois anos, quando foi professor convidado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade seria um fenômeno passageiro, fruto de um momento em que a sociedade valoriza a capacidade de desempenhar diferentes tarefas, conjugando conhecimentos diversos e várias habilitações?
O TDAH não vai desaparecer em favor de outra doença da moda. Se não houver intervenção, vai crescer. A estrutura básica da sociedade atual faz com que vivamos em desvio de atenção contínua. Não falo do TDAH como se fosse uma doença num sentido tradicional, de organismos que adoecem em ambientes saudáveis. Doença, no senso estrito, o TDAH não é. Ele é resultado de certas circunstâncias sociais, de uma cultura de interrupção contínua. A interrupção é uma das situações mais frequentes que vivemos, num ambiente em que o TDAH cresce.
Considerado um problema orgânico, o TDAH tem sido combatido com medicação que melhora a concentração necessária aos estudos, o que atende ao desejo dos pais de muitos estudantes. Essas famílias estão preocupadas com o fracasso dos filhos ou são induzidas ao uso de remédios pela indústria farmacêutica?
Às vezes, os pais se satisfazem com o diagnóstico do filho ter uma doença, pois ficam isentos de sua própria responsabilidade à frente da família. É fácil procurar um terapeuta ou um médico para resolver uma doença. E as coisas se combinam: interesses da indústria farmacêutica, de uma ciência médica bem limitada, e o dos pais que não querem assumir a responsabilidade devidamente. Ninguém está preocupado com o contexto geral, estamos submetidos a interrupções frequentes e somos estimulados a considerar a atenção fragmentada como uma qualidade. A indústria farmacêutica atende a essa figura lendária da pessoa multitarefa, que só existe na fantasia.
No mundo profissional há uma tendência a exigir que o trabalhador comprove sua capacidade de incorporar diferentes funções, de desempenhar várias tarefas – e as pessoas têm correspondido à demanda. Há uma nova geração menos atenta, talvez, mas com este perfil de diversas habilidades?
Estão propagandeando isso como uma habilidade de um novo super-homem, quando, na verdade, ocorre o oposto. Ninguém é capaz de fazer três coisas ao mesmo tempo com igual dedicação. Sim, é possível lavar a louça e ouvir música. É possível ouvir música e lavar louça , alguns dos meus alunos precisam da música para pintar, mas a dedicação neste caso é para a imagem. A música os acompanha. Eles não imergem na música da mesma forma que no desenho. A assim chamada multitarefa não é uma conquista da nova sociedade microeletrônica como uma nova capacidade humana das novas gerações. A partir de 1990, quando o mundo vivia uma revolução de ideias, com a queda do Muro de Berlim e o fim do assim chamado socialismo real, houve a ascensão da microeletrônica, que passou a fazer parte do cotidiano do homem comum. Com ela, começa essa desatenção, estimulada por essa necessidade incessante de, a todo instante, termos uma novidade cultural, tecnológica, científica, que acabou redundando num comportamento quase infantil, imaturo, sempre na expectativa de novidades, de uma excitação constante.
Cada vez mais os professores utilizam computadores e enviam material para os estudantes por smartfones, buscando tornar as aulas mais dinâmicas. Há alguns, até, nas universidades, que pedem aos alunos para não tomarem notas durante as aulas, já que eles receberão o conteúdo virtualmente. Essas estratégias ajudam a manter o interesse ou dispersariam ainda mais a atenção?
Há gente que simplesmente não tem atenção para nada, mas consegue se interessar por um jogo no computador, enquanto interage com outras pessoas que estão on-line. Isso é interesse. Atenção humana, no entanto, é a capacidade de se fixar em alguma coisa. Eu dou aulas com mais de 90 minutos de duração sem intervalo. E aos que pedem apostilas com o conteúdo, eu aviso que quem tiver mãos saudáveis, trate de anotar. Minha proposta, que está neste livro, é que a escola, desde as turmas do Ensino Fundamental, adote uma metodologia que incentive a repetição, o conhecimento de rituais. O aluno internalizará esses rituais e valores éticos, gradualmente, analisando questões éticas, ciências sociais e religiões. Seria uma disciplina nova, abrangente, sem qualquer intenção confessional, mas que daria ao aluno capacidade de conhecer a cultura de outros povos, como os refugiados que hoje migram para tantos países europeus, dentro de um pensamento orientado, que minimize a fragmentação da vida escolar.
A televisão já foi o aparelho mais condenado da sociedade, por deixar o espectador inerte em frente à tela. Hoje, o mesmo se diz do computador. O senhor concorda com esse papel alienante que se atribui às máquinas?
Claro que ninguém escapa mais da tecnologia. Tudo é uma questão de dosar o uso, de lutar contra a dependência. Eu também perco a concentração em frente a uma tela, paro o que estiver fazendo para ler e-mails e deixo o trabalho de lado. O computador é fascinante, mas estimula esse estado de inquietude perpétuo. Por isso, eu também procuro ficar distante, me manter off-line, ao menos em viagens. Precisamos descobrir o prazer da abstinência.
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