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Mães: sua fantasia de fugir é completamente normal
Por Gayle Forman
"Eu tenho fantasias com isso". Essa é a resposta que ouvia repetidamente ao dizer às amigas que estava escrevendo um romance sobre uma mãe que trabalha demais, cujo estresse já passou do limite e que, depois de um ataque cardíaco e uma cirurgia de ponte de safena, decide fugir.
Elas me diziam isso entre sussurros, e diversas vezes. Uma mãe se imaginava ficando no trem em vez de descer em sua estação; outra pensava em dirigir em direção ao pôr do sol em vez de ir pra casa fazer o jantar.
Absolutamente todas as mães com quem eu falei sobre meu livro compartilharam esse tipo de fantasia comigo.
Nenhum pai o fez.
Isso diz muita coisa.
Embora as mulheres representem quase metade da força de trabalho, quando se trata deste segundo turno, de levar as crianças para as atividades pós-escola, cozinhar o jantar, agendar consultas médicas, tomar a frente nos dias que ficam doentes, isso ainda tende a ser feito pela mãe.
Ah, eu sei que os pais estão mais envolvidos do que nunca. Eles trocam fraldas! Eles lavam roupa! Comparados aos pais de outras épocas, que só fumavam cachimbos e pediam seus chinelos, eles são uma melhora e tanto.
Mas, de acordo com uma pesquisa do Working Mother Research Institute, as mães ainda fazem mais, mesmo que os pais pareçam compreender que eles também deveriam fazer. De acordo com um outro estudo de pesquisadores da Boston College, mais da metade dos pais acredita que o cuidado com os filhos deveria ser uma responsabilidade compartilhada; mas apenas 30% sentem que esta função é realmente dividida igualmente entre as partes.
Isso faz todo sentido para mim. Eu conheço vários pais ótimos, que acreditam ser seu direito e obrigação estar envolvidos com os filhos. Mas que teriam dificuldade em dizer qual é o nome do pediatra, ou ainda por que Sophie e Isabel não podem mais brincar juntas. E, tudo bem, talvez eles não precisem saber. Mas alguém precisa. E, por padrão, essa pessoa normalmente atende pelo nome de Mãe.
Isso significa que muitas mães hoje em dia precisam lidar não só com toda a pressão do trabalho, mas também assumir a responsabilidade pela casa. A maioria das minhas amigas mães são uma espécie de controladoras de voo, administrando a logística da família, e também terapeutas, gerindo as emoções da família, e, ah, claro, elas também são no mínimo parcialmente responsáveis financeiramente pelo bem estar da família.
Então, é de se espantar que em uma pesquisa promovida pela Forbes em 2011, 92% das mães que trabalham diziam se sentir “sobrecarregadas” com os deveres do trabalho e da casa, e 62% delas informaram se sentir como “uma mãe solteira casada”? Em um estudo mais recente da Pew, 59% dessas mulheres diziam não ter tempo suficiente para o lazer.
Neste contexto, talvez o mais surpreendente não é que tantas mães fantasiem com a fuga. O surpreendente mesmo é elas não colocarem a fantasia em prática.
Mas não colocamos, claro. Amamos nossas famílias. O impulso de fugir tem menos relação com o desejo de abandonar toda a responsabilidade, e mais com a ideia de ir a algum lugar, só por algumas horas, onde as necessidades de mais ninguém sejam prioridade. É sobre a ânsia de ter um lugar só para si.
Isso nos leva de volta aos pais e por que eles parecem não ter a fantasia de fugir. Talvez seja porque eles não precisam. Eles podem estar tão sobrecarregados e apressados quanto as mães – e, inclusive, a pesquisa da Pew indica que metade dos pais dizem não ter tempo de lazer suficiente – mas eu suspeito que quase todo pai, quando sai por algumas horas para ir a academia, assistir a um jogo ou beber uma cerveja, se desliga de verdade. Eles não assistem ao jogo e ao mesmo tempo se preocupam por que o filho voltou a fazer xixi na cama. Eles não se sentem culpados por assistir ao jogo. Eles não ficam obcecados por achar que o xixi na cama é, de alguma forma, sua culpa.
Nós, mães, nos preocupamos.
Embora tenhamos percorrido um longo caminho desde os anos 1950 e aquela estrutura patriarcal conservadora, alguns vestígios dela permanecem. Tanto institucionalmente (com essa insistente diferença de salários que relega as mulheres a posições menores) quanto socialmente, com a também insistente presunção sobre qual dos pais deve ser o principal responsável pelas crianças (dica: é aquele que tem uma vagina). Outro estudo recente da Pew Research sobre as famílias americanas é revelador. Um terço dos entrevistados disse que é melhor para crianças pequenas se suas mães não trabalharem fora de casa. Não houve nenhuma estatística sobre os entrevistados acharem melhor que os pais não trabalhem fora de casa.
Então, as mães sabem que espera-se que elas sejam as únicas no convés. Como resultado, elas acabam sendo de fato as únicas no convés. Pedir ajuda é difícil. Não se sentir culpado por aceitá-la é ainda mais difícil. É difícil ignorar quando nos é dito, seja de forma sutil ou agressiva, que é nosso trabalho cuidar da família, e que esse trabalho é mais importante do que todo o resto. Que somos abençoadas.
Isso pode até ser verdade, mas quando você está tentando ajudar uma criança frustrada com o dever de matemática, fazer o jantar e, ao mesmo tempo, responder àquele email urgente do trabalho, abençoada não é bem a palavra que vem à mente.
A família é importante. Mas o trabalho também. E os amigos também. E dormir também. E ter um tempinho pra sonhar acordada, cantar junto uma música da Beyoncé, ou não fazer simplesmente nada de útil. Acho que a maioria dos pais entende isso, porque eles não passaram a vida inteira ouvindo todo tipo de mensagem sugerindo que eles deveriam se sacrificar totalmente, em todos os momentos, e a qualquer custo, pela família.
Esse é um padrão impossível ao qual muitas mães que trabalham (ou só mães, na verdade) são submetidas. É um padrão ao qual muitas mães tentam se submeter elas mesmas. Alcançá-lo não apenas é impossível, mas também não é bom para as famílias ter uma mãe ressentida, estressada ao extremo, tentando ser perfeita (sem contar o tipo de comportamento que acaba servindo de modelo para nossos filhos). É hora de deixar para lá essa mãe idealizada, que na verdade nunca existiu, e começar um momento em que as mães aprendam a pedir ajuda, aceitar ajuda e – essa parte é mais difícil – sentir que merecem ajuda. Talvez então, consigamos parar de pensar em fugir e possamos começar a fantasiar outras coisas, como creches subsidiadas acessíveis.
(*Publicado originalmente na revista Time. Tradução livre)
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