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Muito além das french fries
Por Henrique Rodrigues
Nos últimos dias, participei de uma sequência de programações literárias na Cidade Luz, dentro do Printemps Littéraire Brésilien, promovido pela Sorbonne. Depois de dez anos da publicação do meu primeiro livro solo (“A musa diluída”, pela Record), e outros 10 títulos lançados, fiquei bastante feliz por ter meu trabalho reconhecido em outras terras, graças a Leonardo Tonus, coordenador do Departamento de Estudos Losófonos da universidade, professor que acompanha de longe, e com olhar de águia, o que vem acontecendo na cena literária brasileira contemporânea.
Na primeira atividade, lancei meu romance “O próximo da fila” no Salon du Livre, dentro do estande do Brasil, aproveitando para falar um pouco sobre a situação da leitura no Brasil. Algumas pessoas se espantaram quando lembrei que vivemos num país com 75% de analfabetos funcionais (números mapeados pelo INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional). Se são tantos indivíduos incapazes de retirar sentido de um texto funcional, como esperar que leiam espontaneamente textos literários mais complexos? Como suprir a lacuna histórica que nos fez saltar do auditivo para o visual, relegando ao livro um caráter de luxo desnecessário? Para mim, é impossível como cidadão pensar a literatura desconsiderando esse quadro que me cerca, e a única certeza é a de que temos muito trabalho pela frente.
Fomos num grupo de 30 escritores das mais variadas vozes e estilos. O professor Tonus foi muito feliz ao optar pelo caminho da diversidade. Por falar nisso, aproveitei para apresentar o Prêmio Sesc de Literatura, projeto que tenho o privilégio de coordenar, e que talvez seja uma das mais importantes fontes de novas vozes literárias brasileiras, uma vez que os autores ganham unicamente pela qualidade do texto, de forma totalmente democrática. A escritora Lucia Bettencourt, descoberta pelo projeto em 2005 e hoje com uma sólida (ou líquida, uma vez que ela vem produzindo belos e diferentes livros?) carreira, estava ao meu lado representando todos os vencedores do Prêmio. Descobri que não existe, também na França, um projeto como esse.
Participei de outra mesa na Sorbonne sobre as possibilidades de trabalho da literatura com outras artes. A arte da palavra possui flexibilidade para se derramar sobre outras interfaces estéticas, permitindo casamentos felizes e criativos com artes visuais, dança e, naturalmente, a música. E me lembrei de como foi lúdico e apaixonante o processo de organização das duas antologias de contos inspirados no rock da Legião Urbana e dos Beatles (“Como se não houvesse amanhã” e “O livro branco”, respectivamente).
Por fim, visitei uma escola, o Lycée Sophie Germain, que trabalha com o equivalente do nosso Ensino Médio. Parte dos alunos tinha saído para uma manifestação, o que já é importante nesse momento em que o mundo ferve – no dia anterior, dezenas de pessoas haviam sido mortas num atentado em Bruxelas, trazendo de volta a tensão do que ocorreu em Paris ano passado. Ver que estudantes tão novos estão engajados no que acontece fora da escola é animador, especialmente na França. No histórico maio de 1968, os jovens foram protagonistas que mudaram os rumos do país, ao lutar por mudanças educacionais. Mas fomos muito bem recebidos pelos alunos que escolheram conversar conosco. Alguns deles, optantes por estudar a língua portuguesa, ouviam atentos as nossas histórias dentro e fora dos livros.
E se pude deixar algum recado foi sobre a importância de trabalhar e não desistir daquilo com que se sonha, especialmente quando almejamos seguir um caminho diferente do que a maioria escolhe. Lembrei que não gosto de me ver como uma exceção, nesse clichê de “sucesso” do atendente de lanchonete pobre que virou escritor etc, mas que tento trabalhar para que alcançar os objetivos seja possível para a maioria, não apenas um ou outro privilegiado. Na saída, foi emocionante ouvir de uma jovem aluna que ninguém tinha dito essas coisas para ela ainda, e que nunca iria se esquecer.
E é com esse pensamento que volto para casa, me alternando entre os dois lados desse balcão da leitura – que tem, felizmente, uma fila imensa esperando para ser atendida.
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