"Mundos de Eufrásia", de Claudia Lage
16/01/2017
Um homem faz um pacto com sua filha, no leito de morte: o de que ela nunca poderá se casar. Nos anos seguintes, essa mesma mulher desafia os costumes do século 19 e alcança enorme êxito no mundo dos negócios. Também vive um romance intenso e conturbado com Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista. Essa mulher é Eufrásia Teixeira Leite, personagem real que teve sua história recriada por meio da ficção, dando origem ao romance de estreia da escritora, roteirista e professora Claudia Lage.
Publicado em 2009, Mundos de Eufrásia surpreendeu a crítica e os leitores com sua trama densa e sua forma original de enlaçar ficção e fatos históricos. Ganhou uma legião de fãs. A questão feminina e a questão racial, centrais na narrativa, se enredam a temas como a dificuldade das relações familiares, a força do desejo e a opressão social que atravessa os séculos. Não à toa, o livro ganha, agora, uma nova edição, ecoando para a atualidade os dilemas sociais que, tão marcantes naquele século 19, ainda perduram e se renovam. Um deles, tão caro a Mundos de Eufrásia, são os entraves à emancipação feminina.
“Os espaços pelos quais o romance passa – o trabalho, o amor, a família, a casa e o corpo da mulher – estão sempre em risco, sob ameaças e privações constantes. Se eu fosse escrever hoje sobre a emancipação feminina, depois que estouramos a bolha do silêncio e do constrangimento dos últimos anos, seria com a consciência de que mal começamos, ainda há muitas histórias para contar a partir das nossas vivências e do nosso olhar sobre o mundo”, afirma a autora, nesta entrevista.
'Biografia romanceada', 'folhetim', 'romance de época'. Quando foi lançado, Mundos de Eufrásia foi definido de muitas formas. Como você descreveria a obra, em poucas linhas?
Na época, percebi certa dificuldade de parte da mídia em lidar com um livro de ficção escrito a partir de dados biográficos e históricos. Essas denominações que você citou demonstram isso, mas Mundos de Eufrásia é um romance. Não é nem mesmo um romance histórico, como também foi algumas vezes denominado. A História nem a Biografia estão em primeiro plano, longe disso, são elementos que utilizei no processo criativo, como ponto de partida e inspiração, na construção do universo, dos personagens, da respiração e da atmosfera do livro.
O livro foi muito elogiado pela crítica. As avaliações e matérias jornalísticas celebraram a originalidade, a trama densa e o potente trabalho de pesquisa — e de fabulação — que o livro revela. Quais são suas memórias mais marcantes do processo de criação? Como foi a experiência de ter a ideia inicial para a história, pesquisar, tramar, narrar e, depois, conviver com o pós-publicação?
Foram seis anos intensos. De muita leitura, escrita e reescrita. Quando conheci a história da Eufrásia Teixeira Leite, me senti imediatamente conectada a ela e àssuas diversas camadas: a questão feminina, a questão racial no Brasil, as relações familiares, o peso da grande História sobre as vidas dos personagens. Por outro lado, foi desafiante encontrar como essa história ia ser contada, por meio de qual estrutura e possibilidades criativas. Cheguei enfim a uma estrutura temporal espiralada, feita de cortes no espaço-tempo, e a um cruzamento de narrativas, nas quais as subjetividades dos personagens são atropeladas e interrompidas pelas demandas externas.
O romance tem seguido um caminho gratificante desde o lançamento, em 2009, até inesperado, visto as dificuldades que o livro encontra no Brasil. O relançamento é uma grande alegria, mas o melhor de tudo é saber dos leitores, que o livro tem alcançado as pessoas.
Qual sua relação com Mundos de Eufrásia, hoje? O que te alegra e o que te perturba? Você fez alguma alteração, para essa nova edição?
Tenho grande carinho pelo romance. Lembro que quando escrevia o meu primeiro livro, A pequena morte e outras naturezas, de contos, meu grande interesse eram as questões estéticas. Não que o tema não fosse importante, mas eu estava envolvida mais com o como se escreve do que como que se escreve, muito por conta de uma ideia recorrente de que tudo já foi escrito e dito, de que é a forma que singulariza o autor e o seu texto. Nesse fluxo, escrevi cada conto experimentando formas e vozes narrativas totalmente diferentes. No romance, mantive esse interesse estético, mas com o pensamento vívido de que não, não mesmo, nem tudo já foi dito, nem tudo já foi escrito, ainda há muito a se dizer e a escrever. Além da questão estética, que permanece, sobre o que escrever, para mim, se tornou muito importante também.
Não fiz nenhuma alteração porque compreendi que tanto as qualidades como as fragilidades do romance não me pertencem mais, fazem parte do livro, e dizem respeito à autora que eu era ao escrever, há sete anos, no mínimo. Qualquer alteração agora seria feita de um lugar muito distante do momento original e daquele envolvimento com a escrita e com aquele universo. Relendo, encontro coisas que poderia mudar, preferi, porém, deixa-lo imperfeito mas preservar aquela energia e densidade da hora. Claro, posso mudar de ideia a qualquer momento (risos).
Emancipação feminina e racismo são dois temas centrais a este romance. Escrever sobre eles, hoje, seria de algum modo diferente do que foi encará-los na década passada?
A questão feminina, principalmente, esteve adormecida na minha geração. Lembro de escrever Eufrásia com esse sentimento, de que havia um grande hiato entre as mulheres do século XIX, de parte do século XX e as minhas contemporâneas. Era a ilusão de que as conquistas já estavam feitas. Por meio dessa ilusão, se criou um silêncio a respeito das nossas vivências, em que o patriarcado se renovava e se estabelecia, de forma diferente das décadas anteriores. Mas pouco se falava sobre o assunto, pouco se discutia, o termo ‘feminista’ era constantemente ridicularizado quando vinha à tona. Havia um constrangimento. Como a minha mãe sempre foi feminista, esse olhar sobre o mundo e as relações era natural para mim. Então escrever este livro neste contexto tinha também este significado: é preciso falar sobre isso, é preciso escrever sobre isso. Eu via a postura de Eufrásia na vida profissional e amorosa como uma grande metáfora da trajetória feminina. Mesmo conquistando tanto, como ela, uma mulher branca e rica, conseguiu, ainda se perdeu muito. A perda é signo recorrente. Os espaços pelos quais o romance passa – o trabalho, o amor, a família, a casa e o corpo da mulher – estão sempre em risco, sob ameaças e privações constantes.
Se eu fosse escrever hoje sobre a emancipação feminina, depois que estouramos a bolha do silêncio e do constrangimento dos últimos anos, seria com a consciência de que mal começamos, ainda há muitas histórias para contar a partir das nossas vivências e do nosso olhar sobre o mundo.
Sobre o racismo, conhecer a obra de Joaquim Nabuco, escrever sobre ele, me fez pensar o tempo todo sobre o nosso país, o quanto somos e fomos formados pelas relações raciais, e o quanto não nos responsabilizamos por isso. A nossa história e como lidamos com ela nos trouxe até aqui. A frase célebre de Nabuco: ‘a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil’, infelizmente, se torna a cada dia mais atual, transmutada nas mais diferentes formas e mentalidades. Se fosse escrever sobre o racismo hoje, seria a partir dessa frase e dessas transmutações.
O feminismo parece vir conquistando novo vigor nos últimos tempos. Quem são as Eufrásias da atualidade?
De certa forma, somos todas nós, porque ainda vivemos os mesmos dilemas, a luta pela parceria no amor, no trabalho, na rua, na cama, na liberdade de escolhas. O que me chama muita atenção é que, diferente da minha geração, as meninas da nova geração têm uma firme consciência de seus direitos, o que Eufrásia também tinha.
Você foi roteirista da novela 'Lado a Lado', escrita em parceria com João Ximenes Braga, e que ganhou o prêmio Emmy. A novela foi ao ar entre 2012 e 2013, ou seja, poucos anos depois do lançamento de seu romance. Mundos de Eufrásia abriu caminho, de alguma forma, para a trama da novela global?
Durante a pesquisa para Eufrásia, me deparei com as primeiras jornalistas, do século XIX e início do XX, que, para escrever fora dos jornais femininos e dos temas domésticos, utilizaram um pseudônimo masculino, na intenção de serem publicadas e valorizadas como jornalistas. A própria George Sand, que está em Mundos de Eufrásia, fez isso também, na França. Esse foi o ponto de partida para criar a Laura, uma das protagonistas de Lado a Lado. Outro aspecto é que, em Eufrásia, há um embate entre os gêneros que se torna inconciliável. Enquanto ela queria a igualdade e parceria na relação, Joaquim Nabuco queria que os papéis femininos e masculinos seguissem o padrão da época, quer diz, a mulher totalmente subordinada ao marido. No romance, esse foi o ponto incontornável entre eles, já que ela nunca abriu mão de sua independência e autonomia, mesmo pagando um preço caro por isso. Na novela, pensei em fazer o oposto, um casal que estivesse próximo a esse desejo de parceria. Que a trama deles estivesse vinculada o tempo todo a esse desejo dos dois e aos obstáculos internos e externos para essa realização.
Você ainda é professora de literatura? Como a experiência em sala de aula influencia a criação literária - e vice-versa?
Parei de dar aula de literatura na medida em que meu trabalho como roteirista foi tomando meu tempo, mas sinto muita saudade da sala de aula. Continuo ministrando cursos de criação literária, conto e romance, na Estação da Letras. É uma forma de pensar e repensar constantemente a literatura, de estar sempre em questionamento sobre a ficção e suas possibilidades.
Como está sua produção literária? Quais os projetos atuais?
Estou terminando um romance, que comecei em 2010. O protagonista é filho de guerrilheiros da ditadura brasileira, desaparecidos durante a militância política. Ele pouco sabe sobre os pais, e tenta, por meio de relatos, livros, etc, reconstruir suas histórias. É um livro sobre essa enorme ausência, que é o desaparecimento, e também sobre a escrita, essa possibilidade que a gente tem de se reinventar e se refazer por meio das palavras.










