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editora BestSeller +4

"Nas sombras do Estado Islâmico", de Sophie Kasiki

18/07/2016
"Nas sombras do Estado Islâmico", de Sophie Kasiki
A poeira da guerra A estrada se prolongava como um tecido amarelo pela planície devastada. Os bombardeios das tropas de Bashar tinham aberto crateras entre as quais subsistiam, aqui e ali, algumas miseráveis fazendolas, algumas ainda habitadas. Mas não era possível ver os moradores. Nunca. Estavam escondidos. Montinhos de terra circundavam os buracos como se fossem lábios. Atravessei essa paisagem corroída, deformada pela violência da guerra que ali impera há mais de cinco anos, carregando meu filho no colo, adormecido e escondido sob o meu niqab. Com um braço, segurava o seu corpo pesado e morno. Com o outro, apertava forte a cintura magra de um homem que até ontem eu não conhecia. Agora, nossas vidas dependiam dele. Malik, nosso salvador. A moto seguia tão rápida quanto o seu cansado motor permitia, e o vento jogava um véu escuro contra o meu nariz e a minha boca, dificultando a respiração. Cada minuto que passava, cada hora desde o início da nossa fuga, contava para a nossa sobrevivência. Estávamos sendo procurados e perseguidos em Raca. Quando descobrissem que eu conseguira escapar da cidade, viriam nos esperar ali, na estrada para a fronteira. Malik evitava os buracos e protuberâncias que se alternavam no asfalto coberto de areia. Como uma amazona insegura em sua garupa, me atrapalhava com os véus agora visivelmente cobertos, como tudo mais na região, pela triste e amarelada poeira da destruição. Na estrada, vindo em sentido contrário, passavam com estardalhaço enlameadas caminhonetes, com muitos rapazes que balançavam junto das 12.7, metralhadoras montadas em tripés. Vestindo roupas militares de camuflagem meio esquisitas, eles tinham barbas e cabelos compridos, bigodes aparados. Levavam rifles kalachnikov pendurados nas costas. Com o punho erguido ao passarem por nós, estampavam o orgulhoso riso dos combatentes. Jovens vindos de todas as regiões eram ali chamados mudjahidines e, em outros lugares, jihadistas. Era o exército do Estado Islâmico se dirigindo para o combate. Nosso itinerário fora calculado para evitar check-points, ou pontos de controle. No primeiro deles descobririam que eu não era esposa de Malik — bastaria erguer o véu que escondia meu rosto ou simplesmente me interrogar em árabe para perceber que não entendia a língua. Para mim, a sentença seria a morte por apedrejamento e, para ele, a tortura, seguida de decapitação. Meu filho desapareceria para sempre em um orfanato mantido pelo Estado Islâmico. A moto bate em uma saliência da estrada, freia e derrapa. Em seguida, Malik novamente acelera, e o veículo retoma a direção. Aperto ainda mais o corpo de Hugo, cuja cabeça pesa forte em meu ombro dormente. Avançamos na direção da fronteira turca. Um automóvel com dois homens do Exército Livre da Síria (ASL) seguia na nossa frente, abrindo caminho para localizar check-points móveis. Outro veículo seguia atrás, fechando o comboio. Nesse último os ocupantes estavam armados e reagiriam se fôssemos identificados. Apesar do medo, do esgotamento físico e do desconforto, a sonolência tomou conta de mim e encostei a testa nas costas de Malik. Assustada, me perguntava como pudera chegar àquele ponto, dependendo de desconhecidos, fugindo para salvar minha vida e carregando meu filho adormecido, em um país em guerra. Essa pergunta seria recorrente nos meses seguintes, quando teria mais tempo para analisá-la. E também teria de responder a dezenas de questões ansiosas, dolorosas e até acusatórias de minha família, de meus amigos, assim como da polícia. Todos exigiriam explicações. Tentaria satisfazê-los. Buscaria as possíveis origens do grande cataclismo que atravessara minha vida havia menos de um ano, comprometendo e ferindo meus amigos, meu marido, e pondo em risco de vida meu filho e a mim. Buscaria no passado longínquo revisitaria minha infância e juventude, revendo os erros cometidos e procurando enfrentar com lucidez as insatisfações e ilusões. Toda trajetória de vida é singular. A minha me levou ao grupo Estado Islâmico, com meu filho de 4 anos, pouco antes de eu completar 33. Não consigo encontrar um fato isolado, dentro da galáxia de pequenos acontecimentos que compõem minha vida, que possa explicar tudo. O grande erro seria acusar a religião como causa única e suficiente. Converti-me ao islã, ou seja, sou uma “convertida”, como se diz, e abracei a nova religião com entusiasmo. Mas seria fácil demais, e inexato, dizer que foi por isso que parti. Não existe explicação maior e inevitável para o drama que começou no último mês de fevereiro.