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Entrevistas +5

"Nunca o nome do menino", de Estevão Azevedo

10/01/2017
"Nunca o nome do menino", de Estevão Azevedo
Por Reginaldo Pujol Filho “O drama começou quando eu, ao perceber que era personagem de livro, amputei o dedo mínimo da mão esquerda, imaginando com isso arrancar pelo menos algumas letras das palavras que me descreviam”. Assim começa Nunca o nome do menino, primeiro romance do escritor Estevão Azevedo,jogando o leitor diretamente em uma trama metaliterária que não se prende apenas na reflexão literária e, em recuos e avanços no tempo, também aborda uma história humana e sensível. Lançada originalmente em 2008, a obra foi reeditada pela Record em uma edição revista pelo autor e com um posfácio inédito de Estevão refletindo sobre escrever e reescrever este romance que foi finalista do Prêmio São Paulo na categoria romancista estreante. Na conversa a seguir, o escritor comenta algumas das tantas possibilidades que seu livro oferece (a metaliteratura, a linguagem poética, as possíveis metáforas sugeridas ao leitor), o processo de reencontro com a própria obra oito anos depois, sua experiência como escritor e editor, entre outras questões acerca e ao redor de Nunca o nome do menino.     Uma primeira curiosidade que surge, em se tratando de uma nova edição revisada pelo autor, é saber como foi esse reencontro com o texto oito depois da publicação da primeira edição. Ainda mais quando lemos no seu posfácio que “a obra concluída é para o autor um morto querido e tagarela”. Como foi ressuscitar esse cadáver? Eu tinha muito receio de ser incapaz de chegar até o fim de uma empreitada longa como um romance, daí que era ideal para mim uma ambientação que tivesse bastante a ver comigo e na qual coubesse tudo que eu considerasse interessante ou relevante. Então eu embuti em Nunca o nome do menino, não de forma direta, é claro, todas minhas angústias, anseios, curiosidades, referências. Por isso revisitar esse texto configura, em certa medida, uma arqueologia afetiva. Pensando no aspecto literário da tarefa, foi valiosa a oportunidade de corrigir excessos ou erros relacionados a quem eu era então como escritor. Já na primeira frase do livro, a narradora nos diz que descobriu que é uma personagem. E, ao longo da narrativa, muitas vezes comenta a obra em que está inserida, técnicas narrativas, clichês, etc. Escrever literatura também pode ser uma forma de fazer crítica literária? Por conta da forma e do conteúdo, convivem no livro ficção e crítica do romance. A insatisfação da personagem principal vem em grande parte de uma constatação estética: ela tem ojeriza ao autor que a criou. Escrever literatura é, de certa maneira, fazer crítica literária, pois toda obra literária é um questionamento dos limites da linguagem. Acha que uma leitura possível para essa relação da personagem com seu autor, suas constantes dúvidas sobre estar de fato fazendo ou sendo guiada a fazer, seria uma reflexão sobre liberdade, liberdade e sociedade, liberdade e cultura? É uma leitura válida. Houve leitores que fizeram uma analogia entre os pares autor/personagens e deus/mortais. Como o conceito de liberdade e a relação entre verdade e fantasia estão muito presentes no texto, é possível relacioná-lo com muitas das questões humanas. O que me parece muito bom, mesmo quando a relação é imprevista para o autor. Você, além de escritor, é editor. Na hora de escrever seus livros, escritor e editor trabalham juntos ou dá para separar esses dois Estevãos? O trabalho como editor veio depois do trabalho como escritor. Nunca o nome do menino, por exemplo, foi publicado antes de eu começar minha carreira no mercado editorial. Hoje, porém, é difícil dissociar as duas tarefas quando escrevo meus textos. Na lida com outros escritores, porém, é fundamental o respeito à especificidade decada estilo, de cada projeto, sem levar em conta o meu próprio estilo ou projeto literário. É ajudar, na medida de minhas limitações, cada autor a fazer o melhor com aquilo que possui e quer. Muitos escritores falam de personagens que acabam, por sua força, quase que ganhando vida própria, apontando seus caminhos. E, em Nunca o nome do menino, temos uma personagem querendo se livrar do autor. Você acredita nesses personagens que vencem os autores? Não acredito em personagem com vida própria, nem em personagem escolhendo seu próprio caminho. O personagem é pura palavra. Dizer que ele toma as próprias decisões ou ganha vida significa somente reconhecer que o autor criou um texto cujas validades internas ou externas conduziram a narrativa necessariamente para um determinado caminho. Essa validade pode estar em incontáveis fatores, todos eles literários, entre eles a verossimilhança (de tal personagem em tal situação era esperado que fizesse isso ou aquilo)e a linguagem (uma determinada ação é motivada não por um aspecto da trama, e pela forma, pela sonoridade, pelas figuras de linguagem, pelo ponto de vista etc.).Numa (boa) ficção, cada palavra importa e é determinante para os rumos das personagens, não só as diretamente relacionadas a elas. Na descrição de um cômodo, por exemplo, um adjetivo aparentemente banal e irrelevante relacionado ao modo como a luz do sol incide na parede pode ser mais decisivo para o rumo de uma personagem do que sua própria psicologia, e isso vale para qualquer palavra de um texto. Se isso for verdade, configuraria ingenuidade pensar na personagem como tendo vida própria. As passagens poéticas, com imagens e metáforas, da narradora de Nunca o nome do menino já receberam muitos elogios. E você assume no posfácio a escolha consciente dessa voz que “não pretende ser transparente”. Poderia falar um pouco mais dessa decisão? É uma preferência pessoal que se dá a ver no estilo de meus textos. Como leitor, felizmente, meu gosto não é tão limitado e admiro muito autores de estilos completamente diferentes. No texto em que a literatura se assume como literatura, cabe melhor algo de que gosto muito quando escrevo: pensar no jogo das sonoridades, buscar recursos poéticos como rimas, aliterações, homofonias. Além disso, expor as entranhas de um texto, seu caráter de construção deliberada, auxilia na prevenção de leituras ingênuas. Em última instância, ter acesso ao modo como um texto opera para dizer o que diz, inclusive por meio das escolhas formais ou estruturais, nos ajuda a sermos leitores mais críticos do mundo, para além da ficção. Concorda com tua narradora, quando ela diz que a “matéria prima do artista é a mentira – e com ela somos profundamente verdadeiros”? Não concordo, pois há muita obra de arte excelente feita apenas com a verdade. Pensei em uma obra recente,O impostor. Seu autor, o espanhol Javier Cercas, afirma tratar-se de um romance de não ficção, pois a matéria de que ele se serve é totalmente factual, embora não deixe de ser um romance. Qualquer matéria prima é digna do artista. Nunca o nome do menino foi originalmente lançado em 2008, antes da explosão de Facebook, Instagram, etc. Mas acha que, de algum modo, hoje essa personagem que se vê narrada e quer assumir a própria narrativa ao ponto de mutilar-se, pode se relacionar com as autonarrativas das redes sociais, com a sensação de que todos somos personagens? Excelente questão. Nunca tinha pensado nessa evolução, digamos assim, do ponto central do romance, mas é fato que na nas redes sociais é difícil não ceder a tentação de se transformar em personagem. No caso, personagens de nós mesmos. Isso, porém, em vez de invalidar o conflito entre autor e personagem, uma vez que somos ambos, talvez o exacerbe, pois a luta pela liberdade, quando há, é uma luta contra nós mesmos, contra nossas vaidades, nossa necessidade de aceitação, de autocomiseração. Diretas ou indiretas (criando um jogo para o leitor) são incontáveis as citações a escritores, trechos de livros, poemas, canções. Poderia falar um pouco mais sobre essa opção pela intertextualidade? É para criar um pano de fundo para uma personagem demasiadamente ficcional, digamos assim? É um texto feito a partir de outros textos, nem todos literários. Há música, teatro, cinema, notícias, relatos reais. Isso faz sentido porque em parte é daí que nasce o autoconhecimento da personagem: ela se vê como uma colcha de retalhos mal costurada por um escritor incompetente. Em Tempo de espalhar pedras não há esse aspecto metaliterário na trama, mas ainda assim esse foi o método de pesquisa e construção: a busca dos materiais em outros textos, de todo o tipo, mas especialmente os literários. O livro tem dois tempos distintos da vida da personagem, um passado e um presente. No passado, acompanhamos a descoberta do amor e do sexo pelo olhar da personagem menina. Pode falar um pouco sobre os desafios, obstáculos de construir esse olhar, essas sensações, essa escrita? Um crítico afirmou que a opção pelos dois tempos, mais especificamente o recurso a um tempo passado, o da infância da menina, ocorreu porque seria impossível manter o grau de tensão do primeiro parágrafo no restante do livro. O romance começa pelo clímax, no presente. A infância da menina serviria como contraponto necessário a esse clímax, como possibilidade de existir uma curva ascendente. Faz sentido. Quando escrevi,pareceu importante criar uma trajetória de vida que justificasse descoberta tão insólita na vida adulta, e foi para isso que decidi criar a trama do passado. O maior desafio foi, sem dúvida, fazer os ecos entre os tempos funcionarem sem serem óbvios ou parecerem artificiais. Roubando outra citação da narradora, de que “toda escritura traz em si alguma dor”, gostaria de saber quais foram as dores dessa escritura, Nunca o nome do menino. Durante a escrita de um texto longo, minha angústia frequente é a de não ser capaz de chegar ao final e, como consequência, a frustração por, na maior parte do tempo, não ser capaz de vislumbrar o término dessa tarefa tão importante e de sucesso incerto. É como dispensar afeto, energia e tempo à construção de um edifício sem nunca saber quantos andares ele terá, se será habitável e, pior, se vai desmoronar ao longo ou depois do trabalho. Entre tantas citações do livro, a cena final (que não vou contar; se você quiser, conta) poderia ter um paralelo com Mil e uma noites, alguém salvando a própria vida pelo ato de narrar histórias? No livro, há uma referência explícita às Mil e uma noites: “O analista, Sherazade às avessas, escutava a cada sessão um elo dessa minha longa corrente de fábulas, para que eu, a paciente, na ânsia de conhecer o próximo elo, não morresse.” O ato de narrar para não morrer está no cerne do livro. A citação acima é da mulher, da personagem principal, não de seu possível autor, a quem ela deseja matar. No caso da cena final, como você notou bem (não me lembro se eu já tinha reparado nisso), essa questão é decisiva não só para ela, mas também para o autor que ela odeia.