Asne Seierstad
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"O livreiro de Cabul", de Asne Seierstad
Por Mariana Moreno
Nas últimas semanas, o estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro tomou conta das principais páginas de jornais do Brasil e do exterior. O caso provocou uma onda de manifestações pelo país e deu novo fôlego ao debate sobre a violência contra a mulher. Se a cultura machista está impregnada por aqui, o que falar da realidade de mulheres que vivem sob a égide de um regime fundamentalista?
Um livro interessante que trata do assunto é o best-seller “O livreiro de Cabul”, da norueguesa Asne Seierstad. Logo após a queda do talibã em 2002, a jornalista morou durante três meses com uma família afegã e escreveu crônicas com as inúmeras histórias que ouviu e de que foi testemunha.
Como lembrado pela própria autora no prefácio da obra, o livro apresenta a perspectiva de uma família incomum do Afeganistão. O personagem citado no título é um empresário, dono de uma rede de livrarias. Alguns de seus filhos e outros parentes falam inglês. Um quadro raro em um país em que mais da metade da população é analfabeta. O próprio retrato dos personagens construído pela autora é peculiar por se tratar da visão de uma cidadã europeia. Em um dos textos, por exemplo, ela acha curioso o fato de os amigos próximos serem apresentados à família, o que talvez não pareça tão estranho aos brasileiros.
Como em qualquer sociedade patriarcal, todas as histórias acabam sendo direta ou indiretamente influenciadas pelo Sultan (o livreiro), mas são as mulheres e as adversidades enfrentadas por elas as protagonistas do livro. Asne relata a tristeza dos casamentos forçados e as renúncias das paixões, o dia a dia de obrigações domésticas sem fim e os casos de extrema violência, como o de uma mulher que foi sufocada até a morte pelos próprios irmãos por ter tido um amante. O uso da burca como um artifício para anular a identidade recebe especial atenção da autora. Ela mesma usou a peça para se sentir mais segura ao sair sozinha.
No final das contas, Asne desenvolve uma relação paradoxal com seu anfitrião. Se por um lado ela o admira por seu comprometimento com os livros e a evolução cultural de seu país, em outras ocasiões, ela o odeia, o que fica claro durante diversos relatos de imposições às mulheres da família. Outra história que revela a indignação da autora é quando ela conta que o filho adolescente de Sultan era obrigado a trabalhar 12 horas por dia e não podia frequentar a escola para poder cuidar dos negócios do pai.
Com a profundidade da apuração jornalística e a sensibilidade da literatura, Asne criou um livro comovente sobre a realidade de um país completamente distante do seu. Há pouco tempo, a escritora teve um novo desafio: falar sobre uma tragédia onde nasceu e foi criada. “Um de nós”, lançado em abril deste ano pela Record, reconstitui a vida do terrorista Anders Breivik, que fez 77 vítimas em um atentado na Noruega em julho de 2011.
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