Entrevistas
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“O livro dos títulos”, Pedro Cardoso em autoentrevista
Esta semana, voamos para Portugal para conversar com o ator Pedro Cardoso – o eterno Agostinho Carrara, de A Grande Família –, que acaba de escrever o seu primeiro romance: O livro dos títulos.
Pedro Cardoso nos recebeu na sua singela casa em Lisboa, onde vive há dois anos. Simpático, e fazendo questão de ser informal, o ator já não é mais o jovem magro e espevitado que nos acostumamos a ver na televisão. Os 56 anos bem vividos já mostram as suas marcas. Os cabelos já não são tão abundantes, a pele já não tem o mesmo viço, a ingenuidade desapareceu. Mas ele se mantém em forma e vigoroso, bem disposto para a vida, e ansioso por iniciar esta nova fase profissional, em que se arrisca como escritor.
E então, Pedro? Além de ator você agora também virou romancista?
Escrever um romance foi algo tão inesperado para mim que, depois que o livro ficou pronto, passei a falar dele como se outra pessoa o tivesse escrito; melhor dizendo: como se o Pedro Cardoso que o escreveu fosse outro, e não eu. Eu me acostumei a dizer “no livro do Pedro Cardoso tem isso, tem aquilo...”
O meu trabalho e a minha vocação têm sido até aqui o teatro e a televisão. Nunca me imaginei um escritor e nem sei se abraçarei a profissão. Por enquanto, ainda estou vivendo a surpresa de ter acontecido.
Mas como foi isso? De repente, um belo dia de manhã, você sentou e começou a escrever um romance?
Eu acho que as ideias informam o meio a que pertencem. Uma boa ideia para um livro não seria igualmente eficiente para um filme ou uma peça de teatro. Durante muito tempo, eu tentei impor o teatro a todas as ideias que me ocorriam; mas o teatro rejeitava algumas delas – aquelas às quais faltava teatralidade. Eu, então, deixava aquelas ideias anotadas e ia tratar de procurar outras que fossem naturais do teatro. Com a mudança para Portugal e, principalmente, com o meu afastamento do cotidiano da televisão – que me exigia bastante empenho –, eu me deparei com alguma solidão e algum tempo livre. Foi nesse vazio que a ideia para este livro, que já me acompanhava há muitos anos, ganhou personalidade e se impôs. De fato, como você disse, em uma bela manhã de sol, eu sentei à minha mesa de trabalho e comecei a escrever o romance. Não tinha certeza alguma se o haveria de terminar e me surpreendi a cada dia em que o trabalho correu bem.
Você disse que gostaria de continuar trabalhando em televisão depois que acabou A Grande Família, mas que nenhuma emissora se interessou pelos seus projetos...
Disse e é verdade.
Acha que o livro vem preencher essa lacuna? Que escrever foi um modo de continuar o diálogo que você manteve semanalmente, durante tantos anos, com o público brasileiro?
A sua pergunta é a resposta dela mesma.
E sobre o que trata este O livro dos títulos?
Isso não digo. Não me agrada antecipar nada sobre os meus trabalhos. Divulgar é uma chatice que, infelizmente, faz parte da minha profissão. Se eu pudesse, nada diria. A obra já é tudo que eu tenho para dizer; falar sobre ela é redundante e, a meu ver, estraga a surpresa que faz parte dela. Prefiro, sempre, que o meu eventual público me encontre por acaso, como se eu dobrasse a esquina inesperadamente.
O melhor que posso fazer é inventar esta entrevista, na qual respondo perguntas que eu mesmo me fiz, e sob as quais escondo o livro mais do que o mostro.
Compreendo, claro. Mas não dá para adiantar nem um pouquinho? Só para atiçar a curiosidade do leitor.
Não. Não dá.
[Pedro se mostra contrariado. Sustenta um silêncio perturbador, maneia a cabeça, reiterando um não mudo, quase irritado. Mas algo do frágil e amoroso comediante ainda sobrevive no adulto contrafeito, e Pedro termina por melhorar a sua resposta.]
O livro fala sobre livros e sobre o amor aos livros. Mas fala também sobre o susto de ver o Brasil entrar no rodamoinho político recente; das mentiras da vida moderna; do domínio do comércio e sua subserviência à publicidade; e também de pessoas alegres e cheias de vontade de fazer coisas... Fala de tudo o que está me atormentando desde que o projeto político da minha geração – que o PT encarnava, ao menos para alguns de nós – desmoronou na minha frente de modo tão surpreendente.
Você deixou de acreditar no PT?
Eu acho que o amor irrestrito ao PT é tão absurdo como o ódio absoluto ao PT. Acho que dizer que o PT é o mal do Brasil é tão falso como dizer que o PT é a salvação do Brasil. Acho que o PT não é a única razão da desgraça que estamos vivendo; que muito mais responsável por ela são as mesmas forças conservadoras da nossa sociedade que apoiaram golpe de 64 e todos os outros fascismos que enfrentamos. Mas acho que o PT fracassou no seu projeto original de construir um país onde a política fosse uma atividade honesta. Em verdade, o problema demostrou-se mais complexo do que parecia, é o que eu acho; e nem sei se o PT teria como resolvê-lo; e muito menos acredito que o PT quis que fosse resolvido. Acho também que escolher o próximo presidente do Brasil não deveria ser o assunto mais importante do mundo. Os políticos se tornaram protagonistas da vida do país quando os protagonistas deveríamos ser nós, os povos. Eu acho que o PT não tinha um projeto revolucionário – no sentido de que ele não queria construir um mundo diferente, mas sim colocar outras pessoas no comando do mundo sem, no entanto, alterar o modo de produção. Acho que o PT era um projeto de poder; projeto de um grupo de pessoas que imaginou representar a maioria do povo brasileiro; e talvez o tenha representado, em algum momento. (Pelo menos, no seu início, eu ainda acredito que o PT era um projeto honesto.) Mas a orgia do poder embriagou as suas lideranças, e o partido ficou mais importante do que o país; é o que eu acho. E os inimigos então vieram e, com ardis e vendendo velhas ilusões, pegaram o PT no mesmo crime que eles sempre praticaram, apenas em tempos em que era mais fácil escondê-los. O povo brasileiro ainda não teve a sua vez. Ainda assim, a passagem do PT pelo poder deu ao Brasil alguns avanços fundamentais que sem ela não teriam acontecido. Creio.
Mas a minha emoção é muito mais de perplexidade do que de certezas. Tenho um profundo receio de que tempos de um fascismo aterrador podem estar se aproximando. E torço para que o melhor em nós vença a tentação simplista do autoritarismo – seja ele de direita ou de esquerda. Que o fracasso do PT – que é culpa dele, não discordo; mas que é culpa também de forças sempre contrárias à construção de um Brasil soberano e igualitário – não justifique a ascensão de um nacionalismo absolutista.
Eu nunca tive tanto apreço pela democracia e pela liberdade como tenho hoje.
E de você? O livro não tem nada de autobiográfico?
[Resposta nenhuma.]
Você não gosta muito de falar da sua vida pessoal, não é? Pelo menos, é o que dizem.
[Resposta nenhuma.]
Você espera que o livro venda bem?
Preciso.
E televisão? Nunca mais?
Muito difícil. Mas nunca é demais também.
Tem mais alguma coisa que você queira dizer para o público?
...
Uma mensagem... Projetos, sonhos?
Sonho com a revolução; só não sei que revolução seria. Mas a desejo ardentemente, mesmo desconhecendo-a. Desejo ver o mundo mudado! E me deixar ser transformado pela mudança. Sonho com algo que não sei o que é, mas que seja novo. Sonho que a violência páre de matar diariamente e que o egoísmo dos mais ricos seja superado pela vontade de justiça. Sonho com o dia em que cada pessoa seja responsável por lavar o seu banheiro; acho que é com essa revolução que eu sonho para o Brasil. Sonho com algo que possibilite que a vida de cada pessoa caiba na própria mão; e que implique, entre outras coisas, o fim do trabalho doméstico. O livro dos títulos é a minha contribuição revolucionária a um futuro que não consigo precisar.
Comovido com as próprias palavras, Pedro Cardoso indica que precisa sair para pegar as crianças na escola, mas é mentira. Ele quer apenas encerrar a entrevista, desfazer-se do egocentrismo que adoece os entrevistados; e pensar em alguma outra coisa que não seja nele mesmo.
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