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A livraria mágica da Paris +4

"O maravilhoso bistrô francês", de Nina George

24/10/2017
"O maravilhoso bistrô francês", de Nina George
Em “O maravilhoso bistrô francês”, que chega às livrarias em novembro pela Record, a protagonista Marianne Messmann sobe na Pont Neuf e se joga no Sena durante uma viagem a Paris, mas é salva do afogamento por um passante. No hospital, se vê inspirada por um azulejo pintado com a linda paisagem de uma cidade portuária da Bretanha e decide embarcar para lá. Ao chegar à região, passa a frequentar o restaurante Ar Mor (o mar) e a conviver com Yann, o belo pintor, Geneviève, a enérgica dona, Jean-Rémy, o chef perdido de amor, e várias outras pessoas que abrem os olhos dela para novas possibilidades. Entre refeições, músicas e risos, Marianne descobre uma nova versão de si mesma – apaixonada, despreocupada e forte. Porém, de repente, seu passado chega para confrontá-la. O livro é uma jornada dos sentidos, com refeições suculentas e paisagens estonteantes. Uma história recheada de poesia, beleza, sensibilidade, romance, erotismo e segundas chances. Nesta edição, além de um guia com dicas úteis sobre a Bretanha, há também uma entrevista da autora. Nela, Nina George fala sobre suas inspirações, sua rotina e os primeiros passos da carreira de escritora.   Quando você percebeu que tinha talento para a escrita? Quando uma revista masculina politicamente incorreta apresentou um cheque de quatro dígitos em marcos alemães para publicar um dos meus contos de inspiração feminista, furioso, meio erótico, que, para variar, eu não havia confiado à gaveta, mas aos correios. Eu tinha dezenove anos quando digitei loucamente aquela história em forma de monólogo chamada “Mann, sei doch einfach still” (Cara, fica quieto) em duas noites. Em retrospecto, aquilo foi uma ruptura interna: o clamor de uma jovem contra qualquer tipo de sistema dominado pelos homens, derramado em uma narrativa literária. Daí me veio pelo menos uma ideia do que é escrever — é descarregar, expressar, formar imagens com palavras, uma maneira de levar coisas inéditas e incríveis ao mundo. Mas, em última análise, não existe um alarme, um despertar com uma sensação absoluta que diz: eu tenho talento. É muito mais uma questão permanente: eu tenho talento? E o vivenciar dessa resposta por anos. Em suma, o talento é apenas o impulso para querer escrever, mas o trabalho ocupa o maior espaço. Sem o trabalho, qualquer talento é apenas um anseio difuso e uma força não utilizada. Meus bisavôs eram marceneiros franceses. Antes de poder fazer uma moldura ornamental, um aprendiz talentoso tinha que ir ao liceu de artes e ofícios e serrar zilhões de toras até ficarem retas. Apenas quando aprendi, tanto com a formação jornalística, pela leitura de quilos de literatura de todos os gêneros e qualidades, quanto com uma abundância de autoexperimentos, a direcionar minhas forças, meu talento se transformou em capacidade, o meu serrar de toras se transformou em arte de esculpir palavras. E continuo praticando. Como é o dia a dia de escritora? Você escreve em tempo integral ou tem um “ganha-pão” além da escrita? Escreve à mão ou no computador? É um dia a dia de imprevistos constantes, e o tempo integral da escrita dura vinte e quatro horas por dia, pois, antes do escrever puramente físico (diário literário: lápis e papel resistente; anotações: o eterno Moleskine, guardanapos ou a margem do jornal; tudo que é “para publicar”: no computador), vem a observação, a reflexão. A empatia, a vida. Os fracassos, os sonhos. A leitura. O ouvir. Como sementes que são cuspidas em um jardim selvagem, tudo se planta na minha vida naqueles lugares desconhecidos, dos quais eu desenterro em algum momento histórias, heróis, imagens. Para permanecer na metáfora: limpo e organizado este jardim não é! Aqui, uma pilha de esterco com chateações passadas apodrece, ao lado dela pesa uma árvore de Natal decorada com rostos trágicos vindos do metrô, ali floresce uma flor perfumada, selvagem, de fantasias sensuais. E o que está lá agachado, ao lado do poço? Ah, só o Minotauro com sapatos de salto Manolo Blahnik, uma personagem dúbia como Jano dos mitos já lidos e mulheres modernas de contos de fadas vindas do jornal. Trabalho desde 1992 com a dupla função jornalista e escritora. Após os anos de faculdade e estágio em redações de várias revistas e jornais diários, trabalho desde 1999 como jornalista freelancer, colunista, ensaísta, repórter — criei uma programação semanal para atender a todos os meus clientes regulares. Mas, enquanto o lado jornalístico deve ser criado de um jeito limpo quanto ao trabalho, gerenciável quanto ao tamanho e em geral isento de qualquer ficção, a escrita de romances é outro universo. Mais sensual, emocional, difusa, sanguínea. Existe mais “eu” nisso. E aí a coisa fica emocionante. Existe uma frase, que é: o escritor é capaz de uma coisa na quarta--feira, mas na quinta-feira ele já esqueceu. É uma referência à falta de confiabilidade das musas (muitos chamam de “flow” ou “fluxo da escrita”), mesmo com escritores experientes: tem horas que tudo corre como louco, os diálogos, as imagens, a intuição, quando, o que e como deve acontecer a história. As personagens ficam tão claras diante dos olhos, como se estivessem sentadas comigo à mesa do café da manhã, se transformam em pessoas (prefiro chamar minhas personagens de heróis. Por isso elas são tão vivas). Quando a própria alma está totalmente animada, corajosa, o censor interno (“Quem vai querer ler isso?”) fica em silêncio. A pessoa está inteiramente dentro da história e não se interessa pelos parentes, por roupas a passar nem pelas manchetes do dia. É inebriante. Parece que tem alguma coisa ditando dentro da gente, tudo flui, é livre. Eu sou usada ou uso algo que está dentro de mim? Independentemente disso, a questão é não pensar, e sim escrever! Nos outros vinte e cinco dias do mês, o rio parece minguar. No flow. “Escreva algo agradável. Algo engraçado. Como aquele best--seller lá. E pense na questão da mulher.” Pensamentos em demasia. Tantos que perturbam! Então, a vida real se rompe na cabeça e, principalmente, os sentimentos. Um quarto do que eu escrevo vem com a razão, o restante é com o sentimento. Mas o que fazer com as dores da vida quando se escreve uma cena alegre? E com as preocupações do dia a dia quando se está diante de um final feliz? E o que fazer com a conta-corrente, a geladeira vazia? Não é preferível escrever um romance vampiresco fácil a uma história “difícil”?! (“Não”, o talento se intromete, “você não vai conseguir, você só consegue fazer o que você é. Se desistir, eu sumo!”) Frases que vinham ontem tão rápido, mais rápido do que eu conseguia digitar, hoje são arrancadas com esforço. Nesses dias, surge um lado nada romântico do trabalho de escrita. São dias de cavar, capinar, arrancar as plantas murchas. E de eliminar esses pensamentos perturbadores de alguma forma. Às vezes, nada ajuda mais do que uma volta até um café judaico ou português. Até agora, todos os romances ou uma solução de como uma cena deve continuar me ocorreram em mesas de cafés. E em um café eu reencontro a crença de que aquela embriaguez voltará e a partir daí eu poderei seduzi-la a ficar com trabalho e disciplina. Você é conhecida pelo pseudônimo de Anne West, especialista de sucesso em erotismo. O maravilhoso bistrô francês é uma obra completamente diferente — como ela surgiu? O maravilhoso bistrô francês é meu romance número “quatro e meio” (esse meio é um romance policial de sessenta páginas, os outros três são um thriller, um thriller científico e um romance sobre o lado escuro da beleza) e para mim o mais importante. Não foi fácil, nos últimos anos desde o nascimento de Anne West, criar um contrapeso literário, porque simplesmente faltava tempo para pensar em uma grande história estando entre o ganha-pão e o próximo livro de não ficção de Anne West. E faltava também o vive(ncia)r para dar a este livro o peso e a profundidade que O maravilhoso bistrô francês tem! Talvez eu só precisasse ficar mais velha primeiro? Sentir na pele o que é começar de novo sem nada? Simplesmente virar “eu mesma” primeiro? A protagonista de O maravilhoso bistrô francês é uma mulher de sessenta anos — como você, que é uma mulher muito mais jovem, conseguiu compreender um mundo emocional tão mais velho? Sentimentos não envelhecem. Dúvidas, esperanças, desejos, complexos, devoções, inseguranças, o medo da morte: eles simplesmente não envelhecem e também são conhecidos de pessoas mais jovens, como eu. Mas, no que toca às coisas que uma mulher pode realmente experimentar no próprio corpo quando passou dos quarenta, cinquenta, sessenta, isso eu ouvi. Eu sentia como uma garotinha aquilo que as mulheres mais velhas precisaram me explicar, e também aquilo sobre o que elas calavam, mas falavam muito com gestos, com o rosto e os olhos, coisas muito mais interessantes do que eu ouvia de pessoas da minha idade. Tinha vida ali! Zilhões de horas de vidas, pensamentos, sonhos, conhecimentos. Eu me sinto mais próxima de pessoas mais velhas, às vezes mais próxima delas do que de mim mesma. Existem modelos reais para as personagens deste livro? Sim — e não. Marianne carrega o rosto de todas as mulheres que não são tão jovens e que eu vi em minha vida, com quem conversei, que abracei ou apenas percebi em um pequeno momento a distância. Nela está a mulher de idade da região de Horn, em Hamburgo, que puxa uma revista do lixo e arranca uma amostra de perfume. Nela estão as mulheres que ainda trabalham como garçonetes e cujos sorrisos ficam cada vez mais bonitos quanto mais eu lido com elas. Ela é a mulher que não sabe de onde vem, que eu massageava em uma cama de hospital de uma estância com unguento alcoólico e cuja mão buscava a minha. É minha avó e as mulheres que estão por trás de uma empresa familiar. E as outras? São a mesma coisa: não há modelos únicos. Mas sempre tem alguma coisa de muitos encontros: Pascale, por exemplo, a artista; ela existe de verdade, em um castelo pouco antes de Concarneau, mas vinte anos mais jovem e não tocada pela demência, tampouco pela bruxaria. Ou Colette — peguei sua aparência de uma transeunte graciosa em Paris, sua voz de uma mesa ao lado, seu mundo interior de... bem, isso pode permanecer em segredo. E os homens? O modelo para Emile eu conheci na floresta atrás de Kerdruc, em uma bela propriedade, calado e misterioso. Quem sabe? Talvez seja na verdade um espião aposentado. Existe um lugar que seja pessoalmente um “lugar do destino” para você? Qualquer mesa de cafeteria. Hamburgo, a cidade dos meus sonhos de infância, em especial o bairro de Grindel. E Kerdruc, de alguma forma: precisei percorrer muitos desvios para encontrar esse lugar. Não apenas desvios em termos de estradas, mas também desvios de vida. O fato de Kerdruc ser o cenário para O maravilhoso bistrô francês, que para mim, como escritora, talvez tenha sido o livro mais revolucionário, tem algo de destino em si. Que dom você gostaria de ter? Eu gostaria de poder ficar invisível para espionar conversas e observar as pessoas como elas são quando não se sentem observadas. Sua heroína rompe com a vida anterior e se reinventa. Se você pudesse levar uma outra vida, como ela seria? Existe alguém, talvez, com quem você gostaria (mesmo que apenas por uma semana) de trocar de vida? Não, não gostaria de trocar. Mesmo quando eu olho para trás e vejo todas as burrices que fiz, e para as três, quatro eras de minha vida que não poderiam ter sido mais distintas, ainda assim não haveria alternativa hoje. Talvez porque apenas em algumas noites eu anseie por uma “redenção”, uma vida mais simples, talvez financeiramente mais plena. Ou uma com mais determinação — eu teria algumas coisas a mudar no mundo! Quando essas noites passam, permanece um sentimento: no final, a gente se arrepende apenas pelo que não fez. Eu já me reinventei três vezes, ou melhor, me reencontrei. Mas quantas coisas eu ainda não fiz? Ainda tem algumas coisas na lista, eu vivo enfrentando esses feitos. Qual pergunta ainda não lhe fizeram em uma entrevista, mas que você gostaria de responder? Como se chama sua musa? Apolo, e ele é um amante ciumento, demoníaco, faminto, rigoroso, que ninguém suportaria ter do lado. Uma vez, nós fizemos um pacto, eu pedi liberdade de pensamento, e ele exigiu devoção. Se eu precisasse me decidir entre o amor pelo ser humano e o amor pela escrita, no fim das contas minha escolha seria pela escrita. Felizmente eu não preciso tomar essa decisão.