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Alexandre Nardoni +6

"O pior dos crimes", de Rogério Pagnan

16/03/2018
"O pior dos crimes", de Rogério Pagnan
Em março, completam-se dez anos de um crime que chocou o país e mobilizou a imprensa, a polícia e a justiça até o julgamento do caso: Isabella Nardoni, com apenas 5 anos de idade, foi assassinada e seu pai, Alexandre, junto com a madrasta, Anna Carolina Jatobá, foram condenados e estão presos até hoje em São Paulo. O jornalista Rogério Pagnan estava de plantão na redação da Folha de São Paulo na noite do dia 29, um sábado, e, horas depois, foi até a delegacia, onde viu nascer a investigação. Alguns dias depois do crime, ele entrevistou um pedreiro que disse ter encontrado a porta da obra em que trabalhava, ao lado do prédio da família Nardoni, aberta. O pedreiro, mais tarde, não se sabe por qual motivo, negou o depoimento. Rogério descobriu que policiais da Rota estiveram no local, na noite do crime. Mas a própria polícia civil desconhecia o fato, que não constava, portanto, do boletim de ocorrência. Este e outros fatos chamaram a atenção do jornalista e ele decidiu investigar o caso mais a fundo. O resultado de sua apuração contesta diversas das provas usadas pela polícia e pelo promotor do caso durante o julgamento. Elas estão relatadas no livro “O pior dos crimes”, que ele lança este mês, pela Record. “Na verdade, até agora, não era de conhecimento público (nem os policiais civis que investigaram o crime nem o Ministério Público) quem havia (é que haviam ou quem havia? Fiquei em dúvida aqui) arrombado o portão de um sobrado em obra aos fundos do London. Isso é mais uma revelação da obra. Essa reportagem acabaria me levando dois anos depois a ser chamado como testemunha do julgamento. Não gostei dessa convocação, mas, não tinha como dizer não à Justiça sob risco de ser processado criminalmente. A experiência de ficar confinado com parte dos policiais que participaram da investigação do caso, incluindo da perícia, foi muito importante para o nascimento do livro. Principalmente por ter ouvido do delegado Calixto Calil Filho, o titular do distrito policial do crime, uma frase que indicava haver dúvidas sobre a autoria do crime. Essa frase é a gênese da obra. ‘Se foram mesmo os dois’, relata o autor, em entrevista para o blog da Record. Na obra, Pagnan revela omissões na investigação da polícia e falhas na elaboração do relatório final da perícia e no indiciamento do casal pelo Ministério Público. O autor, que entrevistou inúmeras fontes, consultou arquivos e fez pesquisas para o livro durante cinco anos, aponta uma série de problemas também na cobertura do caso, pela imprensa. Também questiona o fato de o delegado, a perita e o promotor terem condenado o casal previamente, em declarações para a imprensa. Dez anos depois, “O pior dos crimes” desmonta muitas das convicções formadas pela opinião pública sobre o assassinato. O sangue encontrado no carro da família? Não era sangue. O sangue do apartamento? O reagente utilizado não dava 100% de certeza se era sangue ou outra substância. Nem todas as pistas dadas pelas testemunhas do edifício London foram investigadas pela polícia. Alexandre e Anna Carolina nunca confessaram o crime, embora o livro aponte que houve uma negociação para que o pai o fizesse. Depois de tantos anos, resta a questão: o julgamento, com base nesses novos fatos, poderia ser anulado? O livro será lançado no próximo dia 19, em São Paulo. Além da entrevista abaixo para o blog, Rogério Pagnan também conversou sobre "O pior dos crimes" com o editor Carlos Andreazza para a primeira edição do Podcast da Record. Clique aqui para ouvir o papo dos dois.   Você entrevistou o pedreiro da obra ao lado do prédio da família Nardoni e ele disse que encontrou a porta arrombada na segunda-feira, dois dias após o crime, que ocorreu num sábado. O fato não constava do boletim de ocorrência, mas você descobriu depois que a própria polícia tinha vistoriado o local e, provavelmente, arrombara a porta ao sair. Essa reportagem acabou levando você ao julgamento, como testemunha. Podemos dizer que surgiu daí a sua primeira desconfiança em relação à investigação e o levou a fazer as pesquisas que resultaram no livro? Na verdade, até agora, não era de conhecimento público (nem os policiais civis que investigaram o crime nem o Ministério Público) quem havia arrombado o portão de um sobrado em obra aos fundos do London. Isso é mais uma revelação da obra. Fiz uma reportagem sobre o pedreiro e esse portão, publicada cerca de uma semana após o casal ser preso, que acabaria me levando dois anos depois a ser chamado como testemunha do julgamento. Não gostei dessa convocação, mas, não tinha como dizer não à Justiça sob risco de ser processado criminalmente. A experiência de ficar confinado com parte dos policiais que participaram da investigação do caso, incluindo da perícia, foi muito importante para o nascimento dessa obra. Principalmente por ter ouvido do delegado Calixto Calil Filho, o titular do distrito policial do crime, uma frase que indicava haver dúvidas sobre a autoria do crime. Essa frase é a gênese da obra. "Se foram mesmo os dois". No prefácio do livro você lembra a história de um casal australiano condenado pela morte da filha, história que deu origem ao filme Um grito no escuro, e que, mais tarde, descobriu-se que eram inocentes. O seu livro mostra falhas graves na investigação, na perícia e no indiciamento do casal, pelo Ministério Público. Acredita que o julgamento poderia ser anulado a partir dos fatos novos que você traz à tona? Algumas pessoas que já leram a obra avaliam ser necessária a reabertura do caso, porque conheceram pelo livro sérios problemas na investigação. Ficaram com sérias dúvidas sobre o resultado do julgamento. Se ele é realmente justo, ou, melhor, se as provas usadas para condená-lo são suficientes. Meu propósito como jornalista era contribuir com um material jornalístico de qualidade para relatar, de forma imparcial, detalhes da investigação de um dos principais casos da literatura policial da história do país. As consequências dessa obra, se terão alguma, deixo para outras pessoas analisarem. As “provas” mais contundentes de que Isabela teria sido agredida, tanto no carro da família quanto no corredor e dentro do apartamento, seriam as gotas de sangue encontradas pela perícia. Mas, laudos novos mostraram que a substância encontrada no carro da família, e que poderia indicar que Isabella já tinha sido agredida antes de chegar ao apartamento, não era sangue nem muito menos dela. Os reagentes usados para verificação de que havia sangue no apartamento não tinham resultados conclusivos. Você entrevistou a perita do caso, Rosângela Monteiro. O que ela disse sobre o relatório final que assinou? Os laudos utilizados nessa obra são os oficiais, que foram usados para condenação do casal. Eles não tinham sido, porém, analisados de uma forma tão pormenorizada como fiz, com ajuda de peritos, para esse livro. Não gostaria de adiantar o que a perita disse no livro, para não dar spoiler ao leitor, mas, em resumo, Rosangela admitiu algumas falhas nos laudos. Sobre o sangue do carro, por exemplo, ela não admite problemas, mas afirma nunca ter afirmado categoricamente que o material encontrado no veículo era sangue de Isabella. Isso vai contra o entendimento que todos nós tínhamos até agora. O caso Isabella Nardoni foi acompanhado por todo o Brasil nos meses seguintes ao crime, até o julgamento final. Você passou cinco anos fazendo as pesquisas para o livro e mostra, com a sua apuração, que muito do que se acreditava não era verdade. Você tem perguntado para os leitores o que mais chama a atenção na história do livro. Eu queria que você também falasse sobre a sua percepção pessoal. Por que o intitulou “O pior dos crimes”? Olha, estou muito, muito feliz e até um pouco surpreso com tamanha receptividade dos leitores. Nunca tive dúvidas sobre o altíssimo valor jornalístico de "O Pior dos Crimes", mas não tinha certeza do seu valor literário. Para mim estava ótimo, mas, tinha dúvidas se o leitor também acharia isso. Enfim, não sabia se era um bom livro ou apenas uma boa reportagem. Para minha alegria, as pessoas estão amando o livro. Pessoas a me escrever para dizer que fazia anos que não liam um livro com tanta "fome", com tanto prazer, a ponto de não soltar o livro nem para irem ao banheiro, ou avançar pela madrugada na leitura e até cancelar compromissos para tentar terminar o livro o mais rápido possível. É muito legal, também, ver os leitores gostando de partes diferentes da obra. Cada um tem apontado uma parte da história como a sua predileta. As mulheres, em sua maioria, estão se emocionando muito com o lado humano da história. Por que "O Pior dos Crimes"? Isso o leitor terá de descobrir sozinho! A resposta está na própria obra. “As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”. Você escolheu essa frase de Nietzsche como epígrafe do livro. Queria que comentasse sobre o que o caso Nardoni guarda de semelhança com o momento em que vivemos e o que a imprensa, a polícia e o Ministério Público podem aprender com a leitura do livro? Coloquei essa frase como epígrafe porque, especialmente no caso Nardoni, as pessoas demonstram tantas certezas absolutas daquilo que ocorreu, que nem admitem sequer cogitar outras possibilidades para o crime. São crenças tão consolidadas daquilo que aconteceu, algumas ideias tão cristalizadas, e parecem se sentir seguras com isso. Sobre os nossos tempos, acho que o livro traz um pedido de reflexão para todos nós que trabalhams na área criminal, de jornalistas, advogados a juízes. Se os mecanismos que utilizamos para investigar, processar e condenar os suspeitos -- em especial no tribunal do júri -- é a melhor forma de se fazer Justiça. Se a maneira como conduzimos esse processo consegue impedir que inocentes sejam condenados.