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“O que aconteceu na nossa infância e o que fizemos com isso”, de Laura Gutman
Autora do best-seller “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, a psicoterapeuta argentina Laura Gutman é referência mundial na relação entre adultos e crianças. Em “O que aconteceu na nossa infância e o que fizemos com isso”, ela mostra como as experiências dos primeiros anos de vida, sobretudo no que diz respeito à interação das crianças com suas mães, influenciam na visão que temos sobre nós mesmos e estão ligadas às nossas angústias e aflições na vida adulta. Nesta entrevista, a autora fala sobre o seu novo livro e detalha a metodologia “biografia humana”.
Podemos dizer que as experiências da primeira infância determinam a personalidade?
As experiências da infância condicionam a totalidade de nossa vida posterior: nossas crenças, refúgios, nossas reações, anseios, medos, nossas deficiências e nossas habilidades. Não é um problema de personalidade. É um tema de organização da consciência para a sobrevivência emocional.
No livro, você fala bastante do desamparo na infância e os reflexos disso na vida adulta. Por outro lado, você acredita que as influências negativas também podem ser originadas de um excesso de proteção e cuidado?
Nunca vi uma criança com excesso de proteção e cuidado. Às vezes, erroneamente denominamos como “excesso de cuidado” quando uma mãe ou pai proíbem um filho de sair, explorar ou seguir um desejo pessoal por medo, mas isso não é proteção. Isso se chama abuso. O abuso emocional é destrutivo para uma criança porque as crianças não vieram ao mundo para satisfazer os adultos. Na verdade, os adultos que têm que acompanhar, satisfazer, apoiar e facilitar a vida das crianças, de acordo com suas necessidades e desejos espontâneos.
Como os profissionais que aplicam a metodologia da biografia humana fazem com que os consultantes encontrem a criança que eles foram genuinamente, sem a interferência dos discursos maternos? Como é possível alcançar esse distanciamento?
Sim, é difícil, mas eu ensino na minha escola. Basta explicar que nosso trabalho se parece mais com o trabalho dos detetives porque estamos buscando algo que o indivíduo não sabe sobre si mesmo. Por isso, não nos interessa o que cada indivíduo disse, mas sim compararmos as experiências e recordações da infância com as expectativas dessa pessoa, de acordo com um desenho original humano.
Existem mães de primeira viagem que já fizeram a biografia humana e te procuraram para saber como evitar certos comportamentos que possam ser prejudiciais ao filho no futuro?
Com certeza. A biografia humana é um sistema de indagação pessoal disponível para homens e mulheres, com ou sem filhos e que podemos passar em qualquer momento de nossa vida adulta. O propósito não é saber que comportamentos são adequados, mas sim compreendermos mais, compadecermos da criança que fomos e se temos um filho, habilitar nossa capacidade de percepção, fusão e sintonia para sentir nossa criança e satisfazê-la.
O mundo e o Brasil, em particular, vivem um caos político e social e não é raro escutar pessoas falando sobre os desafios de se educar uma criança nos últimos tempos. Para você, o cenário atual exige uma nova postura dos pais?
Eu lido com algo anterior à educação: a criança. A deficiência emocional dos adultos quando temos que dar prioridade às crianças é alarmante. Por isso, somos adultos que temos que revisitar o que nos passou quando fomos crianças, o que fizemos com o que nos passou, o que podemos compreender hoje e que decisões conscientes podemos tomar agora em favor do bem comum. Se não cortarmos as cadeias transgeracionais do desamor, desamparo, autoritarismo, repressão e ignorância afetiva não poderemos organizar um mundo mais justo, solidário, sustentável, ecológico e harmonioso.
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