Betty Milan
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"O que é o amor", de Betty Milan
Publicado pela primeira vez em 1983, “O que é o amor”, de Betty Milan, relata e interpreta a vivência deste sentimento em suas diversas formas, povos, lendas e costumes. Dividido em quatro partes – “A paixão do amor”, “Os dizeres”, “O amor hoje” e “A paixão do brincar”, o livro examina os dizeres amorosos e suas contradições, retomando clássicos de Platão, Shakespeare e Dante. A miscelânea de textos que compõem o livro revela a dificuldade de “capturar” este sentimento e apresentá-lo de forma objetiva.
Um dos capítulos de “O que é o amor” foi adaptado para o teatro em 1994 com o título “Paixão”, em peça estrelada por Nathalia Timberg. A obra também inspirou uma exposição de frases, desenvolvida pelo arquiteto, designer e artista plástico Augusto Livio Malzoni.
A obra volta agora às livrarias pela Record com nova introdução e projeto gráfico.
Sua visão sobre o amor mudou desde quando o livro foi lançado pela primeira vez?
O sentimento e o discurso amoroso não mudaram. No livro eu trato da paixão do amor, que é eterna e foi sempre objeto da filosofia e da arte. Platão escreveu O Banquete, Shakespeare legou Romeu e Julieta e Dante, A Divina Comédia…São tantos os nomes que eu poderia citar… Além de eterno, o amor será sempre moderno porque ele faz imaginar, permite sonhar acordado. Graças a ele nós saímos da realidade e nós precisamos disso. Agora, o amor faz bem mas tambem pode fazer mal. Daí o meu bem, meu mal do Caetano, um dos nossos grandes bardos.
Podemos afirmar que a miscelânea de textos que compõem "O que é o amor", com citações de autores e análises das contradições vividas pelos amantes, expressam a dificuldade de capturar este sentimento e de abordá-lo de forma objetiva?
Digo no livro que o amor é um enigma e não há como fisgá-lo numa ou noutra definição. Possível que por ser enigmático, o amor favoreça a produção do discurso sobre ele. Nós seres humanos escapamos à nossa condição inventando e reinventando o amor. Não podemos viver sem este contentamento descontente que sempre nos surpreende. A ponto de fazer de todo amante um marinheiro de primeira viagem.
Na introdução à nova edição, você relembra como o livro foi recebido pela imprensa em 1983 e destaca as cartas enviadas aos jornais por grupos de mulheres que se reconheceram na obra pela crítica ao machismo. Você acredita que de lá pra cá o amor tem sido vivido em mais pé de igualdade? O que ainda falta conquistar e de que forma o fortalecimento do movimento feminista e também LGBT pode contribuir para isso?
O machismo é contrário ao amor. Só é possível viver o amor em pé de igualdade. Noutras palavras, aceitando a liberdade do outro. Octavio Paz escreveu na Dupla Chama que o amor é uma aposta na liberdade. Ora, macho que é macho não reconhece o desejo feminino. Há no meu livro um capítulo inteiro sobre isso. Os movimentos feministas e LGBT são fundamentais para a conquista da liberdade. Mas a luta não basta para que nós possamos viver o amor verdadeiro, ele é raro. Me inspirou O Amante Brasileiro que está noutro livro da Record, A Trilogia do Amor.
Você acredita que os novos arranjos das relações , como nos casos de amor livre, poliamor e relacionamentos abertos refletem mudanças na forma de se viver esse sentimento ou apenas legitimam experiências que já eram vividas em outras épocas?
Graças à revolução sexual dos anos sessenta, as diferentes formas de viver a sexualidade foram legitimadas. Mas correspondem a experiências vividas no passado, particularmente durante o século XVIII. Verdade que os libertinos eram os aristocratas.
Neste contexto, você diria que o amor romântico está em crise? Alguns psicanalistas defendem que o casamento é uma instituição falida. Você concorda com esta afirmação?
O amor é sempre romântico. Agora, não se pode confundir amor e sexo. O sexo até pode ser contrário ao amor e eu falo disso no meu livro. O casamento é problemático porque o desejo muda de objeto. O adultério está sempre no horizonte do casamento. Mas nem por isso ele é uma instituição falida.
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